Nando Reis: homenagem a Dona Sinhazinha em show no CE

Resenha - Nando Reis (Barraca Guarderia, Fortaleza, 10/08/2012)

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
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Mais um show do NANDO REIS em Fortaleza. Não é o primeiro, nem será o último, mas é sempre um bom evento para ir com minha esposa Sílvia. De certa forma, esse músico faz parte da nossa história, ou nossa história foi, em parte, contada por ele, mesmo que não intencionalmente, na sua, ou melhor, nossa música, "Por Onde Andei". Eu, que andei perdido no interior de São Paulo. Ela, que aqui me procurava. E o carro dela, que foi roubado pouco tempo depois que nos achamos.

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Essa noite foi aberta pela banda local ZERO 85. Com um hard rock/pop dançante e mesclando músicas de seu lançamento "Independentemente" com covers de outros artistas (talvez o excesso de covers do RAIMUNDOS merecesse ser ou revisto ou abraçado de vez), a banda se mostrou uma escolha apropriada para aquecer a multidão que aguardava ansiosamente pela estrela da noite exposta à agradável brisa da Praia do Futuro. Destaque para "Hoje Eu Quero Sair Só", do LENINE, que ganhou uma versão funkeada numa espécie de mesh-up com "Let's Get Started" do BLACK EYED PEAS. E os caras ainda conseguiram a façanha de escolher a pior música do COLDPLAY para tocar, a chatérrima "Paradise", e fazer dela um som melhor que o da banda original.

Perto da meia-noite, já com não sei quanto tempo de atraso, sobem ao palco NANDO REIS e sua banda OS INFERNAIS para um show memorável. Com uma boina que o deixava uns 50 anos mais velho e camisa xadrex quase grunge, o o ex-TITAS começou o show com "Pré Sal", música do disco novo "Voa" a ser lançado esse ano, emendando com "Sou Dela" e "O Mundo É Bão Sebastião", uma de suas últimas colaborações com a antiga banda (no tempo que ela ainda tentava ser uma banda boa - sem Rick Bonadio). Com arranjos bem mais pesados que os vistos no último DVD "O Bailão do Ruivão", os INFERNAIS mostravam que não eram apenas a banda que acompanha um grande músico, mas uma banda de rock and roll completa e arrasadora, principalmente quando Alex Veley larga sua posição habitual e vem pra frente do palco com seu teclado, solando como um guitarrista (coisa que nem é mais novidade).

E na música que também foi sucesso com o J.QUEST, NANDO já começou a dar sinais do que aquela noite se transformaria. "Eu te achava uma puta de uma chata", ele acrescenta à letra original, algo que os mineiros jamais ousariam fazer. Mas ele pode. Ele é o dono da música, o dono das memórias que a deram origem e pode fazer o que bem entender.

Em uma breve visita ao repertório do "Bailão", as músicas "Fogo e Paixão", do brega star WANDO e "Whisky A Go Go", do ROUPA NOVA, o ruivo empolgou ainda mais a plateia lotada. Apesar de ser um dos maiores roqueiros em atividade no Brasil, NANDO REIS também é brega. Suas letras quase sempre são intimistas, relacionadas a fatos que ele próprio deve ter vivido, com uma riqueza de detalhes (como o dia em que um carro foi roubado, as roupas no varal ou o décimo segundo andar onde seria o apartamento nas Laranjeiras) que torna as canções muito particulares, mas fala essencialmente de amor. E o amor é brega. Mas, isto está na essência do ser humano, a busca pelo complemento e o medo de perdê-lo. Sim, NANDO REIS é brega, eu sou brega, a Sílvia é brega e não há nada errado nisso.

Após uma excelente versão para "Não Vou Me Adaptar", o astro se dirigiu ao público para falar sobre a novela Gabriela (!). Ele lembrou que aos dez anos de idade viu Dona Sinhazinha (personagem interpretada por Maitê Proença) ser morta pela primeira vez e de como, ao rever a cena esta semana, ainda tinha ficado chocado e indignado. Era o ínicio de "N", dedicada às adúlteras assassinadas.

Outros sucessos se seguiram como "Luz dos Olhos", "All Star", "Relicário" e a nova "Declaração de Amor", antes de "Por Onde Andei". Impressionante como, mesmo tão pessoais, as músicas de NANDO REIS conseguem contar a história dos casais, ex-casais, pessoas que querem ser um casal e pessoas que acham que não precisam disso. "Por Onde Andei" conta a minha história com a Sílvia, o tempo que passei em São Paulo e ela em Fortaleza, sem deixar escapar nem o detalhe sórdido do carro roubado. Muitos outros ali teriam suas histórias contadas em outras músicas, como "Os Cegos do Castelo", que a sucedeu, ou mesmo nesta, da qual nos apropriamos.

Errando demais as letras, todo mundo já tinha sacado que o músico estava no mínimo "trêbado", "tetrâbado", mas o show estava sensacional, com introduções lentas que acabavam em longas jams dos INFERNAIS. E o vocalista/palhaço/bobo da corte/boneco fantoche aproveitava as jams para dançar suas dancinhas ridículas num show maravilhoso, sem amarras, livre como o bom rock and roll tem que ser. E ameaçava se jogar do palco. E incluía trechos de TIM MAIA. E convidava a todos para um banho de mar. E precisou que o roadie tocasse seu violão em seu lugar. E até os INFERNAIS riam de suas arrumações. E "O Segundo Sol" parecia que só iria terminar quando o primeiro chegasse à Praia do Futuro.

"Frevo Mulher" e "Marvim", em mais uma versão espetacular e completamente diferente de todas as que eu conhecia terminavam o tempo normal do show. Pelo estado do vocalista, ninguém duvidaria se não houvesse um bis. Mas ele chegou, com NANDO formalizando aquilo que eu já tinha pensado. "Se eu cantar a mesma música da mesma forma por trinta anos, vou estar fazendo isso errado", disse ele ao iniciar, sozinho, "Pra Você Guardei O Amor", que nem estava no set list original. O show terminou com "Bichos Escrotos", sem banho de mar, nem o prometido stage diving. Já assisti muitos outros shows do magrelo cantor, mas, se ele continuar nos presenteando com surpresas como o show desta sexta, vou querer vê-lo ainda muitas outras vezes. E pelas fotos que Hannah Lima tirava do público ao fim do show, NANDO REIS e OS INFERNAIS devem querer voltar a Fortaleza brevemente também. Mais oportunidade para que eu e a Sílvia lembremos que nos achamos (e achamos o velho Fiat Uno também).

Set List:

1. Pré Sal
2. Sou Dela
3. O Mundo É Bão Sebastião
4. Do Seu Lado
5. Fogo e Paixão/ Whisky A Go Go
6. No Recreio
7. Não Vou Me Adaptar
8. N
9. Luz dos Olhos
10. All Star
11. Declaração de Amor
12. Relicário
13. Por Onde Andei
14. Os Cegos do Castelo
15. O Segundo Sol
16. Frevo Mulher
17. Marvin
18. Pra Você Guardei o Amor
19. Bichos

Fotos: Sílvia Amora Tavares




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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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