Resenha - Kreator, Tristania e Shaaman, (Apache Open Air, Catanduva, 19/03/2005)

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Por Natália Mantovan de Almeida
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Nove horas da manhã de um domingo indeciso: ora nublado, ora ensolarado. Os portões do Recinto de Exposições de Catanduva já começavam a ser povoados por estranhas criaturas vestidas de preto. Algumas, ainda mais estranhas que outras, insistiam em exibir coturnos, sobretudos e maquiagens pesadas, apesar do clima. Para os "leigos" que passavam perto dali, talvez a cena parecesse um pouco bizarra. Para os headbangers do interior paulista, no entanto, aqueles eram os primeiros sinais de um evento muito aguardado, que prometia ser inesquecível. E foi. Infelizmente, não do modo como se esperava.

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Os cartazes anunciavam nove bandas: Tiger Cult, Prophetic Age, Cólera, Golpe de Estado, Tuatha de Danann, Shaman, Tristania e Kreator, e mais uma banda surpresa. Quanto à última, prevista para ser a quinta banda a se apresentar, as suspeitas pairavam sobre Krisium, Korzuz e Torture Squad (provavelmente porque a turnê Tristania/Kreator dividiu o palco com essas bandas em sua passagem pela capital paulista).

É claro que ninguém esperava entrar no local antes das duas da tarde, uma vez que havia sido divulgada a abertura dos portões para o meio-dia, e pontualidade britânica não faz parte da nossa cultura... Apesar disso, quatro horas de atraso somente para entrar foi um pouco além das expectativas mais pessimistas! Diziam que o equipamento de som tinha acabado de chegar. A ansiedade natural foi se transformando em preocupação...

Uma vez dentro do recinto, podia-se respirar aliviado, certo? Ledo engano... Os primeiros pedidos de desculpas só vieram por volta das seis da tarde. O organizador, Carioca, alegou problemas com a equipe "i" responsável pela aparelhagem sonora. A essa altura, a programação já havia sido totalmente alterada. Os shows de abertura ficaram para depois. Tristania, Shaman e Kreator subiriam ao palco primeiro.

O céu já estava escuro quando os noruegueses do Tristania finalmente surgiram. A Lua semi-encoberta pelas nuvens era o adereço perfeito para a atmosfera sombria provocada pelas notas graves do baixo, acompanhadas pela marcação constante da bateria. As guitarras, quase imperceptíveis, pareciam quase desnecessárias (um dos guitarristas mal se dava ao trabalho de tocar as cordas de seu instrumento).

Os urros e sussurros dos vocalistas foram bastante eficientes, mas a dona da cena era obviamente a musa Vibeke. Ela só precisava soltar um pouquinho da sua linda voz para o público delirar. O figurino, a palidez, o ar de mistério, o talento, o rebolado voluptuoso, tudo na moça encantava os presentes. O set list foi bastante equilibrado, mesmo porque as canções são muito parecidas umas com as outras. Hits como "Gothic Metal" foram recebidos com entusiasmo, assim como as faixas do último álbum, "Ashes".

Tecnicamente, a apresentação só pecou pelo som ligeiramente desregulado, mas diante dos acontecimentos vespertinos, ninguém se surpreendeu com o fato. A banda se despediu da mesma forma que agiu durante todo o show: gelidamente, tal como típicos escandinavos.

Em seguida foi a vez dos brasileiros do Shaaman quebrarem tudo. Literalmente. Interrompido pelo menos três vezes por problemas com microfones, Andre Matos não perdeu seu bom humor nem por um minuto. Muito experiente, o vocalista driblava as deficiências técnicas do evento abusando de sua simpatia. Foram muito bem recebidos pela galera, que vibrava com a já manjada, porém sempre eficiente seqüência: “Ancient Winds”, “Here I Am”, “Distant Thunder”. O set incluía ainda, do primeiro álbum (Ritual): “For Tomorrow”, “Time Will Come”, “Pride”.

Do novo trabalho, “Reason”, os moços apresentaram a belíssima “Inocence”, acompanhada em coro pelos fãs que já baixaram a música pela internet, como o próprio Andre previra.

Assim como acontece em todo show do Shaman e do Angra (e de toda banda que tenha alguma relação com “Angels Cry”, diga-se de passagem), “Carry On” foi pedida aos berros. O apelo, entretanto, não foi atendido pelos músicos, que preferiram a também querida “Lisbon”. O público, extremamente caloroso, relutava em permitir o final. Várias vezes a banda prometeu voltar a Catanduva com um show completo. Saíram ainda ao som de "Olê, olê, olê, olaa...Shaman...Shaman..."

Por mais satisfeitos que estivessem os fãs das duas primeiras bandas, a atração principal da noite ainda era o Kreator. Quando os alemães finalmente subiram ao palco, no entanto, as pessoas mal se aguentavam em pé. Uma decepção para Mille que fez de tudo para animar seus fãs. Ele deixou bem claro não ter nada a ver com a "merda de organização" do festival. Várias vezes o "rapaz" implorou mais animação da galera, que afinal de contas estava apenas em seu terceiro show, quando o esperado era que estivessem em seu nono, logo, ninguém deveria estar cansado. "You can't be tired!" Ele não cansava de exclamar, utilizando até mesmo da linguagem universal dos sinais para insinuar que estavam todos com sono... Talvez por falhas comunicativas entre músico e público (que aparentemente não notou quando o moço agradeceu Curitiba, ao invés de Catanduva), ou por puro cansaço mesmo, o fato é que os apelos não foram muito bem atendidos.

O show em si foi extremamente competente, completamente satisfatório. Atiraram para todos os lados todo o peso e agressividade a que tinham direito. A introdução abriu espaço para um set que incluía diferentes períodos de sua vasta discografia. Do mais recente trabalho, “Enemy Of God”, estiveram presentes a faixa título, “Impossible Brutality”, “World Anarchy”, “Suicide Terrorist” e “Voices Of The Dead”. Clássicos mais antigos, como “Pleasure to Kill”, “Violent Revolution”, “Phobia”, “Betrayer” não foram esquecidos. Não à toa, a apoteose ficou por conta de “Tormentor”, uma das mais pedidas durante a apresentação. Após um “We will return!!”, deixaram o palco.

Para a maior parte dos presentes, aquele foi o fim do promissor festival. Aparentemente, Tiger Cult, Cólera, e todas as outras ainda fariam seu show. Entretanto, nem todos os motoristas contratados por excursões estavam dispostos a esperar. Nem todas as pessoas tinham resistência física para isso. E nem todos tinham a segunda-feira livre para se recuperar. Uma pena. Todo o encanto do Tristania, todo o carisma do Shaman e toda energia do Kreator, nada disso livrou a noite de um certo gostinho de frustração.

Agora é hora de apurar e divulgar os erros. Não para acusar ou lamentar, e sim para evitar que se repitam as falhas. O Brasil, especialmente o interior, carece de grandes festivais. É preciso tentar e aprender. Parabéns aos organizadores pela iniciativa de fazer o show. Mas por favor, mais cuidado da próxima vez. Não importa quem teve culpa, o fato é que houve, sim, negligências inaceitáveis para um evento desse porte.

Espero sinceramente que isso sirva de lição para que a próxima empreitada seja melhor sucedida, e não de obstáculo para desistir.

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