Resenha - Engenheiros do Hawaii (Olimpo, Rio de Janeiro, 18/01/2003)
Por Anderson Nascimento
Postado em 18 de janeiro de 2003
Se algum desavisado que curtiu o auge dos Engenheiros do Hawaii, no fim da década de 80, aportasse na casa de Shows Olimpo, no dia 18 de janeiro de 2003, certamente não saberia o que estava acontecendo: "O que milhares de jovens estão fazendo aqui, cantando Infinita Highway?", "Esse sujeito com cara de homem das cavernas é mesmo o Humberto Gessinger?", "Que banda é essa acompanhando Humberto Gessinger?", "Que músicas são essas que os fãs estão cantando as letras do começo ao fim?". Bom, certamente essas seriam algumas das "FAQ" mais populares.
No meio de tanta adrenalina, tentei decifrar os segredos da esfinge e, ao mesmo tempo, curtir o inspirado show dos Engenheiros. O público do show era extremamente jovem, o que revela uma renovação do público dos Engenheiros, que não se estagnou na tríplice "O Papa é Pop", "Várias Variáveis", "GLM", de lá pra cá muita coisa aconteceu, várias mudanças na formação da banda, no estilo de música, álbuns de muito sucesso, outros nem tanto, hits radiofônicos, e lá se vão 13 discos e uma carreira que já se estende desde meados da década de 80. E é incrível como o público canta todas as letras da primeira à última música, e não é só os sucessos, as músicas do último álbum parecem já possuírem anos de "carreira", frente ao entusiasmo com que o público canta. Talvez o fator surpresa seja um ponto crucial para essa adoração à Humberto Gessinger. Começando pelo seu visual, uma verdadeira "metamorfose ambulante" de combinação no trinômio barba, cabelo e bigode, às vezes ele está "rastafari", às vezes ele está "homem das cavernas", às vezes ele está "ermitão", às vezes ele está "Dunga (capitão do tetra)", às vezes ele está... bom, já chega, né? Passando pela sua alternância nos instrumentos que ele toca; começou na guitarra, passou pelo baixo, piano, teclados, violões, guitarra novamente e, agora, uma surpreendente performance de violão e gaita à la Bob Dylan. O repertório de seus shows nos brinda com revisões de músicas dos seus treze álbuns, de "Longe Demais das Capitais" a "Surfando Karmas e DNA". E olha o fator surpresa de novo: "Caramba, tu viu?, Humberto mandou Nau a deriva!", "E aquela inédita, será que vai estar no próximo álbum?". Incursões de músicas dentro de músicas, músicas ora pesadas tornaram-se baladas, e vice-versa. Talvez esses sejam alguns dos segredos de Humberto Gessinger, escolhido por muitos críticos como o Messias do Rock nacional. Aliás na época do Rock In Rio 3, andei lendo muito isso nos artigos sobre a banda, e talvez por isso já esteja virando clichê falar do dom messiânico de Gessinger. Os críticos tentam o tempo todo entender a reação contrária do público dos Engenheiros ao que eles escrevem em resenhas de discos. Afinal de contas como podem os Engenheiros ser a banda nacional que mais levou fãs ao Rock In Rio 3? Como podem os Engenheiros fecharem, apoteoticamente (parafraseando Alexandre Petillo) o Festival "Pop Rock Brasil - Amigos da Água" em Minas Gerais? Como pode? Na semana que antecedeu o show no Olimpo, só se falava do evento por aqui no Rio.
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Bom, Humberto abriu o show com "3º do Plural", muito tocada nas rádios rock daqui do Rio de Janeiro, "Toda forma de Poder", "Eu que não amo você", maior sucesso recente, seguiu sendo cantada em coro por todos, e por aí o show rolou com as músicas do disco novo (todas já decoradas pelos fãs), releitura de sucessos como uma versão rockeira da balada "Parabólica", incursões de músicas dentro de músicas, causando o efeito "música incidental" como em "Segurança". Mas a grande surpresa foi mesmo um mini set acústico com Gessinger encarnando Bob Dylan, violão, gaita e voz, com uma linda versão de "Números". A banda está muito segura e entrosada, cada um deles teve seus momentos, um longo solo de baixo com Bernardo Fonseca, solos de guitarra de Paulinho Galvão (principalmente em "Eu que não amo você"), solos de batera surpreendentes e ensurdecedores de Gláucio Ayala. O baterista aliás mandou ver nos vocais em muitos momentos fazendo voz solo e de apoio, foi muito aplaudido pelo público. Falando em performance, Humberto arrebentou na guitarra, fazendo inclusive solo em algumas músicas e tocando muito bem uma guitarra de doze cordas. Detalhe: ele não pegou no baixo.
Para encerrar Humberto fez dois bis, surpreendendo a todos com o resgate de "Nau à Deriva" e tocando "Surfando Karmas & DNA", que já nasceu clássico. Antes mesmo do lançamento do último disco, ela já era tocada nos shows. Bom foi ver o pessoal saindo com sorriso de orelha a orelha, após duas horas, satisfeitos com mais um show dos Engenheiros do Hawaii. Melhor ainda foi sair com a palheta do Humberto Gessinger no bolso. Fazer o que? Sorte é sorte.
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