Resenha - Rio ArtRock Festival (Cais do Oriente, Rio de Janeiro, 07/10/2007)

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Por Rodrigo Werneck
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.









Já em sua décima segunda (!!) edição, o Rio ArtRock Festival mais uma vez ocorreu no Rio de Janeiro. Evento mais festejado entre os amantes brasileiros do rock progressivo, desde o ano passado vem sendo realizado de forma mais “underground”, por assim dizer, com uma estrutura mais enxuta e bandas de menor renome. O lendário grupo inglês Hawkwind chegou a ser anunciado para a edição desse ano, porém acabou sendo sacado em virtude do não fechamento de alguns apoios fundamentais a tal viabilização. Mesmo tendo-se em vista que o festival já trouxe ao Brasil, desde 1996, bandas do naipe de Focus, Banco del Mutuo Soccorso, Le Orme, Nektar, Caravan e Wishbone Ash, há de se elogiar a tenacidade e a persistência com que a produtora Rock Symphony mantém acesa a sua chama, mesmo na impossibilidade de organizá-lo nos mesmos moldes de outrora.

Se já não se aplica mais a uma casa de espetáculos do porte de um Canecão ou de um Citibank Hall, ao menos a escolha desse ano recaiu sobre o simpático Cais do Oriente, misto de restaurante e pequena casa de shows, localizado no Centro do Rio. Verdade seja dita, narizes torcidos à parte, o local foi bastante apropriado e de fácil acesso para pessoas vindo das mais diversas regiões do Rio, e adjacências.

O elenco do festival incluiu dessa vez apenas uma banda brasileira, a paulista Violeta de Outono, assim como duas atrações internacionais: os chilenos do Evolución e os suecos do Trettioåriga Kriget. Um bom balanço de estilos, indo do jazz-rock ao psicodélico, do progressivo clássico ao hard prog, o que é muito bom quando há vários artistas se apresentando, como forma de não tornar a experiência como um todo por demais cansativa. Isso foi facilitado também pelo fato da casa apresentar uma configuração com mesas e cadeiras para todos os presentes. Em termos de estrutura de som e iluminação, a mesma era modesta porém condizente com o que se poderia esperar para o porte do evento.

O primeiro grupo a se apresentar foi o Evolución. Músicos experientes compõem as suas fileiras: o líder e tecladista Pedro Muñoz Recabarren, o guitarrista Fernando González Bravo, o baixista Fernando Islas Zuñiga, e o baterista Jorge Cruz Morales. Banda formada em 1982 no Chile a partir das cinzas do grupo Espectros, o Evolución se destacou nos anos 80 pelo seu fusion com elementos progressivos, tendo encerrado as atividades em 1987. Em 2002, porém, retornaram às atividades, lançando novos discos e fazendo shows. Banda de extrema capacidade técnica e entrosamento ímpar, pecaram apenas pela sonoridade às vezes um pouco calcada no que de pior tinham os anos 80, em especial nos timbres de teclados um tanto quanto irritantes. O repertório foi totalmente instrumental. O maior destaque, apesar do tecladista buscar para si os refletores (tanto em seus simpáticos discursos entre as músicas, quanto durante as próprias), foi o guitarrista Fernando González, uma espécie de Allan Holdsworth latino. A semelhança era tanto física quanto no tocar. Seu estilo limpo e técnico, “classudo”, de digitação perfeita, deixou os presentes boquiabertos.

O Violeta de Outono foi a segunda atração da noite, apresentando sua nova formação. Além do guitarrista e vocalista Fabio Golfetti e do baterista Claudio Souza, fazem parte agora do grupo o baixista Gabriel Costa e o tecladista Fernando “Macabro” Cardoso. No disco mais recente da banda, o já aclamado “Volume 7”, ficam patentes as contribuições inseridas pela entrada da dupla, em especial pela adição do muito bem-vindo órgão Hammond aos arranjos e execuções. Se ao vivo não foi possível ter um autêntico Hammond presente, Fernando compensou isso tirando excelentes timbres de sua tecladeira digital. Golfetti desfilou todo o seu repertório de guitarrices e efeitos, incluindo o célebre e exótico “glissando”, no qual toca a guitarra deslizando por sua escala uma pequena vareta metálica, à la Daevid Allen (do Gong). Mais psicodélico, impossível. A sonoridade da banda cambou um bocado para os lados do progressivo, lembrando em especial Caravan e Camel. A renovação certamente fez muito bem à banda, nessa que foi provavelmente sua melhor apresentação em solo carioca até hoje. O repertório incluiu temas clássicos dos anos 80, assim como material mais novo, e o nível (alto) foi mantido durante todo o show.

E após duas performances com ecos canterburianos (vide referências a Gong, Camel, Caravan e Allan Holdsworth), chegou a vez da atração principal da noite. Oriundos dos clássicos anos 70, indubitavelmente a época dourada do rock progressivo, os suecos do Trettioåriga Kriget subiram enfim ao palco do Rio ArtRock Festival. Em sua primeira visita ao Brasil, vieram com uma formação consistente, incluindo os membros fundadores Stefan Fredin (baixo, guitarra, vocais) e Dag Lundquist (bateria), mais o guitarrista solo Christer Åkerberg (no grupo desde 1972), o vocalista e guitarrista base Robert Zima (o único austríaco da trupe, na banda desde 1971), e o tecladista e saxofonista Mats Lindberg (integrante desde 1977).

Com esse time, apresentaram um longo set que incluiu temas mais recentes (que dominaram a primeira metade do show), assim como os aguardados clássicos setentistas. Como já se podia imaginar, a qualidade e conseqüentemente os aplausos aumentaram consideravelmente na segunda metade do show. Longos temas no melhor estilo hard progressivo, com inspiradas passagens instrumentais incluindo solos de guitarra e teclado, primordialmente. Vocais inspirados, sendo que Zima conseguiu reproduzir muito bem os agudos contidos nas versões originais de estúdio. Os músicos volta e meia revezavam-se entre os instrumentos, com Fredin eventualmente tocando guitarra, Zima mudando para o teclado, e Lindberg passando para o sax. Numa noite inspirada, o grupo não deixou a peteca cair por um instante sequer, e a longa apresentação deixou saudades. Por sorte, a performance de dois dias depois (ocorrida em Macaé, também no estado do Rio), acabaria sendo gravada para futuro lançamento em CD e DVD pela gravadora Rock Symphony.

Resumindo, tratou-se de uma versão mais reduzida do festival, mas que talvez seja a fórmula ideal para que os organizadores consigam prosseguir realizando-o por mais anos. Um público de cerca de 200 pessoas lotou o local, e se não houve medalhões se apresentando, ao menos o nível artístico do evento foi mantido bem a contento. Vamos ver o que 2008 nos reserva... Para quem acredita em superstições, será que o número 13 trará sorte ao festival?

Links:
Rio ArtRock Festival: www.rioartrock.com.br
Trettioåriga Kriget: www.trettioarigakriget.com
Violeta de Outono: www.violetadeoutono.com.br
Evolución: www.evolucionjazzrock.cl

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Sobre Rodrigo Werneck

Carioca nascido em 1969, engenheiro por formação e empresário do ramo musical por opção, sendo sócio da D’Alegria Custom Made (www.dalegria.com). Foi co-editor da extinta revista Musical Box e atualmente é co-editor do site Just About Music (JAM), além de colaborar eventualmente com as revistas Rock Brigade e Poeira Zine (Brasil), Times! (Alemanha) e InRock (Rússia), além dos sites Whiplash! e Rock Progressivo Brasil (RPB). Webmaster dos sites oficiais do Uriah Heep e Ken Hensley, o que lhe garante um bocado de trabalho sem remuneração, mais a possibilidade de receber alguns CDs por mês e a certeza de receber toneladas de e-mails por dia.

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