Por um circuito mais criativo: Banda cover é o Caralho!
Por Douglas Araújo
Postado em 15 de julho de 2012
Agora sim, pronto para dizer, como é que chegamos aqui? Preparando, elaborando, pensando o que fazer... Tipo "programação de férias". Antes das férias, quando pensa no que fazer, imaginando um lugar para onde gostaria de ir, então, nessas, penso: "O que gostaria de fazer nessas férias? Para onde gostaria de ir?". "Gostaria de ir para uma cidade em que houvesse um circuito de shows de rock ‘n roll autoral. Bandas novas, ‘das antigas’, independentes, com gravadoras ou sem, ou seja, um circuito de shows de rock ‘n’ roll, pulsante, que prestigie seus artistas, suas músicas, suas bandas, que possibilite às bandas mostrarem seu trabalho e ao público conhecer suas músicas.
Nos últimos anos, uma crescente onda de shows com bandas de rock cover assola São Paulo afora, ao passo em que excelentes bandas de rock autorais surgem, sem espaço para tocar. Sim, entendemos que deve haver espaço para todos que se interessem por música, seja inovadora ou "cópia descarada", sendo criativa ou mesmo copiada.
É comum a situação em que músicos se inspiram em artistas que são sua referência. No rock ‘n’ roll, também é comum bandas iniciantes se apresentarem com músicas de outros grupos, enquanto compõe seu próprio repertório e se desenvolvem como artistas, encontrando seu caminho e construindo uma carreira musical autêntica. No entanto, outra situação é a de grupos que se dedicam exclusivamente a uma carreira de imitação literal de grupos famosos, são as chamadas bandas covers. Atualmente, há uma supervalorização dessas bandas e uma insistente desvalorização das bandas autorais, resultando no empobrecimento do cenário musical roqueiro atual.
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Imagine se as principais bandas de rock, na sua época, em seu tempo, resolvessem, simplesmente, "ganhar uns trocados" tocando uma banda cover; não existiria, hoje, nenhuma das importantes bandas de rock ‘n’ roll. É uma linha de raciocínio simples, nenhum pouco difícil de acompanhar, visualizar – e mudar. Ainda mais no Rock ‘n’ roll: signo da contracultura, do choque, da ruptura – que faz com que rolem as pedras.
Casas de shows, dedicadas ao rock, quando privilegiam uma "programação cover", muitas vezes, afirmam que "é o que ‘dá público’", vêem no público tal responsabilidade, pois este "não comparece aos shows de bandas autorais". O público, por sua vez, quando não paga 10 reais para ver um festival com 10 bandas autorais, por exemplo, e paga 20 reais para ver uma banda cover qualquer, muitas vezes, afirma que não vai aos shows com bandas autorais, por "não conhecer essas bandas...".
Ora, como conhecer sem ouvir suas músicas, sem comparecer aos shows? Ou se essas bandas, muitas vezes, não encontram espaço para se apresentarem? Mais uma vez, uma linha de raciocínio simples, fácil de seguir e visualizar: um circuito que se retro alimenta. Mas é uma questão cultural, e de formação também. Vamos conhecer o que está além do estabelecido, bandas autorais "desconhecidas" espalhadas por aí.
Nada contra quem faz cover, mas tudo contra esse circuito viciado e saturado, que impossibilita importantes bandas do cenário rock ‘n’ roll de serem mais valorizadas e levadas ao conhecimento do público. Seria muito mais interessante mudar essa lógica, que sufoca as bandas e sua cena, tornando-a repetitiva, monótona e desinteressante. Afinal, nossa intenção é, precisamente, inverter essa lógica e transformar esse circuito.
Assim sendo, pensamos nesse festival, como forma de manifesto, realmente, nada radical, mas incisivo, preciso e com nome que vai direto ao ponto, sem delongas: "BANDA COVER é o CARALHO!"
E que não se entenda, em momento algum (pois seria comum em nossa cultura), como "ofensa pessoal", mas, precisamente, como postura, como manifesto cultural musical.
Precisamos alterar esse circuito, privilegiando bandas autorais, por uma questão de preferência e inteligência; ou, não veremos mais grandes bandas despontando no cenário roqueiro nacional; ou, logo, só restará uma geração cover e sem-história.
E que essa programação se estenda para além da "programação de férias".
Este Manifesto se faz por um circuito de shows mais criativo e inspirado...
BANDA COVER É O CARALHO!
Douglas Araújo (Produtor Cultural)
Valinhos, julho de 2012.
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