Selvagens à Procura de Lei: O Legião Urbana dos anos 2000?
Resenha - Selvagens à Procura de Lei (Anfiteatro do Dragão do Mar, 01/11/2015)
Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
Postado em 20 de novembro de 2015
Rafael Martins, Gabriel Aragão, Caio Evangelista e Nicholas Magalhães são os SELVAGENS À PROCURA DE LEI. Um dos nomes mais promissores do novo rock nacional, a banda cearense, hoje com endereço fixo na capital paulista, escolheu sua cidade natal para lançar "Tarde Livre", o primeiro single de seu novo CD, que se chamará "Praieiro". Estivemos no Anfiteatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura para conferir mais uma vez o rock dos agora não tão garotos e contamos abaixo como foi. Todas as fotos são de André Rocha.
Com um anfiteatro lotado, a "Hora do Brasil" começou às 8:30 naquele domingo. Todos os jovens fãs dos SELVAGENS A PROCURA DE LEI começaram a pular e cantar com "Brasileiro", a primeira das canções pra cabeça e pro pé que o quarteto cearense, agora radicado em São Paulo, trouxeram na bagagem. A letra da canção, infelizmente, será sempre tão atual quanto a dos roqueiros dos anos 80. O show continuou com os santos e selvagens entregando "Casona" para o público fiel que se apertava na área entre o palco e as arquibancadas, querendo ficar o mais próximo de seus jovens ídolos.
Em "Massarrara" os gritos aumentaram. O público dividia os vocais com Gabriel e alguns até arriscaram uns stage dives. Com um show praticamente sold-out, alguns fãs até assistiam o show na rampa que contorna o anfiteatro (graças também ao horário da apresentação). Em termos de som, a equalização estava muito boa, com o baixo de Caio bastante audível e as guitarras sem ruídos além do planejado.
Gabriel e Rafael se alternam no papel de frontmen. "Essa aqui faz tempo que a gente não toca e vamos tocar especialmente pra vocês", avisaram antes de "Doce Amargo". E continuaram se comunicando com o público a cada canção. "Estamos lançando o primeiro single do novo CD, a gente tá muito feliz de ter vocês aqui com a gente...", até Nicão (brincando) interromper: "Pô, Rafa, manda rock and roll aí, malandro".
Apesar da divulgação do "Praieiro", terceiro disco dos SELVAGENS, focar no single "Tarde Livre", não foi essa a primeira canção do disco a ser tocada em Fortaleza. A funkeada "Sangue Bom" começa com Caio detonando no baixo e tem mais adiante Rafael se estendendo no solo e mostrando o quanto tem ampliado seu domínio do instrumento a cada disco. "Aqui em Sampa, toda cena é de cinema" e "Chega de estender a mão pra quem te sacaneia", diz a letra da canção, refletindo o momento atual da banda, mais uma que, como tantas outras que a precederam, foi exportada para a Terra da Garoa.
Algo que faz com que o som dos SELVAGENS caia no gosto do público são as letras. Há as sacadas geniais ("te encontrei pela terceira vez, mas aquela também não era você"), há a critica política, mas há também muito de pessoal. E falando de seus próprios problemas, das situações comuns da juventude, o conteúdo lírico acaba se tornando plural, cabendo na vida de quem escuta. O ENEM (ou o vestibular), as primeiras paixões, as primeiras decepções, as cobranças da juventude tão bem expressas na letra da canção. Alguma semelhança com o LEGIÃO URBANA? Sim, num tempo em que a imbecilização da música brasileira procura reduzir emoções a tchechererês e onomatopeias afins, bandas como os SAPDL, MAFALDA MORFINA, CIDADÃO INSTIGADO (coincidentemente todas cearenses, todas vivendo em São Paulo) servem de apoio a quem ainda acredita que a vida pode oferecer mais que Whisky e Red Bull.
Chega finalmente a hora de "Tarde Livre", ouvida pela primeira vez em um palco naquela noite e dedicada por Gabriel a Fortaleza. "A vida é muito bonita quando você acredita nela, quando perde o medo de viver", diz a letra da canção, que tem uns toques de blues e muita chuva de papel picado durante sua execução. "Eu só queria estar aí", quem já esteve longe de sua terra sabe a força de palavras como essas quanto juntas.
"Quem veio aí de cambão", pergunta Nicão, antes de mandar "051", uma das primeiras músicas de trabalho da banda (que naquela noite recebeu uma intro especial). A música evoluiu com o tempo, agora que nenhum deles pega a 051 (mas o MetroSP talvez). "Patrícia Narcisista", que, a banda não toca a muito tempo, também marcou presença.
Se as canções "cresceram", é inegável que a própria banda também cresceu. Isso já está provado desde o segundo disco, com canções mais sóbrias, maduras, densas, como "Mar Fechado", que eclode num solo imaterial de Rafael. Gabriel assume o teclado nas excelentes "Crescer Dói", "O Amor Existe Mas Não Querem Que Você Acredite" e "Sr. Coronel", particularmente, meu bloco favorito do show.
Assim como em "Despedida", do segundo disco, em "O Que Será", mais uma do "Praieiro" (a mais "praieira" das apresentadas na noite), Nicão mostra novamente seus dotes no microfone, mas segurando o vocal principal durante toda a música. O show ainda teve a participação especial de "Rafa Maia" nos teclados na também inédita "Dois de Fevereiro". A música é dançante e tem a aura de uma década em que quase ninguém no público (nem no palco) tinha nascido, os anos 70. "Bem vindo ao Brasil", a "Aluga-se" dos anos 2000, foi dedicada "a todos os políticos do meu país", declara Gabriel. "Aqui estamos em guerra civil. Quem não tiver estômago, abandone o navio", diz a letra.
A banda deixa o palco após "Despedida" (oportuno, né?), mas volta para um bis com reprise de "Tarde Livre" (e mais papel picado voando) e "Mucambo Cafundó", como esperado, um dos pontos altos do show e também o seu último ato daquele show em que o jovem quarteto mostrou profissionalismo de banda com muito mais tempo de carreira. Os quatro e sua produção se mostraram organizados, mas não engessados, líderes, mas não didáticos, jamais deixando de lado a essência do RR. E em meio ao público, ainda pude ver o pessoal da FUNÇÃO PROGRESSO e EFEITO EXTREMO (confira matéria abaixo), bandas ainda nos primeiros passos que haviam declarado antes ter os SELVAGENS como referência. O baterista Pedro Victor acabaria se declarando fã dos SAPDL depois daquela noite.
Se os SELVAGENS A PROCURA DE LEI são o novo LEGIÃO URBANA? Não, não são (até porque o baterista sabe tocar), mas, assim como a banda de Brasília nos anos 80 e 90, o SELVAGENS dá voz a adolescentes espinhentos e que, em meio a um rock cada vez mais inofensivo (ou outros ritmos ofensivos até demais) estavam fadados a crescer calados. E crescer assim, dói.
Agradecimentos:
Arte Produções, especialmente Jéssica Malheiros e João Cabral, pela atenção e credenciamento.
Denor Sousa, pelo apoio de sempre
André Rocha, pelas imagens que ilustram esta matéria
Sílvia Amora Tavares, por crescer junto comigo.
Setlist:
1. Brasileiro
2. Casona
3. Massarrara
4. Amigos Libertinos
5. Doce Amargo
6. Surpresas
7. Sangue Bom
8. Juventude Solitude
9. Tarde livre
10. Esperando pelo 051
11. Claudia
12. Jamoga
13. Adeus é Tudo que Eu Preciso Ouvir de Você
14. Patrícia Narcisista
15. Mar Fechado
16. Crescer Dói
17. O amor existe, mas não querem que você acredite
18. Sr. Coronel
19. O que será
20. Enquanto eu passar na sua rua
21. Mais um palhaço no seu carnaval
22. Dois de Fevereiro
23. Bem vindo Ao Brasil
24. Despedida
25. Tarde livre (reprise)
26. Mucambo Cafundó
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