Monsters: quase todos quebram tudo no segundo dia

Resenha - Monsters of Rock (Arena Anhembi, São Paulo, 20/10/2013)

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Por Igor Miranda, Fonte: Revista Cifras
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Nunca tive a experiência de estar num festival. Com a recente emergência de eventos do tipo no Brasil, como (a volta do) Rock In Rio, SWU, Lollapalooza, Metal Open Air (brincadeira...) e por aí vai, as opções eram diversas. Mas resolvi esperar.

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Steven Tyler e Joe Perry, do Aerosmith (Foto: Igor Miranda)
Steven Tyler e Joe Perry, do Aerosmith (Foto: Igor Miranda)

E ainda bem que esperei. O Monsters Of Rock está em sua quinta edição no Brasil. O evento nem mesmo surgiu por aqui, mas conseguiu conquistar o público. Em 2013, o festival voltou a acontecer, sob nova direção e, de certo modo, reformulado - com dois dias de shows, cada um destinado para um estilo diferente. O primeiro dia, 19 de outubro, foi mais orientado ao metal contemporâneo, como new metal e metalcore. O segundo, 20, teve proposta altamente saudosista, focando no hard rock da década de 1980 e adjacentes.

Electric Age foi a primeira banda a tocar no segundo dia do Monsters Of Rock 2013 (Foto: Igor Miranda)
Electric Age foi a primeira banda a tocar no segundo dia do Monsters Of Rock 2013 (Foto: Igor Miranda)

No segundo dia, aliás, a produção resolveu repetir os headliners da edição de 1990, quando o evento ainda era realizado em Donington, Inglaterra. Aerosmith e Whitesnake chefiaram o cast, composto também por Ratt, Buckcherry, Geoff Tate's Queensryche, Dokken e Dr. Sin - em ordem decrescente de apresentação -, além de duas bandas nacionais de abertura (o Dr. Sin também é nacional, mas não foi necessariamente atração de abertura).

A primeira foi o Electric Age, banda que foi um pouco prejudicada pelo atraso na abertura dos portões. O grupo se portou muito bem no palco e, apesar de ter alguns pontos a serem amadurecidos, me pareceu ser promissor. Em seguida, tivemos a Doctor Pheabes, que parecia estar se esforçando para ser tão ruim - e conseguiu. Banho de água fria aos que ainda entravam na Arena Anhembi.

Edu Falaschi, em participação no show do Dr. Sin (Foto: Igor Miranda)
Edu Falaschi, em participação no show do Dr. Sin (Foto: Igor Miranda)

Veio, enfim, o Dr. Sin, que eu particularmente aguardava. O trio brazuca não decepcionou, como de costume. Performance concisa e precisa. Sem erros aparentes e com a energia de costume, além da exibição técnica dos músicos - em especial do guitarrista Edu Ardanuy. Mereciam estar em um local mais privilegiado da lista de apresentações. Duas participações especiais ficaram para o fim do show: Demian Tiguez, ex-Symbols, tocou guitarra em "No Rules", e Edu Falaschi, ex-Angra e atual Almah, cantou "Emotional Catastrophe". Ainda não é o momento para Falaschi se arriscar nos tons agudos, pois soa debilitado. Mas pude notar certa evolução em sua voz.

Em seguida, o Dokken se apresentou para os fãs presentes. Muito famoso na década de 1980, o grupo garantiu o delírio de fãs mais ferrenhos de hard rock, como eu. Particularmente, não esperava muito do show, pois não é de hoje que o vocalista Don Dokken não é nem sombra do grande cantor que foi nos últimos 30 anos.

Don Dokken, já mais animado (Foto: Igor Miranda)
Don Dokken, já mais animado (Foto: Igor Miranda)

Mas depois de algumas músicas, Don provavelmente se deu conta de que dificilmente tocaria para uma plateia tão grande num futuro próximo. Os instrumentistas merecem destaque: "Wild" Mick Brown ainda manda ver com as baquetas e soube envelhecer muito bem, Sean McNabb inseriu peso ao baixo do grupo e Jon Levin é um monstro, um guitarrista repleto de técnica e muito atencioso em suas reproduções dos solos de George Lynch.

O Queensryche de Geoff Tate novamente esfriou a plateia, a não ser no momento em que hits como "Silent Lucidity" ou "I Don't Believe In Love" foram executados. A voz de Tate está em dia, mas a banda não acompanha o padrão de qualidade anteriormente imposto. Pouco correspondeu ao aguardado. Já o Buckcherry, banda que poucos esperavam um grande show, garantiu uma performance energética e repleta de boas músicas autorais. Só pecou na regulagem de som, um pouco rachada e estridente. Mas pode ter sido um problema técnico que não envolve os músicos. Era notável que muitos ali não os conheciam, mas o cartão de visitas foi bem apresentado.

Ratt fez boa apresentação (Foto: Igor Miranda)
Ratt fez boa apresentação (Foto: Igor Miranda)

Finalmente o sol dava trégua e o Ratt entrava no palco. Com exceção de Carlos Cavazo, que substitui o falecido Robbin Crosby, a banda se apresentava com a formação clássica, com o recente retorno de Juan Croucier para as quatro cordas. Mais um show pra lá de energético, que prendeu a atenção até mesmo de quem não conhecia ou não era fã da banda. Admito que não sou um grande admirador do quinteto, aliás, mas ao vivo se torna mais atrativo - principalmente por Cavazo e Warren DeMartini, grandes guitarristas.

Uma das atrações mais esperadas estava por vir. O Whitesnake sem dúvidas tem o vocalista David Coverdale como figura principal. Mas os "coadjuvantes" responsáveis pelo instrumental roubaram a cena em vários momentos. Os técnicos guitarristas Doug Aldrich e Reb Beach, o monstruoso baterista Tommy Aldridge e o carismático baixista Michael Devin complementaram a sonzeira de Coverdale, que não foi tão mal quanto aparentou na transmissão do Multishow. O repertório foi um desfile de hits e até mesmo as músicas mais atuais foram bem escolhidas - "Love Will Set You Free" e "Steal Your Heart Away". Performance aplausível.

Whitesnake não deixou pedra sobre pedra (Foto: Igor Miranda)
Whitesnake não deixou pedra sobre pedra (Foto: Igor Miranda)

Os mais céticos ou desinformados acreditavam que o Whitesnake deveria ser a atração principal, devido à qualidade da apresentação. Mas o Aerosmith, mesmo com meia hora de atraso, colocou a teoria por água abaixo. De longe, o show mais animado do festival. Steven Tyler está em dia com sua voz e toda a banda flui muito bem, com destaque para o guitarrista Brad Whitford. Pouco se nota a sua importância pelo destaque dado ao companheiro Joe Perry, mas Whitford é fundamental para a harmonia da banda, seja com boas rítmicas ou com solos que, mesmo esporádicos, são muito bem elaborados.

Perry e Kramer têm competência conhecida e David Hull, baixista que substitui Tom Hamilton temporariamente, mostrou que dá conta do recado. Hull, aliás, é quase um quebra-galho fixo de Hamilton, já tendo o substituído uma série de vezes desde 2006. A banda também apostou em um repertório repleto de hits e é digno destacar pepitas como a abertura "Back In The Saddle", a arrasadora "Cryin´" e a clássica "Dream On" (com direito a homenagem para Ayrton Senna nos telões), mas algumas "surpresas" roubaram a cena por um pouco, como a nova "Oh Yeah" e a versão para "Mother Popcorn", de James Brown. Sem dúvidas, Aerosmith encerrou o festival com chave de ouro.

Steven Tyler, the "demon of screaming" (Foto: Igor Miranda)
Steven Tyler, the "demon of screaming" (Foto: Igor Miranda)

Em relação à organização e estrutura, me sinto na obrigação de parabenizar alguns pontos. Bares e banheiros estavam bem distribuídos por vários pontos da arena. O som, os telões e a iluminação não pecaram em praticamente nenhum momento. Em termos técnicos, creio que o evento não tenha cometido nenhum deslize. Mas dois fatores merecem críticas - sempre construtivas, por isso devem ser consideradas.

Primeiramente, ainda me sinto indignado quando vejo que as pessoas têm que pagar preços absurdos para consumir dentro do local, como R$ 5 em um copo d´água, R$ 6 em 350 ml de refrigerante ou em um pastel de vento, R$ 8 em uma unidade de cerveja, R$ 10 em um hot dog do tamanho de um dedo ou R$ 12 em um hambúrguer de microondas, ao estilo "hot pocket". Ainda mais em um evento onde há quem pretenda passar mais da metade de um dia em seus domínios (como eu fiz, chegando às 11h e indo embora apenas ao final do último show), potencializando os gastos. É incrível que muitas pessoas já se conformaram a ponto de dizer que "é o que tem", que "não tem como reverter isso". Será que não tem como mudar? Fica o questionamento.

Quinteto formado em Boston fechou o festival (Foto: Igor Miranda)
Quinteto formado em Boston fechou o festival (Foto: Igor Miranda)

Em segundo lugar, estava péssimo para a imprensa trabalhar, pois não havia uma área propriamente para jornalistas e fotógrafos. Havia a sala de imprensa, com wi-fi, mas não era possível fazer a cobertura de lá justamente por ser uma sala. O espaço para a cobertura dos veículos era mínimo e principalmente os fotógrafos, que precisam de tranquilidade para registrar os momentos, reclamaram bastante. Vale ressaltar que não obtive credencial de imprensa para o evento, mas observei o local e ouvi relatos de amigos jornalistas que estavam tentando trabalhar. Muitos se juntaram ao público mesmo para conferir as atrações.

Pontuadas as duas críticas, novamente ressalto que não houve nenhum deslize técnico, acredito. Além do mais, souberam dividir os públicos muito bem entre os dois dias. O Monsters Of Rock é um evento segmentado e específico para quem gosta de tais estilos. Sobre o segundo dia, o qual estive presente, posso garantir que foi um prato cheio para quem gosta de hard rock.

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Sobre Igor Miranda

Jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e apaixonado por rock há mais de uma década. Começou a escrever sobre música em 2007, com o surgimento do saudoso blog Combe do Iommi. Atualmente, é redator-chefe da área editorial do site Cifras e mantém um site próprio (www.IgorMiranda.com.br). Também co-fundou o site Van do Halen, para o qual trabalhou até 2013 – apesar de ainda manter por lá uma coluna semanal, chamada Cabeçote.

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