Roger Waters: Minuto HM disseca show no Rio de Janeiro

Resenha - Roger Waters (Engenhão, Rio de Janeiro, 29/03/2012)

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Por Eduardo Bianchi Rolim
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Como escrever sobre algo que é uma obra-prima? É uma daquelas coisas que são prazerosas e devem ser feitas, pois grandes feitos da humanidade devem sempre ser destacados - sejam eles da origem que forem.

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Mas também dá aquela sensação que você não vai conseguir passar aquela emoção toda ao seu leitor. E é exatamente isso que estou sentindo agora, tentando iniciar este texto para falar da perfeição que vi no dia 29/março/2012, no Estádio do Engenhão, na cidade do Rio de Janeiro.

O setor que pude ver o show não podia ter sido melhor: a chamada pista VIP (pista Prime). E a entrada pela lateral do palco se deu com grande expectativa, pois até então, tinha me segurado para não ver vídeos na internet para ter uma experiência (ainda) mais "surpreendente" ao-vivo.

Assim, logo que entrei no Engenhão, já fui meio correndo para olhar o muro - mal olhei se a pista estava cheia, as arquibancadas, nada. E, de cara, já fiz o vídeo abaixo:

A espera pelo show se deu ao som de Rolling Stones e outros clássicos do rock inicialmente. No ingresso, o show estava marcado para as 21h00, mas no site de ingressos, as 21h30. Neste última meia hora, muitas músicas dos Beatles marcaram presença até o grande apagar das luzes, sempre um grande momento em um show. Comigo, a Suellen com alguns amigos, pessoal bacana.

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A partir de agora, fica difícil descrever o espetáculo, resenhar algo como um show "normal". Digo isso pois aquelas duas horas foram marcadas por uma verdadeira avalanche de elementos multimídia, algo que nunca vi na vida, seja em shows, ou mesmo peças. Em minha opinião, nem U2, Madonna, Rolling Stones, ou mesmo peças Broadway que já vi, como "A Bela e a Fera" ou "Cats" chega aos pés do que este espetáculo do The Wall está proporcionando - até por uma questão de tamanho mesmo. A riqueza de detalhes, a qualidade das projeções e a monstruosa logística operacional do evento é algo que jamais havia presenciado.

O show não teve "surpresas" com relação ao que Roger Waters vem apresentando: foi o The Wall, na íntegra, sem mais, nem menos. A "surpresa" dá mesmo quando quando tudo começa:

Como pode ser bem visto no vídeo acima, o show tem um início de fazer valer o ingresso logo de cara: dali, já se tem uma ideia da quantidade / qualidade de todos os elementos que viriam a aparecer música a música - a resolução das projeções no muro é algo que deixa nossas TVs HDs, 3Ds ou mesmo a melhor sala de cinema anos-luz atrás em termos tecnológicos. O cuidado com os detalhes para reproduzir os elementos que se escuta na bolacha de 1979 é formidável mesmo - toda aquela logística para uma rápida passagem do avião e finalmente o choque com o muro... o que quero dizer é simples: é algo tão rápido, mas tão importante para os fãs do disco, e ali estava um avião mesmo, que deslizaria pelo cabo de aço por apenas alguns segundos, mas que faz toda a diferença do mundo.

As coisas se acalmam na sequência do show (e do álbum), até a chegada de um dos maiores sucessos da história do rock, uma música que ganhou um ar pop e é conhecida mesmo por aqueles que não escutam nosso estilo de música: a parte 2 de Another Brick levou todos a cantarem, com as lindas crianças da escola de música da Favela da Rocinha ali presentes com suas camisetas com a mensagem "Fear Build Walls". Neste momento, o som do estádio, com uma qualidade irrepreensível, mostrou-se ainda mais sensacional com o efeito do som do helicóptero que, como em um mega sistema de home theater, passou de trás para a frente do estádio, fazendo muita gente (eu, inclusive), a olhar para o alto, como se aquilo realmente estivesse acontecendo. Nenhum vídeo ou palavras podem demonstrar o que estou falando: é preciso estar lá, e de preferência perto do palco, para "sentir" o envolvimento total dos efeitos, a experiência. Sem contar o enorme boneco, o "teacher", que inclusive acendia os olhos:

Para iniciar Mother, Waters se dirigiu à plateia e, falando em um português bem ensaiado com o público, falou sobre sua felicidade em estar no Brasil e dedicou, como já era esperado, o espetáculo ao brasileiro Jean Charles de Menezes, assassinado pela polícia londrina em 2005, ao ser confundido com um terrorista. Rogers ainda disse: "em 1978, eu achava que o muro era sobre mim. Estava errado. Não é sobre mim, mas sobre Jean Charles e muitos outros que são vítimas de terrorismo de Estado em todo o mundo".

E finalmente Mother foi tocada, uma das minhas preferidas da carreira do Pink Floyd. Com o telão do palco trazendo imagens de Roger Waters dos anos 80, em um dueto com ele mesmo, a marcante letra trouxe um elemento muito interessante: quando Roger cantou "Mother, should I trust the Government?", o muro trouxe, do lado direito do público, a mensagem "NO FUCKING WAY". E, do lado esquerdo e em Português bem claro, um belo de um "NEM FUDENDO". Aqui abro até uma exceção no blog para palavrões, hehehehe. Foi uma linda interpretação da música, que me levou rapidamente as lágrimas, mas me contive mais do que imaginava que conseguiria - aliás, no show como um todo.

A parte final da trilogia de Another Brick foi espetacular: os efeitos projetados no muro, já praticamente cheio, davam uma clara sensação de que o muro estava de verdade sendo quebrado, mas era tudo parte do espetáculo. Confesso que inicialmente pensei mesmo que as coisas estavam caindo e os tijolos trincando, mas logo notei que eram efeitos visuais, tamanha a qualidade e precisão de tudo.

Com a sequência das músicas, o muro cada vez mais ia se fechando, se fechando... e era impressionante notar o trabalho nos bastidores: a coisa acontecia brick por brick, de maneira sincronizada, uniforme. Os tijolinhos tinham tamanhos diferentes, e era muito legal ir acompanhando, entre os milhares de efeitos e projeções, a coisa mais "humana" e "manual": o muro se fechando - ou melhor dizendo, "The Last Few Bricks", até finalmente o primeiro ato ser finalizado com o muro fechado.

Após os britânicos 20 minutos de intervalo, nos quais imagens dos homenageados ficaram fixas no muro, o segundo ato foi iniciado com todos os músicos tocando atrás do muro e com as projeções mostrando imagens estáticas, vídeos e animações além de, claro, um pouco do que acontecia lá trás. "Hey You" e "Is There Anybody Out There?" convidam o público para mais reflexões políticas que seriam trazidas no muro completo através de grafismos, vídeos, fotos e tudo que se tem direito em termos audiovisuais. Em "Nobody Home", ao lado esquerdo do público, há um espaço no muro onde Roger Waters está em um dos diversos cenários que o show traz, em casa, onde o público do lado direito, onde estávamos, pode acompanhar pela projeção no muro:

"Vera" e "Bring The Boys Back Home" foram outros 2 grandes momentos, que fizeram o público aplaudir as mensagens passadas na músicas. Neste clima, estava tudo pronto para um outro grande momento que viria, um dos mais lindos de todos: claro que estou falando de Comfortably Numb, que foi executada de uma maneira tão igual, tão perfeita à versão original e ao que David Gilmour faz ao-vivo que chega a levantar uma "leve" suspeita com relação a playback. Confiram abaixo este lindo momento:

The Show Must Go On e o retorno de In The Flesh começam a marcar o fim do ato 2. E ainda havia tempo, claro, para o enorme porco inflável ganhar os ares do Engenhão, com mensagens escritas em português, como "racismo" e "porcos capitalistas".

O cuidado das pessoas da produção que estavam direcionando o porco (engana-se quem acha que ele voa "livremente" como nos anos 80 - ele está é cuidadosamente sendo articulado) era enorme: as pessoas, que ficavam entre a divisão da pista VIP e normal, faziam de tudo para não chamarem a atenção a elas, inclusive se abaixando quando viam que as pessoas estavam olhando para eles. Reparei nisso pois estávamos encostados na grade da divisão da pista VIP, local que costumamos ver os shows.

O porco ficou sobrevoando o público até finalmente o ápice final do segundo ato, que é a queda do muro em The Trial. Pouco depois, o porco caia sobre o público presente na pista comum, que fez o trabalho que se esperava em uma situação dessas...

O show estava em seu fim. A banda, já com o muro destruído (muito legal ver a logística de tudo - os tijolos caem para dentro do palco, e caem mesmo, não é efeito - pelo menos a maioria deles), traz uma versão de Outside The Wall com ukulele, banjo, trompete e acordeão, mas confesso que nesta hora, o interesse maior era mesmo em ver o muro destruído e conferir de perto todos os músicos reunidos, lado a lado.

Roger aproveita para agradecer cada um dos músicos, onde cada um aproveita para atravessar o palco, reverenciar o público e finalmente sair, em mais um ato ensaiado, até finalmente ser a vez do dono da festa deixar o palco, marcando o fim de um espetáculo magnífico, executado sem erros.

Não há o que falar sobre a precisão britânica na execução da obra The Wall ao-vivo por toda a produção e até mesmo pela banda. Repetindo o que já disse logo no início e durante todo o texto, tudo é perfeitamente executado: não há falhas no timing do sincronismo do som com todos os elementos visuais, sejam as projeções ou os elementos como o avião, o boneco-professor ou o porco.

Mas há dois pontos a serem comentados antes de finalizar esta resenha: um deles é com relação a playback. É muito claro que Roger Waters usa deste artefato em muitos momentos do show, principalmente em músicas que exigem algo que sua ótima voz não pode mais entregar (partes mais altas). Isso, entretanto, em nada prejudica ou desqualifica qualquer coisa do show - e não incomoda em nada. Mas é algo que sempre precisa ser ressaltado quando se fala de algo "ao-vivo".

O segundo ponto já é um sentimento relacionado a um show de rock tradicional (então aqui procurarei tomar o devido cuidado para não misturar as coisas): não há muito aquele sentimento mais "humano" de um show tradicional - parte disso pelo altíssimo nível de ensaio e principalmente execução do espetáculo. Não se nota, por exemplo, se determinado músico está "bem" ou "mal", ou esteve melhor em outra oportunidade em comparação direta com o show que está acontecendo. Não se notam ainda aquelas "falhas aceitáveis" que trazem a percepção mais "humana" das coisas. É apenas isso - apesar da proposta não ser exatamente esta mesmo, mas sim do perfeccionismo extremo.

Uma noite linda, com temperatura e clima perfeitos para um show inesquecível. Ainda mais para mim.

Para ver uma galeria exclusiva de fotos e o setlist completo da noite, acesse a matéria original no Minuto HM:
http://minutohm.com/2012/04/02/cobertura-minuto-hm-roger-wat...




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Sobre Eduardo Bianchi Rolim

Paulistano, nascido em 1982, bacharel em Sistemas de Informação pelo Mackenzie e pós-graduado em Administração de Empresas (CEAG) pela FGV. Tem como paixão as bandas Iron Maiden e MetallicA, mas é fã de rock e metal internacional em geral. Alguns hobbies são: acompanhar o time do coração, Corinthians; doente por Back To The Future e Indiana Jones; viajar; Playstation; jogar o eterno Duke Nukem 3D. Carros em geral e F1 em especial. Tudo que pode ser relacionado à tecnologia (software e hardware). Ama os velhos receivers valvulados e aquelas maravilhosas caixas pesadas e potentes. Fã do Whiplash desde os primórdios. Criador e administrador do Minuto HM (www.minutohm.com), o blog da família do Heavy Metal (Twitter: @minutohm).

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