Resenha - Vernon Reid (Mercury Lounge, Manhattan, 26/06/2000)

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Por Márcio Ribeiro
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Saltando do metrô em Greenwich Village e seguindo sul, você passa o Washington Square, famosa com seu mini Arco do Triunfo (quem já viu o desenho Fritz the Cat de Robert Crumb conhece), depois você passa a famosa Bleecker Street (que desemboca no CBGB's) para bem depois, cair na West Hudson, rua que divide os bairros do Village com o Soho. Agora segue em direção leste toda vida. A West Hudson vira East Hudson em determinado ponto o que significa que você não está longe. Quando você chegar na altura da A Avenue, já dentro do Lower East, na esquina com a Essex você encontra o Mercury Lounge. É neste "esconderijo" que eu achei uma das casas de melhor son da ilha de Manhattan.

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A casa consiste em um corredor estreito com pouca luz que tem o bar a sua esquerda e uma porta ao fundo. Depois da porta, uma saleta pouco mais que 9x12m's onde não cabem mais de 150 pessoas se isso. O palco é grande para a casa, 9x3 e o som é muito bom. Justamente por causa do seu palco e som é que atrações de maoir expressão se apresentam em um local da pequeno. E é aqui onde tive o prazer de assistir Vernon Reid a menos de dois metros de mim.

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Mas antes, preciso lhe falar da banda que abriu para ele. Assistir The Sound of Urchin, um quarteto explosivo foi uma experiência única e devastadora. Esses quatro sujeitos, todos de macacões pretos, perfilaram com uma arrumação de palco que eu nunca vi antes. Primeiro vem o baterista, na frente, com o baixista do seu lado, um pouco atrás. Depois vem os dois guitarristas, cada um com um microfone em cada ponta do palco.

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Tomato, um loiro oxigenado, bem calvo, deve ter uns 40 anos ou mais de idade. É ele que conversa com o público e com a banda. Sentada na sua batera com uma voz ora suave como de um bom menino ora agressivo com qualquer adulto irado, ele canta em pseudo-rap, contando historias sobre o cotidiano com uma tranqüilidade que faz você respeita-lo como entertainer. No baixo um rapaz calado que segue pelo curioso nome Doo Doo Brown, que basicamente significa Coco Marrom. Ele toca olhando quase que o tempo todo pro batera mas é perfeito no seu papel de manter os graves audíveis e dando chão pra galera pirar. O guitarrista ao lado dele, Sam, faz vários dos backings como também os ritmos mais cortantes com sua guitarra. No outro extremo do palco tem o Bill, um sujeito grande, um tanto balofo, com um quepezinho virado pra trás que lembra Ash, aquele treinador de Pokemons (se você tem criança pequena em casa, você sabe quem é). O cara com um sorriso de criança levada, faz todos os solos e sacode a cabeça, como um autêntico headbanger, deixando ver a imensa cabeleira ouriçada, escondida debaixo do quepe. Depois na maior cara de pau, coloca o quepe de volta na cabeça, como se nada tivesse acontecido, até a próxima música quando tudo voa novamente. Todos, fora Tomato, na faixa de vinte muitos para trinta e poucos de idade.

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O som é muito alto. Deixa eu expressar isso melhor, eu disse o som dos caras é MUITO ALTO! E são muito gaiatos também! Muito engraçados mesmo. Imagina um cruzamento de Red Hot Chili Peppers com Spinal Tap. Eles são tão bons e tão seguros que eles se dão ao luxo de tirar um sarro deles mesmos. Tocaram por cerca de 40 minutos, todo material próprio. Não levou mais que a primeira música para respeitar o Tomato e o Bill, decididamente os dois de maior carisma e domínio das atenções. Bill sola com a muita eficiência enquanto faz caricaturas dos trejeitos que alguns guitarristas fazem quando solam. Tomato na batera destroi. Também, a meio metro da primeira fila da platéia, a melhor palavra seria ensurdece. Em alguns momentos ele levanta jogando o tripé do microfone como também deu banco no chão e toca em pé, golpeando sua batera em frenesi selvagem mas ao mesmo tempo engraçado porque você sabe que é puro gaiatices. Brincadeira ou não, o som é bom. Os som dos caras é MUITO BOM e MUITO, MUITO ALTO!

Depois do show conversei com Bill, um sujeito bastante acessível comentando sobre a proposta humorística da banda na qual ele confirmou o óbvio, de que na sua opinião, tem mesmo que se ter mais humor no rock e de que há muita seriedade como também muita prepotência entre certas bandas e que eles gostam de fugir disso.

Em menos de dez minutos depois que The Sound of Urchin sai do palco, já está Vernon Reid e sua banda. Não foi possível para eu pegar o nome dos músicos que o acompanharam mas posso lhe falar do que eu ouvi. Primeiro a banda é um trio, guitarra, baixo e bateria mais um cantor. Todos bem mais novos que o Vernon, diga-se de passagem. O som infelizmente estava bem mais baixo do que The Sound of Urchin e o contraste funcionou negativamente. Depois da terceira ou quarta música, Vernon resolveu aumentar o volume da sua guitarra o que forçou o baixista, o único branco da turma, a fazer o mesmo e o baterista a tocar um pouco mais alto.

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Vernon, com seus dreadlocks que passam de sua cintura, inclina pra frente a cabeça, deixando-os encostarem sobre as cordas do braço de sua guitarra Hamer enquanto ele sola. E que solos! O homem é fenomenal. Ali na sua frente, com seus dedos longos e finos, a velocidade de um raio, ele destrincha solos difíceis de acompanhar a olho nu. Em alguns momentos, pasme, ele vira os olhos para dentro, como quem acaba de entrar em transe em meio a um solo estupendo. Não sei o que foi que ele tomou antes do show mas durante o show, certamente fez efeito.

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As músicas tocadas foram em ordem On The Other Hand, Afflicted, Karma Police, Fearless Misery, Memories Can't Wait, One Of These Days, Lost Halo, Type, Bright Shiney Things e Behind the Glass. Para o bis, usando outra guitarra Hamer, apresentam Electric Relaxation e Love Raises It's Ugly Head.

Como você já pode perceber, o set é bem calcado no material dele com o Living Colour, mas a banda é infinitamente inferior. Todos os arranjos são diferentes da proposta do LC puxando mais para uma releitura jazzista do que o rock na linha que fez sua ex-banda famosa. O cantor, que não deve ter mais de 21 anos é bom; depois de Vernon, o mais interessante da troupe. O baterista é eficiente e o baixista idem. Mas essa cozinha não empolga e as releituras jazzisticas sem uma maior agressividade somadas ao volume não tão alto, contribuíram para um certo clima de decepção na primeira parte do show.

O cantor fez bem o seu papel de entreter botando boa parte do público, predominantemente negro, a rebolar para o seu groove. Ensaia umas danças e tudo fica festa, mas é na segunda metade do show, que a coisa pega realmente um pique mais roqueiro. Mas são os solos do Vernon que fazem TODA a diferença. O cara é mesmo MUITO BOM. Ele está em outro nível, não só pela velocidade, mas por tê-la acoplado a um bom gosto.

Um bom show depois de pesar os pros e contras. A quase duas horas da manhã com um tremendo calor de pleno verão, a cidade fervilha. Só sobrou mesmo tomar um pito de um guarda por estar bebendo cerveja na rua. Segundo a nova lei, é terminantemente proibido ingerir qualquer bebida alcoólica não importando em que invólucro ele esteja. É o céu e o inferno onde se tem de tudo mas tudo é proibido.

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Sobre Márcio Ribeiro

Nascido no ano do rato. Era o inicio dos anos sessenta e quem tirou jovens como ele do eixo samba e bossa nova foi Roberto Carlos. O nosso Elvis levou o rock nacional à televisão abrindo as portas para um estilo musical estrangeiro em um país ufanista, prepotente e que acabaria tomado por um golpe militar. Com oito anos, já era maluco por Monkees, Beatles, Archies e temas de desenhos animados em geral. Hoje evita açúcar no seu rock embora clássicos sempre sejam clássicos.

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