Slayer: Se essa agressividade fosse direcionada a outras áreas...
Resenha - Slayer (Chevrolet Hall, Belo Horizonte, 03/09/2006)
Por Maurício Gomes Angelo
Postado em 04 de setembro de 2006
Não há praticamente nada em Minas Gerais que escape ao tradicionalismo. Costumes, crenças, hábitos, política, visão social, etc. Tudo aqui é marcado, ao extremo, pelo culto às tradições. A música não é exceção. Não à-toa bandas mais antigas, as ditas clássicas, sempre obtêm uma ótima recepção nestas terras.
Fotos: Thiago Sarkis
Nuclear Assault, Sodom e Kreator, ano passado, haviam sido apenas o aperitivo. Para os afoitos por "instituições sagradas", nada melhor que uma das bandas fundadoras do thrash metal. E o belo paradoxo que o Slayer trouxe a Belo Horizonte, sendo tradicional e contestatório ao mesmo tempo, em meio a todo o provincianismo/pequeno-burguês/religioso – três coisas diferentes reunidas com muita intensidade no mesmo lugar – dos mineiros, foi, no mínimo, curioso de se ver.
Uma ótima oportunidade para todos os reprimidos e pacíficos moradores deste lugar sentirem-se encorajados pela força do rebanho, vestirem suas camisas pretas, as caras de maus, os indefectíveis acessórios, empunharem suas vodkas baratas e celebrarem mutuamente não só a própria desgraça pessoal, como a sonora. Bom seria se toda essa "agressividade" fosse direcionada para outras áreas do circo local, como a política clientelista, por exemplo, mas é querer demais.
Desta forma que os 23 anos de "horror como entretenimento" dos estadunidenses desembarcou pela primeira vez em BH com o peso de saciar toda uma horda de seguidores sedentos, adivinhem, por clássicos. E sem dúvida saciou. Há sempre os dois lados, que acabam se entrecruzando e colaborando, ou não, para o sucesso único. No business, o Slayer é infalível, exemplar. Boatos não confirmados dizem que o cachê gira em torno de 50 mil dólares. "Christ Illusion", o excelente último álbum, some das prateleiras. Ao vivo, no show como negócio, são irrepreensíveis: chegam, executam, satisfazem e vão embora. Música, afinal, é um trabalho como qualquer outro. Além do que, caos e violência atraem e vendem muito facilmente. Nada o que recriminar Tom Araya e seus companheiros. Sabem explorar como poucos as fraquezas e imbecilidades humanas. E sem dúvida se divertem muito ao observar alguns fanáticos que caem nessa historinha de louvar a Satã e coisas parecidas.
Por tudo isso que o resultado foi um Chevrolet Hall bem cheio – 70 ou 75% de sua capacidade – o maior público, na casa, que já vi em termos de metal. E não é só pela performance e a qualidade das composições, como principalmente por toda a atmosfera criada em torno, que o Slayer supera, ao vivo, as outras bandas citadas no início deste texto.
As várias rodas de mosh que se perpetuavam por todo o local era o exemplo nítido da catarse coletiva que o metal sempre foi. Pescoços maltratados, açoites capilares, corpos empapados de suor, calor, fumaça, luzes, incontáveis decibéis – todo o cenário característico era transmitido ao palco, encontrando a fonte de toda aquela entrega.
Dave Lombardo rege o caos sonoro com admirável competência e punch, adotando uma postura simples e descompromissada: boné para trás, tênis e roupa comum. O principal signo estético da banda está mesmo em Kerry King. O corpo imenso e rijo coberto de tatuagens tribais, a careca e a barba peculiar, botas, correntes, guitarras estilizadas, os riffs cavalares e os solos desarmônicos e ultra-distorcidos. Jeff Hanneman é um coadjuvante de luxo, enquanto Tom Araya age com naturalidade e simpatia, encarnando o frontman insano que os fãs esperam nos momentos adequados.
O Slayer é o tipo de banda que não entra num palco para ser avaliada, mas apenas esperam a adoração do público, alimentando-os com clássicos incontestáveis (somente uma do novo álbum, "Cult", foi apresentada) e o tipo de performance que todos querem ver.
Cifras altas proporcionam uma boa equipe e um verdadeiro profissionalismo, o que foi sentido no uso da estrutura sonora, realmente admirável. E isso contribuiu para que as mais de duas décadas de espera dos belo-horizontinos fosse bem recompensada. Urros, saudações e vibrações de toda natureza eram sentidas a cada música, sendo que uma rápida olhada pelo set-list nos permite observar toda a esperteza dos sujeitos. Mestres da eterna arte de "só fazer aquilo que lhe dará retorno certo" - ao contrário de outras bandas de sua época que, ao arriscarem demais, acabaram caindo em desgraça eterna. "War Ensemble", "Postmortem", "Raining Blood", "Dead Skin Mask" e "Angel Of Death" são apenas alguns exemplos da refinada e cuidadosa escolha do set.
O sonho do mercado é que houvesse muitos "Slayer’s" por aí. Os estadunidenses "dão aula" em todos os quesitos. Música segmentada de primeira, estética, mito, adoração, imagem, dinheiro. Esta turnê será, sem dúvida, extremamente bem-sucedida. Como todas as outras. Ao menos desta vez eles têm um bom álbum de apoio. Que voltem mais vezes. Mas é uma pena que toda a energia e "vivacidade" dos presentes no Chevrolet Hall se restrinjam àquele momento, no primário sentimento de estar fazendo algo "forte" e "chocante". Quando a catarse acaba e as máscaras decaem, sobra pouquíssima coisa.








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