Nine Inch Nails: A história separa a boa música das aberrações

Resenha - Nine Inch Nails (Lollapalooza Brasil, São Paulo, 05/04/2014)

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Por Wendell Soares
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Antes de falar do show do NINE INCH NAILS, eu preciso lembrar que a música eletrônica e todos seus subgêneros nunca me foram relevantes. KRAFTWERK, inclusive, antes que algum informado musical se lembre. E posso explicar claramente o porquê: a alma, que tanto procuro nas coisas que ouço, parece ser diluída entre tantos ruídos e efeitos. Incomoda parecer que o feeling, presente em todas as grandes canções, é trocado por um sem número de barulhos, o que me faz lembrar que todo este ódio desemboca no evento mais bizarro que já presenciei na vida: uma rave.

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Ainda ouço de alguns amigos que não cresceram, que com a droga certa, a música eletrônica ganha outra dimensão. Outras camadas. Bullshit, claro! A boa música é tão entorpecente quanto o que você preferir usar. E aqui saio deste preâmbulo quase acadêmico e chego no show.

Poucas vezes na vida presenciei uma banda tão anacrônica na vida. Mas que se valeu disso pra entregar o impossível: qualidade e samplers, no mesmo contexto.

Pra quem não conhece o NINE INCH NAILS, vale uma pequena resenha: criado em 88 pelo multiinstumentista TRENT REZNOR, a banda foi precursora da mistura de eletrônica e heavy metal que povou o mundo da música nos anos 90, culminando em bandas como FEAR FACTORY, MINISTRY e o polêmico MARILYN MANSON. Por falar neste último, é quase unanimidade entre seus admiradores que se não fosse o NINE INCH NAILS, este não existiria como o conhecemos. Seja isto bom ou não.

O diferencial do NINE INCH NAILS é que, enquanto o mainstream do estilo se enveredou para assuntos de gosto duvidoso e pegada adolescente (o ódio à Igreja, à família) TRENT substanciou sua banda com letras densas e um instrumental diversificado. Fica difícil recomendar um álbum sem causar estranheza a ouvidos leigos, uma vez que eles vão do sexy ao grotesco, por vezes, dentro da mesma canção.

Conheci a banda há cerca de 10 anos, à época, encerrando um dos dias do extinto festival Claro que é rock, e não pude deixar de achar curioso aquela performance catártica e uma apresentação ao vivo impecável. Com maior ou menor talento, seus álbuns são pequenas pérolas de um estilo que, se não possui a grandeza de ser popular, faz do cenário independente algo muito mais diversificado e talentoso.

Aos que ainda precisam de referências para ouví-los, basta situar que uma das canções mais belas do mundo (ao menos a este que vos escreve) é composição de REZNOR, e nas mãos de JOHNNY CASH, virou seu epitáfio. Falo de HURT, e sua letra corta pulsos. TRENT REZNOR ainda é, junto com o produtor ATTICUS ROSS, responsável pela trilha do filme A rede social, ganhadora do Globo de Ouro e do Oscar, de melhor do ano 2011.

Dito isto, vamos ao show.

A cabeça como um buraco

Nada mais sintomático que citar um dos grandes clássicos da banda para falar sobre o show. A impressão que se tem ao vê-los tocando é exatamente a de mil martelos explodindo contra o seu crânio. E com sua permissão. Pontualmente às 19:55, o NINE INCH NAILS adentrou o palco Onix do Loollapalloza, com Wish, do EP Broken, e toda a rebeldia adolescente da geração Y foi dissipada, após um show completamente lotado do Imagine dragons (banda esta que não irei discorrer sobre, mas mesmo com três ou quatro canções bacanas, e um set competente, não me causou maior comoção do que causaria, sei lá, o Hanson. Eu nunca acreditei no hype, só isso). Com quatro sintetizadores diferentes, e um jogo de luzes completamente insano, foi o ponto de partida pra rave mais junk que alguém pode presenciar na vida. Irônico notar que o público não era um terço do que ocupou o mesmo local cerca de uma hora atrás, mas a soma das idades devia ser a mesma. A faixa etária subiu uns 15 anos, creio eu. Pra tecer o último comentário alheio ao show, a molecada provavelmente se dirigiu a outro palco para ver os britânicos do PHOENIX, que tocou no mesmo horário.

Depois de Wish, veio o lado mais experimental da banda, com canções como Letting you, Me, I’m not e a recente Survivalism. No hit March of the pigs, Trent se mostrou, além de um frontman raro, um cara anormal nos samplers. Diferente dos aparatos eletrônicos que bandas costumam usar, tudo no NINE INCH NAILS é criado ali, ao vivo. Cada base é programada in loco, com a banda revezando nos instrumentos. Em certo momento, havia três samplers simultâneos, dando a tônica do espetáculo.

Vale lembrar que o retorno do guitarrista ROBIN FINCK trouxe de volta a tônica dark da banda (vocês devem lembrar dele no GUNS que tocou no Brasil em 2001, e na estranha performance de Sossego, de Tim Maia, no Rock in Rio 3).

Em The great destroyer, a senhora com seus quarenta e poucos anos à minha frente resumia o que eu presenciava: parecia ter sofrido lobotomia, tão fantástico era a loucura visual e sonora que se montava ali. Hand that feeds veio comprovar que é possível ter um refrão no meio de tanto barulho que dê pra cantar junto.

Trent quase não se comunicou com a plateia, mas não precisou. A banda se mostrou sexualmente cool, lembrando os bons momentos do PORTISHEAD, com a levada trip hop de Pig (Nothing can’t stop me now). Tem mais sexo nesta música do que em toda a discografia da SADE e do SEAL, juntos. Por falar em sexo, a mais pedida da noite ficou de fora. O megahit Closer (e um dos versos mais sexualmente brutais da música pop) foi apenas citada no finalzinho de All time low.

Antes do retorno ao palco, TRENT ainda teve tempo de tocar a sonzera Heads like a hole, num versão fim de mundo. O contraponto desta foi o momento isqueiro (sim, isqueiros! Nada de celulares) com a baladaça soturna Hurt, onde a melodia bonita mostrou que o faro pop do moço também é apurado.

Talvez poucos concordem comigo da importância da banda, ou ainda prefiram lembrar que o headliner daquele dia foi o MUSE (com um vocalista afônico e um som embolado pra quem assistia à distância) mas o NINE INCH NAILS cumpriu seu papel magistralmente. Um amigo, ao me ouvir elogiando o show, pontuou que eles são desconhecidos, e por isto não encheu tanto. Apenas ignorei a observação, visto que num festival de música alternativa (sabe-se lá o que esta descrição quer dizer) a regra deveria ser justamente esta: bandas novas se apresentando a um público curioso. Mas fica a lição: com 25 anos de banda, o NINE INCH NAILS é maior do que o público que o assistiu. E quando em alguns anos, mais velhos e talvez com menos importância, voltarem ao país, digam apenas que você poderia ter apreciado aquela noite. Mas não o fez por que a nova sensação da NME (coloque aqui qualquer outra banda do festival) tinha refrãos mais grudentos. A história encarrega de separar a boa música das aberrações musicais.

Nine Inch Nails é:
Trent Reznor – Vocal
Robin Fink – Guitarra
Alessandro Cortini – Teclado
Ilan Rubin – Bateria

Setlist:
Intro: Pinion / The Eater of Dreams
1. Wish
2. Letting You
3. Me, I'm Not
4. Survivalism
5. March of the Pigs
6. Piggy
7. Find My Way
8. Sanctified
9. Disappointed
10. All Time Low
11. Burn
12. The Great Destroyer
13. The Big Come Down
14. Gave Up
15. Hand Covers Bruise (cover de Trent Reznor and Atticus Ross)
16. Beside You in Time
17. The Hand That Feeds
18. Head Like a Hole
19. Hurt

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