Emílio Surita: "O rock está morto e enterrado"
Por Nacho Belgrande
Fonte: LoCaos
Postado em 15 de dezembro de 2010
No dia 10 de dezembro de 2010, o programa PÂNICO, em sua veiculação radiofônica, recebeu os músicos representantes do segmento sertanejo João Bosco e Vinícius (nota: a você que não acompanha outros movimentos além do rock e o metal, NÃO se trata de um caso de reencarnação de Vinícius de Moraes para reatar a parceria com um de seus mais célebres parceiros, João Bosco).
A razão pela qual o LoCaos menciona representantes de um tipo de música que não é público-alvo do próprio programa e deste site reside no fato de, durante a entrevista, o decano do entretenimento radiofônico e televisivo brasileiros EMÍLIO SURITA – um profissional com vasto conhecimento musical e veterano de três décadas na mídia musical eletrônica – ter, baseado em argumentos um tanto quanto questionáveis, escrutinizado um nicho de público que ele mesmo conhece muito bem: os (verdadeiros) fãs de rock.
Em meio ao debate com seus convidados, o Sr. Surita, em seu papel de anfitrião principal e mediador do programa, proferiu ao microfone: "Agora esses velhos de rock, velhos de rock, aparece, por exemplo, essa banda Restart, que é uma bandinha bacana, que faz um rock legal, NX Zero, eles falam ‘Não, isso não é rock! Legal é os [sic] LED ZEPPELIN! Uns puta véio [sic], entendeu?! Legal é o RAMONES!’ Então, por isso que o rock já morreu. Por isso que o rock morreu. O rock é um negócio morto e enterrado embaixo de sete palmos, os caras de camisa preta e falando ‘Viva o rock n’ roll! ’".
Tal declaração surgiu em meio a uma - até então racional e produtiva - discussão do apresentador com seus convidados sobre a força da continuidade dos movimentos musicais no viciado, manipulado e mafioso cenário da INDÚSTRIA musical brasileira. O programa também contava com a presença do comediante Evandro Santo, que mencionou ‘em passant’ o nome ‘TITÂS’ como exemplo do que seu comandante considera ‘velhos de rock’.
O programa LoCaos utiliza esses espaço para manifestar seu respeito ao ponto de vista de qualquer ser humano, uma vez que o que nós mais acreditamos – o rock – só é genuíno quando galgado na liberdade, seja ela de comportamento, ideias ou expressão - o que não quer dizer que concordemos, endossemos ou nos calemos diante de tão infeliz colocação. Muito pelo contrário.
O Sr. Surita, tendo nascido em 1961, com certeza foi testemunha da força e importância que bandas como as que ele cita – vamos nos ater então ao LED ZEPPELIN e o RAMONES – tiveram e têm no mundo da música. Mesmo que sua intimidade com a obra dessas duas instituições não fosse um resultado natural da época em que ele viveu sua adolescência, ele as teria conhecido muito bem enquanto ajudou a instaurar a figura de vídeo-jockey em nosso país.
A apreciação por bandas do naipe do LED ZEPPELIN e do RAMONES não é restrita às alas semi-geriátricas dos fãs de música (dizemos ‘música’ e não ‘rock’ porque achamos que essas duas agremiações artísticas transcenderam seus gêneros iniciais e mudaram a face da música como um todo), e tem grande incidência em jovens nascidos muito tempo depois do Sr. Surita já ter comprado seu primeiro disco (nos perguntamos: qual teria sido?). Uma prova disso é a idade dos colaboradores do próprio Whiplash.Net: mais da metade dos redatores do site nasceu quando o Sr. Surita já apresentava clipes na Rede Bandeirantes de Televisão. Curiosidade: foi o próprio Sr. Surita quem apresentou o GUNS N’ ROSES ao grande público brasileiro, quando em 1988, serviu de narrador ‘off-tube’ para o Video Music Awards daquele ano (a MTV só se instalou no Brasil em 1990). Naquela data, a banda de W. AXL ROSE se consagrava como a grande revelação do ano e tocou ‘Welcome to the Jungle’ com sua formação clássica.
Alguém que concorde com o Sr. Surita, pode dizer que não houve renovação no rock desde 1988? E que só os fãs angariados pelas supracitadas bandas em suas épocas áureas continuaram consumindo suas obras? E que outras bandas tão bem-sucedidas não foram influenciadas pelos nomes que aqui discutimos?
Alguns exemplos de nomes do Rock/Rock Pesado/Metal que forjaram seu nome na última década: BLACK LABEL SOCIETY, BUCKCHERRY, THE DARKNESS, SOULFLY, MASTODON, LAMB OF GOD, KORN, SLIPKNOT, JOB FOR A COWBOY, todos estourando ou sendo formados a partir de 1998. O Sr. Surita realmente acredita que o Restart, e não esses panteões, simbolize ‘renovação’ do rock (se é que tal grupo pode ser chamado de rock)?
Ainda assim, por convenções que respeitamos, essas bandas ainda servem como abertura para grandes medalhões que ainda se apresentam para estádios lotados ao redor do mundo, como OZZY OSBOURNE, IRON MAIDEN, MOTORHEAD, METALLICA, AEROSMITH e SLAYER – todos símbolos da longevidade do rock, contrastando brutalmente com a efemeridade da esmagadora maioria das duplas sertanejas de shopping center que são marteladas esfíncter acima da população menos esclarecida.
O rock, Sr. Surita, é como um dínamo que não para pra pegar fôlego. Vai levando o que estiver na frente e seus obstáculos têm duas opções: ou juntar-se a ele e acrescentar massa e força, ou serem esmagados por sua trajetória. A renovação do rock é descendente do original - não um parasita de carcaças putrefatas.
O Sr. realmente acha que ainda falaremos de Restart, NX Zero e João Bosco & Vinícius em 2030?
Em tempo: mesmo a porção ‘morta e enterrada’ do rock ainda é mais inspiradora e relevante do que se possa imaginar; a mansão/santuário de Graceland, nos EUA, onde repousa o corpo de ELVIS PRESLEY atrai mais visitantes num ano do que o Restart venderá de discos em toda sua carreira.
Sem mais,
Programa LoCaos
Twitter dos apresentadores:
@edurox
@bentomello
@danibuarque
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