Nazareth: um elogio à pertinácia
Por Ricardo G. dos Santos
Postado em 30 de novembro de 2025
De acordo com os dicionários, a pouco lembrada palavra "pertinácia" significa obstinação, tenacidade, perseverança. Acredito que se trate de um qualificativo adequado para a trajetória do Nazareth. Não apenas pela perseverança da banda (na estrada desde meados de 1960), mas também porque ela sempre foi pouco lembrada quando se fala dos grandes nomes do rock.
Comecei a ouvir os discos do Nazareth por volta de 1984. Gostei tanto das primeiras audições que, de cara, comprei um álbum duplo: "O Rock de Nazareth". Em seguida, comecei a vasculhar, pelos museus do disco da vida, por álbuns mais antigos. O motivo: não havia sequer uma música, em todos os álbuns, que eu não gostasse de ouvir. Claro, sempre temos nossas faixas preferidas, mas eu me encantava com o fato, até então inédito, de gostar de todas as composições, além de curtir muito o impressionante trabalho de guitarra de Manny Charlton e a voz poderosa e inconfundível de Dan McCafferty.

Mas, não foi fácil ser um adolescente fã do Nazareth em meados dos anos 1980. Meus amigos diziam que era uma banda velha e ultrapassada. Alguns até zombavam. Em 1985, quando nenhum álbum de inéditas foi lançado, eu entrei em pânico: Será que eles se aposentaram?
Não, eles não se aposentaram. O grupo, de origem escocesa, permaneceu na estrada por todas essas décadas e, cerca de cinquenta anos depois de estourar nas paradas de sucesso com "Love Hurts", anuncia uma nova turnê em nosso país, a ocorrer em julho de 2026.
Desde 1971, quando lançaram o álbum "Nazareth", até o recente "Surviving The Law", de 2022, há muito que se discutir sobre a trajetória da banda, e muitas – realmente muitas – gravações de excelente nível a serem descobertas por aqueles que tiverem a feliz curiosidade de ouvirem todas as suas gravações.
É fato que o auge ocorreu entre os álbuns "Razamanaz" (1973) e "Hair Of The Dog" (1975), mas também é uma grande injustiça limitar os méritos do Nazareth a esse período. Álbuns da mesma década, como "Close Enough For Rock 'N' Roll", "Expect No Mercy" e "No Mean City", são igualmente antológicos. Outros ótimos trabalhos foram gravados nas décadas seguintes. como "2XS", "Cinema", "No Jive", "Boogaloo", "The Newz" e outros tantos. Mesmo os lançamentos mais recentes, já com o vocal de Carl Sentance, são muito bons.
Aliás, ciente de que Dan McCafferty é inimitável, Carl trouxe para a banda seu próprio estilo e, ao contrário da expectativa pessimista de muitos, adicionou mais vigor e energia ao longevo grupo. Tradicionalmente baseado no blues, o hard rock do Nazareth passou a soar mais heavy metal em alguns momentos, o que está em perfeita sintonia com o caráter eclético da banda.
As raras aparições na mídia talvez se devam, em parte, à própria característica dos músicos do Nazareth, que sempre tiveram um comportamento discreto (para o padrão dos roqueiros) e nunca investiram muito em estratégias de marketing. No entanto, eles sempre fizeram muito bem o essencial, jamais tendo deixado de gravar petardos do mesmo nível de "Razamanaz" e belas baladas como "Where Are You Now".
Aqui entra a pertinácia. Relegado ao ostracismo em vários períodos, o Nazareth dependeu sempre da garra e do talento de seus músicos para continuar relevante. De sua tenacidade e força para remar contra a maré. E sua persistência tem sido recompensada. Prova disso é que a banda continua fazendo shows ao redor do mundo e ainda é muito cultuada em vários países.
Um dia desses, estive vendo as apresentações da banda disponíveis no Stingray. É muito bom ver a energia e o talento deles ao vivo, mas ficou uma pequena tristeza: o fato de que, desde 1990, quando tocaram no Ibirapuera logo após o Nenhum de Nós (no show comemorativo pelos cinco anos da Rádio 89 de São Paulo), nunca mais tocaram em um grande festival no Brasil. Durante todos esses anos, torci para que eles fossem convidados para eventos como o Rock in Rio ou o Monsters of Rock. Até agora, no entanto, isso não ocorreu.
A turnê pelo Brasil em julho de 2026 tem shows agendados para o Espírito Santo (Sama Rock Festival), São Paulo (Manifesto), Belo Horizonte (Mister Rock), Curitiba (Tork 'n' Roll), Porto Alegre (Opinião) e Brasília (a ser anunciado).
É justamente nesse show a ser anunciado que reside uma expectativa. Afinal, a data reservada para Brasília coincide com o primeiro dia do grandioso Capital Moto Week (23/07/2026). Desta forma, além da bem-vinda inclusão no Sama Rock Festival e dos shows agendados para diversas capitais, a banda poderá participar também de um espetáculo que reúne multidões (e que tem grande cobertura da mídia).
É apenas uma possibilidade, mas um fã pode sonhar.
A banda certamente merece.
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