Angra: A arte de criar "Talentos"
Por Agmar Raimundo
Fonte: O Esboço do Calabouço
Postado em 18 de junho de 2018
O interessante da tecnologia de ouvir músicas em aplicativos de streaming é que podemos ponderar como está o progresso dos lançamentos dos álbuns dos artistas. Por exemplo, se tomarmos como padrão o último álbum da banda brasileira Angra – "Omni" – que foi lançado em fevereiro deste ano em comparação ao seu último – "Secret Garden" – de 2014, através dos números de um desses aplicativos mais utilizados, esse último teria sido ouvido por volta de 7 milhões de vezes, enquanto que aquele estaria na faixa de 3 milhões e 300 mil. Sendo assim, se a conta fosse essa, mesmo não calculando o restante de meses que ainda faltam para terminar o ano a superioridade do novo álbum seria gigantesca – mais que o dobro nesse mesmo tempo.
Claro, a música não é medida dessa maneira, pelo menos não o Metal. O caso é que o Angra conseguiu conceber, gerar, germinar uma espécie de experiência científica em termos de concepção musical juntando eixos adversos e heterogêneos impensáveis naquilo que o headbanger mais tradicional está acostumado em seu habitat, à sua zona de conforto. Não é novidade para nós brasileiros a mistura de ritmos das bandas brasileiras de Metal com os vários estilos distribuídos pelas regiões do país. Naquilo que concerne a uma cultura de raiz, nativa, de origem e de tradicionalidade geralmente é sempre bem-vindo, mas quando a coisa é feita sem esmero e/ou visando o oportunismo e a moda do momento, aí os fãs normalmente torcem o nariz.
Por que falar desse último disco do Angra? Vejam bem, não me aterei a comentar especificamente as faixas como é feito usualmente, sou leitor do site e já li diversas resenhas sobre o trabalho, portanto comentar o "mais do mesmo" seria uma perda de tempo e um verdadeiro desserviço. O disco, na minha opinião, é o melhor nesses últimos 15 anos. Atentar-me-ei ao status quo adquirido pela banda tupiniquim nesse tempo; à sua capacidade de projetar ótimos músicos – apesar de isso não ser uma coisa tão boa, uma vez que a maioria dos bons acabarem deixando a banda, por uma causa justa, é evidente. Podemos relacionar André Matos, Edu Falaschi, Kiko Loureiro, Aquiles Priester. Obviamente que a essas saídas sempre se juntam outros músicos tão ou mais competentes que os outros, prova disso está estampada na figura do grande vocalista italiano, Fabio Lione, outrora tido como incógnita por muitos, mas que prova nesse novo registro ter deixado sua própria marca, uma identidade única, sem amarras com vocalistas passados e vinculações aos seus trabalhos em outras bandas. Não deixo de mencionar que o restante do grupo são músicos de infinito destaque em suas áreas, provando ser uma potência mundial no Power/Progressive Metal.
Essa lapidação de bons músicos e ótimos álbuns contribuiu para as importantes participações que se deram nos dois últimos projetos. Em "Secret Garden" houve a participação de Simone Simons do Epica e a Rainha do Metal – Doro Pesch – grandes participações valem ressaltar. Mas são as participações desse novo trabalho que me chamaram mais atenção; o híbrido desses encontros fora no mínimo "descarados" para muitos. Imaginar um italiano cantando em inglês, uma canadense com vocal gutural e uma ex-cantora de sertanejo mirim cantando Heavy Metal também em inglês, quem nesse mundo processaria tal realização? Sandy e Alissa White-Gluz, Arch Enemy, fazendo o estilo "Beauty and the Beast", apesar de ambas serem belas, foi um casamento bem interessante.
Também há que se registrar a participação de Kiko Loureiro [do Megadeth] como isso soa estranho, mas é o que é, ele faz parte de uma das maiores bandas de todos os tempos. Talvez o fato d’ele estar numa banda de Thrash Metal possa ter ampliado o horizonte musical da banda; quem sabe o próprio não tenha cogitado tal arranjo? Pura especulação, não há o porquê considerar esta última permissiva. Bem, agregar a participação de um ex-integrante de tamanha importância é de fato uma grande vitória, e o Angra é uma banda vitoriosa, pois fazer Metal no país do carnaval não é fácil; ser headbanger no país do samba é muito complicado.
Enquanto os shows dos artistas populares se escorrem diariamente aos milhões a preço de banana, nós, ávidos consumidores fanáticos, esperamos raríssimas oportunidades das bandas gringas virem para cá em grandes festivais para conseguir assisti-las por preços mais razoáveis, pois, quando veem em turnês temos que escolher em quais shows iremos, uma vez que os ingressos ultrapassam as cifras dos três dígitos, por vezes até dos quatro dígitos.
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