Resenha - Goiânia Noise Festival (Jóquei Clube, Goiânia, 14/11/2003)

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Por Gustavo Ponciano
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On, tiu, ti, for!

41 bandas de 12 estados diferentes e mais uma japonesa em dois palcos. Uma tenda com dj's e suas músicas de vários estilos. Esse foi o staff disponível para os estimados 10 mil espectadores (será?) das três noites da nona edição do Goiânia Noise Festival. Além das bandas eles puderam usufruir dos fliperamas (entre eles o clássico Street Fighter 2), as barracas de camisetas, vinis, bugigangas, bijuterias e de cds de bandas independentes do Brasil e de fora do país também (claro, se tivessem a grana para comprar).

Assistir todas essas bandas, impossível. Primeiro porque era uma maratona correr de um lado para o outro, subir uma escada estreita que nunca viu tanto pé em três dias e que não comportava o fluxo. Esse é um problema a resolver, já que foi anunciado que a edição do ano que vem continua no Jóquei Clube de Goiás (esse mesmo, o dos cavalinhos. Sabe como se chamava o jornal do Jóquei Clube até 1998? O Aristocrata. Santa Tartaruga!). Outro fator que impossibilitava tal façanha era o dos shows quase simultâneos das bandas "menores". Ao menos as bandas-cabeça ficaram fora dessa artimanha; bom para elas e para os espectadores. Esse é um dos motivos que me levam a selecionar somente algumas bandas, que se destacaram dentre as dezenas. O outro, talvez o mais forte, é que acaba que muitas bandas soam repetitivas demais; às vezes o show parece ter uma única música, às vezes os grupos são muito parecidos com aqueles seus discos empoeirados que você já cansou de ouvir. Por isso não vocifere se sua banda preferida ou aquela que está em todas as resenhas de todos os veículos de comunicação não figurar entre as minhas escolhidas. Selecionei aquelas que se destacaram por serem diferentes, de alguma forma, daquela leva gigantesca de bandas que atracou em Goiânia.

A número um do ranking é a japonesa Guitar Wolf. Um som simples, que qualquer músico de fim de semana faz: "punk and lock and loll", como definiu o próprio Seiji, guitarrista e vocalista da banda. Mas a graça do Guitar Wolf está no palco: a performance. Recatados e tímidos ao andarem entre o público, Seiji, Toru (baterista) e Billy (baixista) se transformam na apresentação. É uma verdadeira aula às bandas que querem ter um visual legal no palco. Os caras encarnam os personagens e não escondem de onde vêem. Jaquetas pretas, óculos escuros, cusparadas para o lado, o "on, tiu, ti, for" (o famoso "um, dois, três, quatro" meio alterado pela incompatibilidade fonética do japonês) e equipamentos norte-americanos denunciam logo os Ramones como preferência. Mas não só de riffs ramonescos vive o som dos caras. A sujeira do som garagem, o non-solo e os três acordes do clássico rock and roll completam. Mais a energia dos pulos e das escaladas nas grades de sustentação da iluminação levaram o público ao delírio e às boas risadas. E aqueles que viram toda a loucura de começo de show não sabiam que o grande momento estava por vir: Seiji esticou a mão para o público enquanto todos ao redor tentavam tocá-la. Mas eles não estavam entendendo o que o figura queria. Ele estava convidando um privilegiado a subir ao palco para tocar em seu lugar enquanto fazia sua performance demente no chão. O sujeito não acreditou quando Seiji colocou a guitarra em volta de seu pescoço e entregou a paleta em sua mão. Demorou a acreditar. Tentou devolver a guitarra duas, três vezes, mas o japa não aceitou. Então a empolgação, revelada em seu rosto, tomou conta e ele, que por sorte não sabia tocar nada, tocou. A euforia do rapaz foi tamanha que não se contentou com o instrumento e quis pegar o microfone. Ele até conseguir gritar alguns "Hey, ho, let's go", mas Seiji, ainda caído, tomou logo o microfone do abusado. Dessa o rapaz não esquece tão cedo.

Além de suas canções em inglês e japonês, o Guitar Wolf também tocou a pior versão de Satisfaction, dos Rolling Stones, que eu já ouvi. Mas tudo bem; nada tirou a alegria de ver uns japas figuras tocando rock sujo. E lembrem-se integrantes de bandas: se você se fantasia para subir ao palco, encarne o personagem como fazem os lobos japoneses.

A número dois do ranking é a Los Pirata, de São Paulo. Com um som influenciado por surf music, punk, trilhas sonoras de filmes de bang-bang (Ennio Morricone e Al Caiola) e o clássico rock três acordes, eles chamaram a atenção inicialmente pela formação: uma dupla. Depois, observando melhor, a surpresa se acentuou. Uma guitarra de 12 cordas ligada ao amplificador de baixo e uma bateria de tamanho infantil que fazia um som absurdo e que pasmou os espectadores. Tudo isso somado a um ótimo entrosamento, facilitado pela pequena formação, e uma pegada rápida e pesada valeram a medalha de prata à dupla.

A medalha de bronze dividir-se-á entre duas. Hang the Superstars, de Goiânia, e Astronauta Elvis, de Campo Grande. As estrelas do rock goiano que ainda vão cometer suicídio coletivo conquistaram o público com seu bom humor, suas backing vocals e a pegada suja. Sim, eles têm um público cativo que sempre pula. O melhor show nativo do festival. Já os sulmatogrossenses do Astronauta Elvis começaram com um show morno, sem graça, tocando aquelas punks-felizinhas que viraram mania nos anos 90. Mas depois de três canções o show mudou de feição, ganhou a energia garageira dos anos 60 quem me fez bater cabeça.

"Mas e Ratos de Porão, Mukeka di Rato e Mundo Livre S/A? Cadê, não vai falar deles não?" Ah, que nada! Vocês já conhecem, todos já ouviram, sabem que são boas bandas, das melhores do país. Vamos a busca de boas coisas novas. Até que não foi difícil encontrar não! Só espero que essa nova tosse e essa dor na garganta que ganhei na noite de domingo não sejam decorrentes dos vírus de uma gripe asiática carregada naquela lata de cerveja que Seiji bebeu de um gole no palco e que, depois de vazia, foi bater no meu peito antes de cair ao chão.

O Samba não é de Ninguém

A mais inusitada cena do Goiânia Noise: uma mistura de metaleiro e mendigo, conhecido em Goiânia, que ganha a vida catando latas de alumínio por onde pode, vive com o rosto pintado de preto, não perde a oportunidade de recitar seus versos satânicos quando lhe é cedido o microfone e que tem uma tatuagem tosca no braço esquerdo (de uma caveira e uma faca subscritas pelo dizer "death metal") compareceu na sexta-feira ao Jóquei Clube de Goiás. Nada demais até aí - esse foi o dia mais lotado, em que você encontrava quem queria e quem não queria. Só não esperava encontrá-lo no show do Mundo Livre S/A crivando um fino, e sambando, de verdade, ao som da excepcional "O Mistério do Samba". A letra de Fred 04, mais apropriada impossível:

O samba não é carioca
O samba não é baiano
O samba não é do terreiro
O samba não é africano
O samba não é da colina
O samba não é do salão
O samba não é da avenida
O samba não é carnaval
O samba não é da tv
O samba não é do quintal
Como reza toda tradição
É tudo uma grande invenção

O samba não é emergente
O samba não é da escola
O samba não é fantasia
O samba não é racional
O samba não é da cerveja
O samba não é da mulata
O samba não é playboy
O samba não é liberal
Como reza toda tradição
É tudo uma grande invenção

Não tem mistério
Não é do bicheiro
Não é do malandro
Não é canarinho
Não é verde e rosa
Não é aquarela
Não é bossa nova
Não é silicone
Não é malhação
O samba não é do Gugu
O samba não é Faustão
Não é do Gugu
Não é do Faustão
Sem mistério

Quem diria que a cena mais singular do "maior festival de rock independente do país" seria protagonizada pelo death metal casado com o samba? Saravá!

Sexta 07 de Novembro

Mundo Livre S/A
Los Pirata
Wado
Vamoz!
Mechanics
Valentina
Relespública
E.S.S
Prot(o)
Barfly
Violins
Sapatos Bicolores
The Zeroes
Panis Circensis

Sábado 08

Ratos de Porão
Astronautas
Mukeka di Rato
Objeto Amarelo
Hang the Superstars
Resistentes
Detetives
Astronauta Elvis
Borderlinerz
Desastre
NEM
Terror Revolucionário
Pugna Puf
Náusea HC

Domingo 09

Guitar Wolf
Matanza
Autoramas
Retrofoguetes
MQN
Trissônicos
Walverdes
Space Invaders
Estrume'n'tal
HC 137
Brasa Mora Allstars (Marcelo Rocker + Mid West + Shakeman)
Capotones
Flores Indecentes


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