Slash: Transformando Net Live Brasília em um salão de festa
Resenha - Slash (Net Live Brasília, 17/03/2015)
Por Fernando Yokota
Postado em 19 de março de 2015
A você, leitor, um aviso: esta texto não tem a pretensão da imparcialidade que, na modesta opinião deste redator, não é da ordem da natureza humana.
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Há quem diga que nossos gostos musicais são uma construção baseada naquilo que ouvimos enquanto jovens. Seja pela memória afetiva ou pela repetição ad nauseam turbinada pelo coquetel hormonal da adolescência, é fato que aquelas velhas músicas ou são a trilha sonora da sua vida, ou pelo menos um "guilty pleasure" que teremos que carregar pelo resto de nossos dias.
Às lembranças dos velhos tempos devo ter somado o não muito ortodoxo local do show: paredes brancas, chão lustroso, candelabros e a pomposa vista para o lago. Não houve como não me lembrar da minha festa de formatura séculos atrás e do meu velho walkman, que em noventa porcento do tempo tocava — pasmem — Guns N' Roses.
Gilby Clarke
A abertura da noite ficou por conta de outro ex-GNR. Aos não iniciados, explico: Gilby Clarke foi o escolhido para ocupar o posto de "outro guitarrista" após a saída de Izzy Stradlin, eterno injustiçado e a quem muito do sucesso da banda deveria ser atribuído, tanto pelas canções que assinara como por ser a "contrapartida guitarrística" que deu ao GUNS N' ROSES o caráter sonicamente anárquico que os fazia destoar das outros à época.


Com uma banda de músicos argentinos (de uma banda chamada Coverheads), lamenta-se o fato de Clarke preferir não usar todo o set para revisitar sua discografia, que conta com discos interessantes como Pawn Shop Guitars (cuja timbragem lembra algo dos Illusions do GNR, contando, inclusive, com participações destes) ou Swag. Ao invés disso, velhos "habitués" das surradas revistinhas de cifras dos anos 80 (quem tem mais de trinta sabe do que estou falando) como It's Only Rock And Roll, Dead Flowers e Knockin' On Heaven's Door (em sua versão GNR) se fizeram presentes, o que só contribuía para o clima de festa de formatura proporcionado pelo bonito Net Live Brasília, ainda não muito tomado pelo público.
Apesar dos problemas técnicos com sua guitarra em Wasn't Yesterday Great, a apresentação ocorreu de forma tranquila e o público, ainda em processo de aquecimento, teve participação mais efusiva apenas no clássico de BOB DYLAN. Vale destacar as boas Cure Me... Or Kill Me... do já citado Pawn Shop Guitars e Monkey Chow, composição de Clarke presente em It's Five O'Clock Somewhere, primeiro disco do Slash's Snakepit.


Slash featuring Myles Kennedy & The Conspirators
Em meia hora o palco estava livre do equipamento da banda de abertura e agora era possível ver a parede de Marshalls e de brinquedos (?!) de Slash que incluía dinossauros, conhecida obsessão do músico.
Podemos imaginar a carreira pós-VELVET REVOLVER de Slash como uma trilogia cujo primeiro terço é seu disco auto-intitulado de 2010 e cheio de participações. Talvez enjoado da cartola, era como se resolvesse ir a a loja de chapéus e experimentar modelos novos. No final das contas, voltou para casa com um que atende pelo nome Myles Kennedy.


A segunda parte fica por conta de Apocalyptic Love, um disco mais solto, com vazamento de som ambiente entre as músicas e aquele clima de jam session. De fato, Apocalyptic Love provou ser um ensaio para o último álbum de Slash featuring Myles Kennedy and The Conspirators (o maior nome de banda no meu playlist, tranquilamente), que veio à luz do dia na forma de World On Fire, testemunho não só do amadurecimento musical de Slash mas da volta à sua melhor forma desde os tempos do GNR (incluindo os tempos VELVET REOLVER, que nunca chegou a entusiasmar este redator).


You're a Lie abriu o set para, em seguida, quaisquer comparações com minha festa de formatura serem veementemente proibidas pelo homem de cartola que, com Nightrain, decretava que a noite de diversão compulsória estava oficialmente aberta.
Avalon foi seguida de Ghost, que ao vivo perde um pouco pela falta da insubstituível voz de Ian Astbury (do CULT), para quem parece ter o riff feito sob medida. Back From Cali, com seu climão de "road song", estava na ponta das línguas de vários dos fãs, mostra de que Slash está transcendendo a barreira da "nostalgia pela nostalgia" e emplacando novos sucessos, ao menos entre seus fãs.
Wicked Stone — com um riff que poderia ser descrito como um "mashup" de Rocket Queen com Superstitious (de STEVIE WONDER) — e Shadow Life (e seu solo já candidato a clássico de aula de guitarra) mostram o que World On Fire tem de melhor: uma banda entrosada (com destaque para os backing vocals do carismático Todd Kerns, a bateria de Brent Fitz na retaguarda e Frank Sidoris na guitarra completando a linha de frente), excelentes canções e apetite de banda iniciante. Neste momento, este fã de mais de vinte anos de estrada flagrava-se pela primeira vez pensando em até que ponto o fim desta banda em troca da volta da formação original do GUNS N' ROSES seria bom negócio.


Na dobradinha "gunner" que se seguiu, Double Talkin' Jive passou quase despercebida e foi atropelada pela clássica You Could Be Mine, na qual nem o atleticismo vocal de Myles Kennedy foi capaz de dar conta da insana bravata vocal que, convenhamos, não foi feita para ser reproduzida ao vivo nos palcos.
Neste ponto, e talvez estrategicamente, o baixista Todd Kerns assume o microfone para cantar Doctor Alibi, originalmente executada por Lemmy Kilmister, que foi seguida pelo hino de uma geração, Welcome to the Jungle. Peças como Jungle são o tipo de coisa que separa os meninos dos homens, e presenciar Slash executando seu antológico solo é a oportunidade de ver um milagre ao vivo, em que os pelos de todos os presentes se arrepiam simultaneamente sob o comando de um homem e seis cordas.
As boas The Dissident (com toques de Foo Fighters) e Beneath the Savage Sun (e seu outro zeppeliano) serviram de refresco para a introdução de a compenteíssima execução de Rocket Queen. Contudo, da mesma forma que Jungle é um testemunho do que Slash significa para o rock, não há como tirar Rocket Queen do velho Axl que tomou para si a canção, principalmente por conta do registro vocal na parte final. Alheio a tudo isso, durante o extenso solo de guitarra o fundão do salão virou pista de dança para casais que, em transe, há muito haviam abdicado do controle de seus próprios corpos.


Na sequência, Bent to Fly era uma que disputa noite a noite o lugar no set com Battleground, a favorita deste redator e que infelizmente não marcou presença. Após uma hora e meia, Kennedy mostra a condição de "máquina de cantar" não demonstrando sinais de cansaço na acelerada World On Fire e ainda tocou guitarra durante um longo solo de violão de Slash com sua Guild doubleneck em Anastasia.
No rock, algumas canções têm o privilegio de se tornarem "clássicos" e dessas, algumas poucas transcendem o gênero e se tornam patrimônios da cultura pop em geral. O nome Sweet Child O'Mine pode figurar em qualquer parágrafo da história da música sem ser acusado de falta de decoro. A prova disso? Quando TODOS num lugar param o que estão fazendo porque pelo menos a vez na vida já ouviram aquela introdução pelo menos uma vez na vida. Por momentos como esse, Sweet Child não pertrence mais à ordem das grandes canções de rock, estando agora entre o urinol de Duchamp e as bolinhas dos degradês de Lichtenstein no panteão da cultura pop.

Antes da volta para o bis, a banda fecha o set com Slither, do Velvet Revolver, empreitada que sofreu com a síndrome da superbanda e que, colocada logo após Sweet Child O'Mine, só tem essa condição exacerbada. Para o bis, a banda fecha a conta com a mais que esperada Paradise City, que a essa altura finalmente transformara o lugar em salão de festa. Testemunhas do maior baile de formatura da história do rock brasiliense, todos vão para casa com seus diplomas assinados por uma incontestável deidade do rock. Lendário.
Slash featuring Myles Kennedy & The Conspirators:
Slash: guitarra
Myles Kennedy: voz e guitarra
Todd Kerns: baixo e voz
Frank Sidori: guitarra e voz
Brent Fitz: bateria
José Ricardo Peret | Gustavo Anunciação Lenza | Roberto Luis Pertsew | Luis Alberto Braga Rodrigues | Efrem Maranhao Filho | Geraldo Fonseca | Richard Malheiros | Vinicius Maciel | Luis Alberto Braga Rodrigues | Reginaldo Manuel Soares de Faria | Paulo Eduardo Farias | Thomas Wisiak | Rogerio Antonio dos Anjos | Miguel Angelo Leal | Adriano Lourenço Barbosa | Airton Lopes | Alexandre Faria Abelleira | Alexandre Sampaio | André Frederico | Ary César Coelho Luz Silva | Assuires Vieira da Silva Junior | Bergrock Ferreira | Bruno Franca Passamani | Caio Livio de Lacerda Augusto | Carlos Alexandre da Silva Neto | Carlos Gomes Cabral | Cesar Tadeu Lopes | Cláudia Falci | Danilo Melo | Dymm Productions and Management | Eudes Limeira | Fabiano Forte Martins Cordeiro | Fabio Henrique Lopes Collet e Silva | Filipe Matzembacher | Flávio dos Santos Cardoso | Frederico Holanda | Gabriel Fenili | George Morcerf | Henrique Haag Ribacki | Jorge Alexandre Nogueira Santos | Jose Patrick de Souza | João Alexandre Dantas | João Orlando Arantes Santana | Leonardo Felipe Amorim | Marcello da Silva Azevedo | Marcelo Franklin da Silva | Marcio Augusto Von Kriiger Santos | Marcos Donizeti Dos Santos | Marcus Vieira | Mauricio Nuno Santos | Maurício Gioachini | Odair de Abreu Lima | Pedro Fortunato | Rafael Wambier Dos Santos | Regina Laura Pinheiro | Ricardo Cunha | Sergio Luis Anaga | Silvia Gomes de Lima | Thiago Cardim | Tiago Andrade | Victor Adriel | Victor Jose Camara | Vinicius Valter de Lemos | Walter Armellei Junior | Williams Ricardo Almeida de Oliveira | Yria Freitas Tandel |
Set list:
You're a Lie
Nightrain
Avalon
Ghost
Back from Cali
Wicked Stone
Shadow Life
Double Talkin' Jive
You Could Be Mine
Doctor Alibi
Welcome to the Jungle
The Dissident
Beneath the Savage Sun
Rocket Queen
Bent to Fly
World on Fire
Anastasia
Sweet Child O' Mine
Slither
Paradise City
Gilby Clarke & Coverheads:
Gilby Clarke: guitarra e voz
Gaby Zero: guitarra e voz
Dani Chino: baixo
Dukke: bateria
Set list:
Wasn't Yesterday Great
Under The Gun
Motorcycle Cowboys
Black
It's Only Rock And Roll (But I Like It)
Cure Me... Or Kill Me...
Knockon' On Heaven's Door
Monkey Chow
Dead Flowers
Alien
Tijuana Jail
Galeria de fotos completa em
https://www.flickr.com/photos/fernandoyokota/sets/72157651427381031/
Agradecimento a Free Pass pelo credenciamento.
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