New York Dolls: Noite quente, em todos os sentidos, em São Paulo
Resenha - New York Dolls (Hangar 110, São Paulo, 10/04/2008)
Por Rodrigo Duarte das Neves
Postado em 19 de abril de 2008
Noite quente, em todos os sentidos, nesta quinta-feira, 10/04 em São Paulo. Principalmente no apertado Hangar 110 que recebeu a lenda do punk/glam rock New York Dolls para um inédito e imperdível show, parte da turnê brasileira da banda que ainda passa por Recife, no festival Abril Pro Rock.
Banda seminal da inesquecível cena nova-iorquina do final dos 70’s, os Dolls foram fundamentais para a criação do movimento punk, tendo influenciado inclusive os emblemáticos Ramones. Com seu rock n’ roll descompromissado e empolgante (um Rolling Stones ‘junkie’ diriam alguns) e o visual chocante com cinco marmanjos totalmente em trajes femininos e maquiagens, a banda mesmo com sua curta trajetória de apenas dois discos, tornou-se um ícone da época. Os excessos não permitiram que a banda retornasse as atividades em 2004 com sua formação original, já que 3 dos integrantes originais já faleceram, dentre eles o grande Johnny Thunders, guitarrista da banda que teve um melancólico e solitário final de vida. Mas David Johansen e Sylvain Sylvain já valiam o ingresso e, como era de se esperar, lotaram a casa.
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Apesar dos organizadores divulgarem que inúmeras mudanças seriam realizadas na casa, o Hangar 110 ainda se mostra extremamente deficiente para receber apresentações desse porte: ventilação péssima (o que deixou o ambiente extremamente quente), banheiro pequeno, bar insuficiente para atender o número de pessoas presentes (um único caixa para atender aproximadamente 800 pessoas, provocando uma fila enorme durante boa parte do evento), além da pobre acústica do local e da falta de estacionamentos suficientes. De qualquer forma, uma lenda do rock n’ roll subia ao palco esta noite, e nem os problemas estruturais relacionados acima estragariam o histórico show.
A abertura da noite ficou a cargo dos Forgotten Boys, banda bastante influenciada pelo New York Dolls e respeitadíssima no cenário rocker paulista já há alguns anos. Apesar de cada vez mais profissional e entrosada, a banda mostrou que seu repertório vem perdendo força a cada novo disco. Depois do ótimo "Gimme More", a banda lançou um disco regular ("Stand by the D.AN.C.E") e algumas músicas do disco que a banda está finalizando atualmente foram apresentadas, mas não empolgaram a platéia, que a certa altura já demonstrava certa impaciência com a permanência da banda no palco. Qualidade e presença de palco a banda tem, como mostrou no cover de "1970" dos Stooges já no final do show. Só falta resgatar alguma coisa que acabou ficando para trás com o passar dos anos e que claramente está fazendo falta para os Forgotten Boys.
Já passava das 23h quando as cortinas se abriram e Syl Sylvain entrou acenando para a platéia, que imediatamente foi à loucura. Era o início da festa e logo os primeiros acordes de "Babylon" foram ouvidos e David Johansen de jaqueta, babylook, calça justa e lenço na cintura tomou conta do palco, cantando e rebolando como nos áureos tempos. Sem dúvida alguma, a figura central do show foi Johansen, que se mostrou um frontman perfeito, empolgado, carismático, sorrindo o tempo todo e mostrando a satisfação de ainda conseguir incendiar uma platéia mesmo depois de 30 anos de carreira.
Os demais integrantes da banda mostraram muita competência e segurança, principalmente o baixista Sammi Yaffa, provavelmente pela experiência adquirida à frente do grande Hanoi Rocks nos anos 80. Além de técnica, o baixista mostrou muito carisma, dividindo o microfone com Sylvain. Por sinal, Sylvain parecia mais empolgado agora do que na época clássica da banda, talvez por não ter mais que dividir as atenções com Thunders. Competente nos backing vocals e brincando constantemente com a platéia e com os demais integrantes, Sylvain mostrou estar vivendo intensamente aquele momento.
O repertório foi fantástico, cobrindo os clássicos dos dois primeiros discos ("New York Dolls" de 1973 e "Too Much Too Soon" de 1974) e alguns destaques do disco de retorno da banda ("One Day It Will Please Us To Remember Even This" de 2006). Foi emocionante ver e ouvir clássicos imortais do rock como "Puss and Boots", "Human Being", "Jet Boy", "Subway Train", "Stranged in the Jungle", "Looking for a Kiss", "Lonely Planet Boy" e "Trashed". Após uma hora e meia de show, a banda anunciou o fim da noite e deixou o palco, mas ninguém arredou o pé do Hangar. Todos sabiam que o melhor estava por vir. E em poucos minutos a banda voltou ao palco para tocar seu maior clássico. "Personality Crisis" foi cantada em uníssono pela platéia, que lavou a alma e viu a banda se despedir abraçada no palco.
Platéia suada, cansada, acabada, mas todos com um enorme sorriso no rosto. Em tempos onde as bandas se preocupam mais com suas roupas e cortes de cabelo do que com a música, o New York Dolls mostrou que vestidos de mulher e com penteados epalhafatosos fizeram o que há de melhor em matéria de Rock n’ Roll. E que ainda podem fazê-lo por um bom tempo.
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