Cover versus Autoral: uma escolha necessária
Por Júlio Verdi
Fonte: Rock Opinion
Postado em 30 de setembro de 2014
Uma discussão que sempre rodeia consumidores de rock e músicos que o produzem é relacionada ao perfil de repertório que as bandas devem apresentar em seus shows. Muitas bandas se recusam a fazer covers por pensar que não existe nada mais importante do que mostrar seu trabalho autoral. Outras apenas reproduzem músicas de outras bandas, não se importando muito com composições próprias. Este tipo de divergência existe desde que o rock nasceu. Grupos seminais como Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin, Deep Purple tocavam covers quando davam seus primeiros passos no mundo da música. Através das gerações, bandas iniciaram mostrando-se para o público as melodias de músicas de artistas invariavelmente já consagrados. No Brasil e em Rio Preto, onde a cena do rock puro (esqueçamos o pop-rock) vive às margens da mídia e das grandes produções artísticas, seja no mercado de shows e fonográfico, essas opções se tornam uma escolha necessária quando o objetivo é sobreviver da música.
Não existe um lado correto, ou um lado menos respeitável ou ideologicamente louvável. O músico em geral adoraria tocar 15 músicas próprias de sua banda durante uma apresentação, mas isso depende para que tipo de público ele está se apresentando. Bares-rock, onde o perfil do consumidor geralmente é daquele fã de hits de rock, que talvez mal conheça uma segunda ou terceira música de uma grande banda, está consumindo, pagando e gastando para ouvir as músicas (hits) que gosta. O proprietário do local vai mantê-lo funcionando com a constância desse tipo de público e vai continuar querendo que o artista que ali se apresente execute os temas que sua clientela espera. Este artista, para ter espaço e continuar a receber pelo seu trabalho de ensaiar, se estruturar e executar a música ao vivo, tem que levar os tão desejados covers para este tipo de fã.
É claro que, muito consumidores de rock também tem aquele lado cult de querer conhecer as músicas próprias da banda, conhecer suas letras, suas passagens melódicas, seus arranjos, suas performances. Para este tipo de fã, os grandes hits das grandes bandas do mundo são consumidos em casa, em seu carro, em seu celular. Esse tipo de repertório é visto com mais frequência em festivais de bandas, onde quando não existe exclusividade no set autoral, existe uma mescla com covers. Isso é bem comum. Quando ouvimos pela primeira vez um disco de músicas inéditas de uma veterana banda, elas não soam accessíveis ou familiares de imediato. E estamos falando de nossas bandas favoritas, experientes, com 20, 30 ou 40 anos de carreira, com 15 discos lançados, e falando de música (bem) produzida e mixada, normalmente exalando o mais perfeito nível sonoro. Imagine a reação ao ouvir uma pela primeira vez, música própria, de uma banda underground e ao vivo.
Outro detalhe a se considerar é que, mesmo para uma banda que privilegia a execução de covers, existe a dificuldade de estar entrosada e pronta, com muito trabalho em ensaio, para que a reprodução seja tão perfeita, ou no mínimo parecida, com a original. E, que os músicos que executam esses covers também têm o prazer de tocá-los ao vivo. Afinal, eles são tão fãs de rock quanto os mais diversos perfis de fãs que vão vê-los tocar ao vivo. De certa forma, paira sobre as pessoas que gostam de rock a reflexão acerca da carreira de uma banda. Tocar covers em bares seria definir que a carreira de uma banda se resume a esse circuito? A falta de um disco de músicas autorais para divulgação em âmbito nacional representa um processo de estagnação no crescimento musical e profissional de um artista (banda)? Um modelo híbrido de tratar o repertório de uma banda, agradando todo tipo de público, é a saída para se pensar num futuro na cena? O interesse popular por um ou por outro tipo de repertório muda de geração para geração?
As respostas para essas perguntas talvez repousem com nosso bom e velho amigo tempo. O sucesso ou encerramento de uma banda pode nos ajudar a pensar nessas respostas, afinal, num momento em que o mundo não quer pagar mais para ouvir música, que futuro pode ter um artista autoral fora do circuito underground?
* Trecho extraído do livro "A HISTÓRIA DO ROCK DE RIO PRETO", 856 páginas, de Júlio Verdi, lançado em 2013. Mais informações em:
http://historia-rock-rp.blogspot.com/
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