Nivea Viva Rock Brasil: 150 mil cantando rock em karaokê de luxo

Resenha - Nivea Viva Rock Brasil (Aterro da Praia de Iracema, Fortaleza, 15/05/2016)

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

No final de tarde de domingo, 15 de maio, cerca de 150 mil pessoas foram ao Aterro da Praia de Iracema para celebrar o rock nacional, no NIVEA VIVA Rock Brasil, uma acertadíssima estratégia de marketing da Nivea, uma marca de cosméticos. Os principais nomes da noite eram o ruivão NANDO REIS (ex-TITÃS), Paula Toller (ex-KID ABELHA), os PARALAMAS DO SUCESSO e a cantora/atriz Marjorie Estiano (substituindo PITTY, anunciada no início do projeto, mas com participação vetada devido a sua gravidez). Havíamos prometido não escrever nada sobre este show (depois das maratonas que foram os festivais Ponto.CE e Abril Pro Rock, eu estou "de folga"), mas lá vamos nós outra vez, sem conseguir se isentar de dar opiniões sobre o que vimos e ouvimos.

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Foto: produção do evento
Foto: produção do evento

E além de ter o nome no show, a NIVEA ainda mostrou um cuidado especial com quem chegava ao Aterro, entregando um pequeno kit com alguns cosméticos, balão e um item que se mostrou muito, muito bem pensado, um boné descartável. No final de tarde de Fortaleza, o boné, mais que retribuição do público em forma de propaganda em suas cabeças, era uma questão de saúde. Um grande cuidado com o público que foi ainda além dos obrigatórios maqueiros, bombeiros, seguranças, etc... E a D&E, produtora cearense responsável pela execução do show, também merece os elogios. Pontos extremamente positivos. Eu só mudaria a disposição dos banheiros, colocando alguns também próximos ao palco.

Com um atraso mínimo, o show começou logo após as cinco da tarde. Não havia forma melhor de começar o show senão com a "Pelo Telefone" do rock brasileiro. Embora uma versão de uma canção italiana, "Banho de Lua", na voz de CELLY CAMPELO foi a primeira linha do primeiro parágrafo do livro que se pretendia ler naquele final de tarde na Praia de Iracema. E colada num medley com canções entoadas por Roberto Carlos, em seus tempos de Jovem Guarda, o início de show ficou ainda mais significativo. A inclusão do riff de "Seven Nation Army", dos WHITE STRIPES, no entanto é dispensável, tirando toda a semântica do proposto.

Completam o super-grupo os músicos Dado Villa-Lobos (LEGIÃO URBANA) e Rodrigo Suricato (SURICATO) nas guitarras, o produtor Liminha (MUTANTES) no baixo, o tecladista Maurício Barros (BARÃO VERMELHO) e o faz-tudo Milton Guedes (LULU SANTOS) na gaita, sax e pandeiro, "afiando faca e descascando laranja".

A medida que o show (erroneamente chamado de festival em muitos veículos não especializados - embora fosse um super-grupo, ainda era só uma banda) avançava, revezavam-se os vocalistas sozinhos, em duo ou trio de vozes. A grande interrogação da noite era a atriz Marjorie Estiano e como ela se sairia interpretando as canções que seriam interpretadas originalmente pela baiana PITTY. Mesmo simpática e com boa voz, ela ainda é uma atriz e demonstra não estar acostumada com toda aquela multidão. Mas longe de ser algo negativo, isso é bom. Ajuda na conexão com o público.

Há um personagem na série VIKINGS (History Channel) chamado Athelstan. Ele é um frade inglês que sobrevive a um ataque viking, é capturado pelos bárbaros saqueadores do Norte e acaba aprendendo bastante sobre a cultura de seus captores. Sem ser essencial, mas importante, sua presença, na verdade, é uma estratégia dos roteiristas para mostrar os vikings pela perspectiva dos ingleses, surpresos, perplexos, horrorizados com a brutalidade daquele povo, é uma forma de conectar o expectador à série a partir de uma perspectiva que seria muito parecida à sua. Voluntaria ou involuntariamente, é mais ou menos isso que acontece com Marjorie. Ela é o Athelstan daquele palco de estrelas do rock.

E apesar de ser um show de rock, as escolhas ainda refletiam o que mais teve apelo popular dentro do estilo no Brasil. E o resultado parecia moldado para as rádios. As canções foram sendo tocadas de forma quase expressa, deixando de lado os solos, parte essencial no rock, como o solo de "Ovelha Negra", reduzido, limado. Uma pena.

Os discursos também não deram a tônica. Mesmo NANDO REIS, que é quem mais fazia as vezes de capitão do time e é normalmente um tanto prolixo, foi mais sucinto. Antes de anunciar os PARALAMAS, única banda que ainda não tinha dados as caras (com exceção de João Barone, que cuidou das baquetas durante o show), NANDO brevemente diz que o Rock o ensinou a ser quem é. Dado Villa-Lobos, por sua vez, disse que não estaria aqui (no palco) hoje se não fossem Herbert, Bi e João. "Eu estaria aí com vocês", enquanto Paula Toller lembrou que dos 60 anos do rock brasileiro, todos aqueles músicos estavam lá a pelo menos trinta (o que obviamente não vale para Estiano e Suricato).

Enquanto sucessos de praticamente todas as bandas de rock brasileiras que tocaram no rádio até cansar desfilavam pelo palco (confira o setlist no final da matéria), o público cantava sem parar, chegando a soar quase tão alto que suas vozes se confundiam às dos vocalistas, um verdadeiro karaokê de luxo.

As escolhas são um tanto óbvias e até comumente não são as melhores canções de cada artista homenageado. "Vou Deixar", do SKANK, "Anna Júlia" dos LOS HERMANOS, são tão batidas que há até o caso da própria banda original (falo dos LOS HERMANOS) ter resolvido dar um tempo com elas, mas o público não se importa com isso. A escolha pra homenagear CÁSSIA ELLER também poderia ser melhor, uma vez que "O Segundo Sol" também é bastante conhecida na voz de Nando Reis. Já Marjorie, que, como mencionamos, substituíra PITTY, acaba fazendo outra homenagem ao cantar a música da vocalista original do projeto, "Me Adora".

Um ponto em que as atrações deixam a desejar é no espírito contestador, algo inerente ao rock. Se omitir é algo que o rock nunca fez, mas nenhum dos frontman ou frontwoman disse qualquer coisa sobre a situação do país, em pleno processo de impeachment. Ninguém contra, ninguém a favor, ninguém "muito pelo contrário". Nenhum "Fora, Dilma" ou "Isso é golpe". Um rock tão comportado é que é um golpe, digo eu.

E, mesmo com uma lista imensa de músicas e artistas, não faltou quem fosse esquecido. Bandas como os mineiros do PATO FU e sua rotopopmusic, CAMISA DE VÊNUS, NENHUM DE NÓS, RAUL SEIXAS (ele teve a sua "Gita", na voz de Nando Reis, mas, dada a sua importância na popularização do rock nacional, ainda conta como uma das ausências) e, principalmente, ENGENHEIROS DO HAWAII, que, em seus anos dourados, compôs com LEGIÃO e PARALAMAS a principal tríade do rock brasileiro. E o rock cearense? Ignorado. Só foi lembrado por Liminha, que já ouviu de tudo (até existe banda chamada NEM LIMINHA OUVIU), que citou uma banda (que infelizmente nem os cearenses também já tinham ouvido). Surpresa foi ter uma música do RAPPA (não que não merecessem, mais por não estar no repertório original) e uma do SURICATO (sim, cada vocalista também cantava uma das suas canções, mas, a banda ainda é muito nova para ter direito a incluir algo na lista). Bandas importantes do metal nacional, como ANGRA e SEPULTURA até que mereceriam também uma canção (todo artista gringo que entrevisto cita pelo menos uma das duas entre suas preferências ou até influências), mas isso já foge ao escopo. Vamos parar por aqui.

Mas nem essas ausências, nem o forte apelo mais pop fizeram com que o show deixasse de ser um grande evento, uma festa merecida a um estilo que hoje luta para se manter entre um imenso mar de bobagens ridículas como sertanejos universitários analfabetos e forrós eletrônicos acéfalos. O rock nacional (e também a MPB, a nova e a velha) é um oásis em meio ao "munturo" (usando aqui uma expressão cearense). São cento e cinquenta mil pessoas cantando, sendo alegres, celebrando a boa música, em paz (fora um flanelinha extorquindo pessoas que tentavam estacionar em uma rua, nada de mais grave foi confirmado pela polícia). Não é um show de covers. É um show de tributo.

Embora cada canção tivesse tocado todos e particularmente a cada um, o momento mais bonito, talvez, foi quando Dado Villa-Lobos regeu o coro ao som de "Monte Castelo" e a Praia de Iracema virou uma mini-Via Láctea, com cento e cinquenta mil estrelas brilhando em suas areais (eram as luzes dos celulares, os isqueiros dos anos 2000). Se daqui de baixo foi bonito, era nessa hora que eu queria ser eu mesmo o Athelstan da noite e estar ali no palco.

O show da NIVEA, como ficou mais conhecido o evento, já passou por Porto Alegre, Rio de Janeiro e Recife antes de Fortaleza. Suas próximas paradas são Salvador (22 de maio), Brasília (5 de junho) e São Paulo (26 de junho). Em Fortaleza a produção foi da D&E. É uma iniciativa que deveria continuar nos anos a seguir, assim como passar por mais cidades.

Setlist*

1. Banho de Lua/É proibido fumar/Pode vir quente que eu estou fervendo/Quero que vá tudo pro inferno (Marjorie /Paula/Nando)
2. Panis et circenses (Marjorie)
3. Ando meio desligado (Marjorie)
4. Agora só falta você (Marjorie/Paula/Nando)
5. Ovelha Negra (Paula)
6. Gita (Nando)
7. Sonífera Ilha (Nando/Paralamas)
8. Marvin (Nando/Paralamas)
9. Óculos (Paralamas)
10. Meu erro (Paralamas)
11. Tempo perdido (Dado/Paralamas)
12. Será (Dado/Paralamas)
13. Até quando esperar (Marjorie/Paralamas)
14. Como eu quero (Paula)
15. Nada sei (Paula)
16. A dois passos do paraíso (Nando)
17. Ciúmes (Nando)
18. Olhar 43 (Rodrigo Suricato)
19. Fullgás (Marjorie)
20. Me adora (Marjorie)
21. Segundo Sol (Nando)
22. Vou deixar (Nando/Paula)
23. Anna Julia (Dado)
24. Primeiros erros (Paula/Rodrigo Suricato)
25. Talvez (Suricato)
26. Praieira (Pitty)
27. Proibida pra mim (Nando)
28. Mulher de fases (Suricato)
29. Monte Castelo (Suricato)
30. Último Romântico (Todos)
31. Pro dia nascer feliz (Todos)
32. Do seu lado (Todos)
33. É preciso saber viver (Todos)
34. Agora só falta você (Bis com Todos)

* Houve a inclusão de "Me Deixa" do RAPPA.

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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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