Los Hermanos: Resenha e fotos da apresentação em Fortaleza
Resenha - Los Hermanos (Centro de Eventos do Ceará, Fortaleza, 09/10/2015)
Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
Postado em 15 de outubro de 2015
Com apenas quatro discos em sua discografia oficial, os LOS HERMANOS tem status de banda cult. "Los Hermanos", de 99, "Bloco do Eu Sozinho", de 2001, "Ventura", de 2003, e "4", de 2005, alavancaram o quarteto formado por Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Bruno Medina e Rodrigo Barba à posição de uma das bandas mais importantes e relevantes do rock nacional. Sua mistura de rock alternativo, samba e MPB arregimentou uma legião de fãs que vibra a cada notícia de nova reunião (a banda encontra-se em um hiato indefinido desde 2007) e arremata rapidamente os ingressos para os shows de cada uma das turnês. Em 2015 serão 14 shows, em 10 cidades, com alguns shows sold out (em Recife, São Paulo e Rio de Janeiro) e outros bem próximos disso. Conferimos o show em Fortaleza, na sexta, 9 de outubro, e contamos aqui o que vimos.
A gritaria começou quando as luzes se apagaram e se tornou ensurdecedora quando o quarteto e demais músicos apareceu no palco. E os LOS HERMANOS foram vencidos pelo público. Marcelo Camelo nem pode cantar a primeira estrofe de "O Vencedor", tão forte era a paixão com que a banda era recebida pelos fãs cearenses no Centro de Eventos do Ceará. Amarante também teve que dividir os vocais com o público em "Retrato pra Iaia". Uma característica do som dos LOS HERMANOS é que, em algumas canções (como a já citada "...Iaia"), onde haveria um solo de guitarra, a banda costuma investir na participação de seu naipe de metais, o que deixa seu som muito peculiar e pode ser uma das (inúmeras) razões porque desperta tanta paixão de seus fãs. E ao contrário de outras bandas, o naipe recebe a merecida atenção nos telões nos momentos em que se destaca. E que telões! O lúgubre final de "Todo Carnaval Tem Seu Fim" parece ficar ainda mais belo.
Já falei, mas é interessante ressaltar o respeito dos HERMANOS pelos músicos que os acompanham. Marcelo Camelo chega a ficar atras de Amarante para que o baixista contratado tome sua posição em "O Vento", canção cantada por Amarante. O fato se repetiria algumas vezes durante a noite.
O público se extasia com cada movimento no palco, até com um "Iuhu" de Amarante, quase uma gaitada cearense, antes de "Do Sétimo Andar". Amarante está visivelmente mais "feliz", se é que você me entende, mas nada que comprometa a apresentação.
A banda não chega a conversar muito com o público, mas, em um dos momentos em que conversa com os cearenses Marcelo Camelo declara: "entra ano sai ano vocês continuam assim, lindos". E se impressiona com a lotação do Centro de Eventos (os ingressos para frontstage tinham se esgotado e a pista também estava completamente cheia). "Olha só quanta gente".
O show continua com muitos sucessos da banda, principalmente do aclamado "Ventura", de 2003. E sempre com imagens no telão que impressionavam pela nitidez (eram de altíssima resolução) e boa direção, mas em "Pois É" o telão fica apenas vermelho. E como não era exatamente um telão, mas algumas telas que formavam uma espécie de cortina, que tomava os três lados do palco, o resultado ficou muito bonito. Sendo a canção de tom mais intimista, a atmosfera de teatro combina bem. Mais um ponto positivo.
No entanto, logo depois, uma janelinha de erro do Windows teimou em aparecer no lado esquerdo do palco. Camelo brincou: "Tá manero, é pra mostrar que é de verdade, que tem um pessoal ali atrás trabalhando". E deu inicio a "Morena", sem telão mesmo.
Marcelo tem razão. O sincronismo entre imagens e movimentação de palco estava tao perfeito e tao bem ensaiado até ali que fiquei prestando atenção se o que aparecia era mesmo a transmissão do que estava acontecendo ou se era algo pré-gravado. Não havia mais dúvida. Há erros que apenas ressaltam grandes acertos.
O telão volta, novamente impressionante com "Um Par" na voz de Amarante. Os dois vocalistas continuam alternando vocais e a lista de canções amadas pelo público, como "A outra" só aumenta. Amarante, que viveu parte da adolescência em solo cearense, ainda procurou por velhos amigos em meio à multidão. "Tenho velhos amigos aqui. Como eles tem barba branca como eu, devem estar la pro fundo. Não consigo vê-los", disse antes de localizar o grupo de contemporâneos e quase conterrâneos.
A marítima "Paquetá" deu uma esfriada no clima, mas os gritos e sing along voltaram na belíssima "Sentimental", com o público novamente em delírio. O choro em meio à multidão em momentos como aquele era uma visão comum. A canção é talvez uma das mais belas da MPB (É, realmente só há MPB nela). E em seu fim, o naipe de metais brilha à vontade.
Em "tenha Dó" é o publico quem faz a introdução. E as pessoas não param de cantar nem para pular (e eu disse que não estavam pulando?) e continuaram assim em "Descoberta". "Deixa o Verão" também traz um solo de bateria (não tão inspirado) de Rodrigo Barba, enquanto Amarante, descontraído, faz toda sorte de caretas. E o que se segue é mais um ponto alto do show: "De onde vem a calma", na voz de camelo (e mais algumas milhares), seguida da setentista "Conversa de Botas Batidas".
"A gente fica até encabulado, gente, multidão", exclama Camelo, antes de "Ultimo Romance". "Eu amo essa música", alguém gritou. Com certeza, diante da emoção generalizada, aquela voz não era a única.
"A Flor" também despertou gritos e pulos. E, se antes, cada vocalista cantava uma canção enquanto o outro ficava ao seu lado ou atrás do baixista, nela Camelo realmente compartilharam o microfone. Não sei se há outra em que eles repitam o dueto. Um simples "Brigado, gente" é a despedida. E os músicos saem do palco enquanto o Centro de Eventos grita numa só voz "mais um, mais um, mais um".
Quanto à produção, assim como em outras cidades sob a responsabilidade da Arte Produções, som, iluminação, estrutura, brigadistas, estavam impecáveis. No entanto, algo a ser revisto, não só pela produção como por toda a cidade, é a questão da acessibilidade dos portadores de necessidades especiais. Conversamos com a tenista Naíla Kelamy e ela nos contou de sua frustração por ter perdido parte do show (a área destinada originalmente a ela e a outros cadeirantes impossibilitava que ela visse os músicos, pois não era elevada). Felizmente, os brigadistas a posicionaram, junto com outra cadeirante e seus acompanhantes, no pit dos fotógrafos, bem perto de seus ídolos, mas tal solução só foi conseguida pela equipe brigadista (parabéns para eles) após a metade do show. Já vimos uma solução bem simples implementada no HSBC Brasil em São Paulo e que poderia ser seguida como receita de bolo: uma área elevada na lateral do frontstage (ou duas áreas, caso se queira fazer o mesmo na pista), dimensionada de acordo com o número de ingressos vendidos antecipadamente para PNE e com cadeiras para os acompanhantes (se eles ficarem em pé vão atrapalhar a visão das pessoas que estão atrás). Naíla me contou que em São Paulo é capaz de se locomover, trabalhar, se divertir normalmente, mas que sente muito limitada por não poder fazer o mesmo em Fortaleza ou Maracanaú. Fica a dica, estendida não só a produção, mas a todos que lidam com o público nesta nossa bela cidade.
Apesar de que todo mundo soubesse que haveria um bis, o quarteto (ou melhor, octeto) demorou a reassumir sua posição no palco, realmente enganando algumas pessoas mais impacientes. Isso não foi algo ruim, pois, quando finalmente voltaram, a sensação de surpresa, lucro, vantagem valorizou o momento encore iniciado com "Adeus Você". E o rockzinho que apresentou os LOS HERMANOS para o mundo (mas ficou muito tempo longe do repertório) "Anna Júlia" pôs todo mundo para dançar. Até Amarante, sempre irreverente, jogou fora a guitarra e ensaiou descer do palco em direção ao público. Sem sucesso na tentativa, até deitou-se no palco. Mas se Amarante parecia estar em casa (e, de certa forma, estava mesmo) e Camelo também manifestara alegria pela volta aos holofotes cearenses, Bruno Medina, talvez por timidez, tem o comportamento completamente oposto, toca burocraticamente, como se estivesse na firma numa manhã de segunda-feira.
E todo carnaval tem seu fim, mas, no show dos LOS HERMANOS ele recomeça com "Pierrot", com o público respondendo "Hey, hey" de braços no ar. Os mesmos braços que, abertos, receberam os LOS HERMANOS para mais uma turnê de reunião e, com certeza, devem continuar recebendo. O público que compareceu ao show e lotou o Centro de Eventos certamente deseja que o quarteto continue fazendo shows regulares e inclua mais discos em sua curta porém amada discografia.
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Agradecimentos:
Arte Produções, especialmente Thamyres Heros e Jéssica Malheiros pela atenção e credenciamento.
Marcelo Sousa, pelas imagens que ilustram esta matéria.
Alexandre Meneses, pelo apoio na edição.
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