Angra: Repertório novo foi aprovado com louvor em Brasília
Resenha - Angra (Ases, Brasília, 04/09/2004)
Por Sílvio Costa
Postado em 04 de setembro de 2004
A impressão inicial era que este seria mais um daqueles shows em que a desorganização assume as rédeas e torna tudo mais complicado para os envolvidos (principalmente para o público). Não fosse pela energia do público, ávido por um bom show de heavy metal (mercadoria raríssima aqui na "capital do rock") e pela competência do Angra e do Khallice, nada mais salvaria aquela noite de sábado. O local "escolhido" (a gente costuma escolher quando tem opções, o que não é o caso) não é dos melhores. Não possui nenhum tipo de tratamento acústico e é pequeno demais. Com o calor devastador que vem fazendo em Brasília nos últimos meses, as conseqüências não poderiam ser diferentes. A organização do evento também não ajudou muito, já que fez questão de forçar os bangers a se espremerem numa portinha de uns 80 cm, além de ter optado por encher o "chiqueirinho" (aquele espaço entre o palco e o público, normalmente destinado aos fotógrafos e profissionais responsáveis pela cobertura do evento) com amigos, parentes, etc.
O Khallice, com a mesma competência de sempre, fez um set curto, porém com músicas muito bem escolhidas. Não há como não se impressionar com a performance dos músicos, em especial a do guitarrista Marcelo Barbosa. O vocalista Alírio Netto foi muito simpático e se comportou como um autêntico frontman, chamando a galera para cantar junto e deixando todos boquiabertos com seus agudos. "Thunderstorm" foi uma das mais aplaudidas da apresentação. Foi muito legal ver a galera cantando junto com a banda a versão intrincada e avassaladora do clássico "A Balada do Louco" dos Mutantes. É engraçado porque o Khallice canta essa música em inglês, mas o público os acompanhava em português mesmo. Energia não faltou também ao baterista César Zolhof e ao competentíssimo baixista Michel Marciano, que levam as quebradeiras e mudanças de andamento que caracterizam o som da banda numa boa. Ainda houve tempo para uma música nova ("Stuck") e para anunciar o lançamento do disco novo para o início de 2005. Em vez do cover do Dream Theater (perdi uma aposta por causa disso...) eles atacaram de Symphony X para encerrar o show.
Depois de um intervalo de mais ou menos 25 minutos, chega ao minúsculo palco do ASES a atração mais aguardada da noite. O início foi meio complicado, em virtude da já citada quantidade de pessoas que se aglomeravam entre o palco e a grade usada para conter o público. Literalmente um monte de gente estava ali, atrapalhando a visão da galera que pagou ingresso, mas não era amigo de ninguém da produção. Desrespeitos à parte, o que importa é o som e, neste quesito, o Angra ainda é insuperável. A galera ia ao delírio cada vez que a banda mostrava algum clássico. As músicas novas, apesar de diminuírem o ritmo e a agitação do público, foram muito eficientes ao vivo. Até a balada semi-acústica "Wishing Well" foi bem recebida (realmente, é uma música lindíssima). Curiosamente, apesar dos clássicos "Never Understand", "Carry On" e "Nothing to Say", o público gritou muito mesmo foi com "Temple of Hate", um petardo que estará presente no disco novo. Também pudera! É uma das músicas mais rápidas da carreira do Angra. "Carolina IV" ainda impressiona pela complexidade e pela presença marcante dos backing vocals de Kiko Loureiro, Rafael Bittencourt e Felipe Andreolli. Infelizmente, eles não tocaram nada do Fireworks, mas o equilíbrio entre faixas novas e antigas garantiu bom divertimento a todos os presentes.
Apesar dos constantes problemas com seu instrumento, Kiko Loureiro não perdeu a concentração em nenhum instante. O bom humor de Rafael (fazendo poses e caretas o tempo todo) e de Felipe Andreolli mostram que a banda está mais que entrosada e que a nova tour tem tudo para ser ainda melhor que a de Rebirth. Prova maior da descontração do grupo aconteceu depois do bis (que contou com apenas uma música: "Nova Era"), quando o tecladista Fábio Laguna foi arremessado sobre o público (e, por pouco, não acontecia o mesmo com o baterista Aquiles Priester). Eu já me acostumei com a voz de Edu Falaschi, embora ele sofra muito para alcançar os agudos exigidos em "Carry On" e "Nothing to Say". Talvez isto explique porque tantas faixas antigas fiquem de fora, como "Angels Cry", "Speed" ou "Wuthering Heights".
Com relação ao set list do Angra, ouvi algumas reclamações durante o show em virtude de a banda ter apresentado muitas músicas novas sem que os presentes as conhecessem. Isto até tem um certo fundamento, já que as coisas ficam meio mornas quando o público não está familiarizado com o material apresentado e, por esse motivo, não participa do show. Entretanto, apresentações ao vivo ainda têm como função principal servir de "propaganda" para discos e, desse modo, a escolha do Angra não poderia ter sido mais adequada. Parece que, apesar de alguns protestos, o repertório novo foi aprovado com louvor pelos presentes. Se quiserem dizer que o público brasiliense serviu de "cobaia" para o Angra "testar" as novas faixas ao vivo, tudo bem. A gente encara isso como privilégio. Afinal, a gente aqui de Brasília (e a galera de Rio Verde, Goiás) viu e ouviu as novas músicas antes mesmo dos europeus e japoneses. E já que a gente aqui os recebeu tão bem, seria ótimo se eles viessem aqui novamente (com o disco já lançado e todos conhecendo as músicas novas) e fizessem um novo show, num lugar menos espremido e com uma acústica melhor.
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