Trans-Siberian Orchestra: Um show que merece ser aprecidado
Resenha - Trans-Siberian Orchestra (Denver, Colorado Springs, 17/11/2013)
Por Heloisa Vidal
Postado em 08 de dezembro de 2013
Quando chega o final do ano, há algumas tradições de nosso país que não podemos evitar: shoppings lotados, trânsito na Avenida Paulista e na região do Parque do Ibirapuera pelas decorações de Natal, reveillón em Copacabana, parentes chatos, presentes devolvidos, especial do Roberto Carlos na TV, Missa do Galo. Claro que cada cultura tem suas peculiaridades, e a norte-americana tem todos aqueles clichês que estamos acostumados a ver nos filmes por muitos anos, porém eles tem algo que com certeza nós, headbangers latino americanos, podemos dizer que sentimos aquela inveja boa.
A Trans-Siberian Orchestra, projeto liderado pelo produtor Paul O'Neill e pela mente criativa do Savatage Jon Oliva, existe desde 1999 e firmou-se como um programa praticamente obrigatório para muitos americanos, pois junta o Natal, feriado que tem um apelo emocional e comercial quase sem comparação com outros países, com música de qualidade e uma produção de palco majestosa. A logística praticamente infalível permite com que a demanda por shows (mais de 100 por anos) consiga ser atendida, graças ao fato de não ser apenas uma, e sim DUAS bandas, cada uma se apresentando em uma costa do país. No local do show, vimos 13 nightliners (ônibus de turnê, com leitos para até 12 pessoas, além de TV a cabo, videogame, frigobar, fogão) que levam músicos e equipe técnica, além de 16 caminhões, para o equipamento de som, luz e vídeo.
Transsiberian Orchestra - Mais...
Enquanto que na edição 145 da Roadie Crew relatou shows da banda da costa leste dos EUA em 2010, que contava com os ex-Savatage Chris Caffery (guitarra) e Jeff Plate (bateria, atual Metal Church), dessa vez estivemos em quatro apresentações na costa oeste, nas belas cidades de Colorado Springs e Denver, no estado do Colorado. Falemos então sobre o show em Denver, realizado na belíssima arena Pepsi Center. Além de ser um local para shows, também é a casa do Denver Nuggets, time de basquete da NBA, e do Colorado Avalanche, da NHL, a liga norte-americana de hóquei no gelo. Dependendo do evento, a capacidade da arena varia entre 17 e 19 mil pessoas.
A turnê desse ano, assim como em 2012, é baseada no álbum "The Lost Christmas Eve" (2004) e alardeada como a última oportunidade para ver esse show. Esse álbum é a parte três da trilogia de Natal da banda, que ainda tem "Christmas Eve and Other Stories" (1996) e "The Christmas Attic" (1998). Para aqueles que não são profundos conhecedores do Savatage (banda intimamente ligada ao TSO), vale lembrar que o projeto dessa "Opera Rock" surgiu a partir da música "Christmas Eve/Sarajevo 12/24", lançada no álbum "Dead Winter Dead" (1995).
O show começa de maneira forte, com "Time and Distance" seguida por "Winter Palace", e logo nota-se a qualidade do som e imagem, com projeções mapeadas numa estrutura que remete a um castelo. De início, temos a banda completa em cima do palco: sete vocalistas, dois guitarristas, baixista, baterista, dois tecladistas e a sessão de cordas, que muda de cidade para cidade, já que músicos locais sempre são convidados para desempenhar essa função.
Depois, a primeira parte segue com a execução de grande parte de "The Lost Christmas Eve" (um conto musical sobre perda e redenção), com as músicas entremeadas pela narração de Philip Brandon, que não apenas faz esse papel, mas também permanece no palco por diversos momentos, interagindo com os músicos. Al Pitrelli, guitarrista conhecido do público pela sua participação no Savatage e também no Megadeth, é um dos diretores musicais da TSO e está com a banda desde o início. Ele faz o papel de mestre de cerimônias, conversando com o público e apresentando os músicos. Além dele, Angus Clark também mostra categoria com as seis cordas, dividindo as bases e solos com Pitrelli. No baixo, temos o ex-Savatage Johnny Lee Midleton, presença mais do que comemorada pelos fãs do Savatage, que em algumas performances, são surpreendidos pela rara participação de John Oliva, mas infelizmente, isso ainda não aconteceu nessa turnê. John O Reilly (que já tocou no Rainbow e Blackmore's Night) cuida das baquetas com muita competência, completando a cozinha; ele é outro que está com a banda desde o começo, tanto em estúdio quanto nos shows. E Asha Mevlana não é apenas uma linda violinista, mas também muito habilidosa e com grande presença de palco, rendendo grandes momentos com Angus Clark e Al Pitrelli.
As instrumentais "Christmas Jam", "Siberian Sleigh Ride", "Wish Liszt (Toy Shop Madness)" e uma das mais conhecidas da banda "Wizards in Winter" servem para mostrar que na TSO o sincronismo entre som e luz é levado muito a sério. A quantidade de refletores móveis e a variedade de combinações tornam a experiência musical ainda mais grandiosa. Alguns podem dizer que é exagerado, mas quem em um show desse porte, é difícil fugir disso. Plataformas que se movem por cima do público e muita pirotecnia também fazem parte da teatralidade do TSO e são momentos do espetáculo muito esperados pelo público. Basta olhar para os lados e notar muitas pessoas literalmente boquiabertas. Estima-se um gasto semanal de 1 milhão de dólares apenas com em pirotecnia!
No entanto, não se pode negar que o grande destaque da banda são os cantores, tanto que na mixagem do som se nota um favorecimento maior às vozes. Todos merecem aplausos não só por suas interpretações, mas também por executarem tudo muito bem durante toda a turnê, o que é uma tarefa muito difícil. Dos quatro shows que vimos, há diferenças sutis entre as performances, no entanto a regularidade surpreende.
Andrew Ross é dono de uma grande voz e "The Lost Christmas Eve", a primeira música cantada do show, começa muito bem. Apesar de ele cantar solo apenas nessa, ele permance no palco durante grande parte da noite como terceiro guitarrista da banda.
Jeff Scott Soto é o nome mais conhecido dos headbangers e quem já pôde vê-lo ao vivo sabe o grande frontman que ele é, e com a TSO não é diferente. Do alto de seus quase 2 metros, ele domina o palco nas músicas "Sparks", "This Christmas Day" e diverte em "Christmas Nights in Blue", com uma interpretação à la James Brown, muito superior à versão presente no álbum.
Já o britânico Nathan James tem uma voz poderosíssima, versátil e de grande alcance. Todos se levantam para aplaudi-lo em "Christmas Dreams" e na linda balada "Someday". O fato curioso sobre Nathan é que ele foi rejeitado por duas vezes no reality show musical "The Voice" no Reino Unido. Vai entender…
Outro cantor que rouba a cena é o jovem John Brink, que já fazia parte da banda da costa leste desde 2010. Aqui, ele tem o papel principal da história, um homem de negócios que não é o maior fã do Natal e que busca uma redenção pessoal pelo abandono de seu filho enfermo no hospital no momento de seu nascimento. "What is Christmas?", "Back to Reason, Part II" e "What Child is This?" soam impecáveis em sua voz, esbajando técnica e emoção.
Sobre as vocalistas, Chloe Lowery é disparadamente a melhor das quatro. Com apenas 26 anos, ela passa experiência, segurança e muita emoção com sua performance em "For the Sake of our Brother", fazendo valer o ingresso e as lágrimas de todos os presentes. "Differente Wings" é sua segunda participação no show, e com essa música encerra-se a primeira parte.
Al Pitrelli toma o microfone e conversa com a plateia, agradecendo a presença de todos e como é costume de muitos artistas americanos quando em seus países, pede uma salva de palmas para os militares do país. Após apresentar a banda, ele pergunta: "Querem ver o que acontece quando resolvemos explodir tudo ao mesmo tempo?"
A segunda parte do show tem músicas mais diretas, como "Sparks", "The Mountain", "Beethoven" e "Requiem (The Fifth)", e a pirotecnia é usada com muito mais frequência - mesmo quem senta em fileiras mais afastadas consegue sentir o calor das chamas. Um duelo entre os virtuosos tecladistas Vitalij Kuprij (outro diretor musical da banda) e Jane Mangini (que é ex-mulher de Al Pitrelli) diverte o público, durante o qual eles tocam até um trecho do tema do Charlie Brown, o personagem do desenho do Snoopy. Mesmo sendo a parte mais empolgante da noite, já sem as firulas de Natal, o público permanece comportado e assiste tudo atentamente. É claro que aplaudem muito ao final de cada música, mas esse tipo de postura é algo cultural e de longe, não quer dizer que as pessoas não estejam gostando do show.
"Christmas Eve/Sarajevo 12/24" encerrou a noite, e nessa música, algo engraçado aconteceu: após descer de uma plataforma no fundo da arena, o guitarrista Angus Clark passava pelo corredor no meio da plateia (algo que já havia feito anteriormente na mesma noite) e viu um cara mexendo no celular, digitando uma mensagem que parecia bem mais interessante do que tudo aquilo que víamos. Angus cutucou o cara e fez uma cara do tipo "Cara, o que você está fazendo?!". Nem é preciso dizer que o cara ficou vermelho como pimentão.
Para aqueles que sentem falta do Savatage e acompanham as entrevistas de Jon Oliva, sabem que o que ele admite ser mais próximo de sua ex-banda é a Trans-Siberian Orchestra. Claro que existem Circle II Circle de Zak Stevens e Jon Oliva's Pain, que sempre incluem músicas do Savatage em seus shows, mas um show da TSO merece ser apreciado. Para aqueles que não tem a oportunidade de viajar para os EUA para assisti-los, resta sonhar que um dia desçam para os trópicos.
Set list:
Time And Distance
Winter Palace
The Lost Christmas Eve
Faith Noel
The Lost Christmas Eve
Wizards in Winter
Christmas Dreams
Christmas Nights in Blue
Christmas Jam
Siberian Sleigh Ride
What Is Christmas?
For the Sake of Our Brother
Wish Liszt (Toy Shop Madness)
Back to a Reason, Part II
What Child Is This?
Christmas Canon Rock
Different Wings
The Mountain
A Mad Russian'sChristmas
Someday
Sparks
Dreams of Fireflies (On a Christmas Night)
Carmina Burana
Beethoven
Requiem (The Fifth)
This Christmas Day
Christmas Eve (Sarajevo 12/24)
Por Alexandre Cardoso
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