Lisboa recebe Rock in Rio esquizofrênico
Fonte: UOL Música
Postado em 28 de maio de 2004
LÚCIO RIBEIRO
colunista da Folha de S.Paulo
A começar pelo nome engraçado, de um festival de rock que é "in" Rio, mas acontece em Lisboa, o Rock in Rio-Lisboa se mostra gigante, megaestrelado, mas ainda assim é difícil entender a quem ele possa interessar, seja no Rio, em Lisboa, no Brasil, em Portugal, na Europa. A questão é de identidade, não só geográfica.
O evento de seis dias e dois finais de semana que começa hoje põe tempero brasileiro no continente dos festivais. Mas esse tempero rende um caldo ralo, resultado de um elenco esquizofrênico, que aponta para lugar nenhum.
É um megafestival que migra de um país continental carente de megafestivais para um continente inflacionado de eventos musicais de tal porte. Para os brasileiros, o Rock in Rio Lisboa e suas mais de 80 atrações não vão render mais do que um programa de melhores momentos na Globo. Para os lisboetas, em particular, é o festival de mais de 80 atrações e 90 horas de duração que vale por levar à cidade o músico Paul McCartney. Essa é a primeira vez que o ex-beatle se apresenta ao vivo em Portugal, em 40 anos de carreira.
Mas, no meio do "padrão europeu" de festivais de verão, o Rock in Rio Lisboa pousa como um ET. Talvez até essa seja a intenção do evento, mas o RRL não prima por juntar uma platéia de gosto coerente. Headliners como Peter Gabriel e Sting, que não lançam discos significativos há anos, dificilmente serão chamados para algum outro festival neste ano.
É missão quase impossível prender, por três shows que seja, uma pessoa de gosto musical qualquer diante do palco principal no domingo. O bluesman português Rui Veloso abre os trabalhos e antecede o veterano brasileiro Gilberto Gil. O ministro sai para o palco ser varrido pelo hard rock setentista dos moleques australianos do Jet. Em seguida, entra o som "maduro" e mainstream de Ben Harper. Depois Peter Gabriel assume seu posto de grande atração do dia. E não deve acordar os que dormiram depois do Jet.
A idéia do festival em congraçar artistas portugueses com brasileiros e latinos gerou uma escalação estapafúrdia, que para quem acompanha música é um verdadeiro "samba do luso-brasileiro doido". Alejandro Sànz, Nuno Norte, Ivete Sangalo, Luis Represas, João Pedro Pais, Moonspell, Rui Veloso e Charlie Brown Jr. não combinam num mesmo evento.
Até a megabanda indie Foo Fighters, que estava repousando depois de quase dois anos de turnê, foi chamada para substituir o Guns n" Roses, que há anos não consegue se portar como um grupo de rock. A banda de Axl Rose era o sonho do festival em repetir a afluência de pelo menos parte das 250 mil pessoas que estiveram no evento do Rio em 2001.
A tenda Raízes do RRL, que terá a veterana brasileira Joyce, é mais coerente a uma fórmula de festival e contabiliza mais atrações que o palco principal. Quatro dias depois que a baiana Daniela Mercury encabeça a noite em que Britney Spears "abre" para a brasileira, a mesma Lisboa abriga o Super Bock Super Rock, com atrações pop relevantes, como Pixies, Fatboy Slim e N.E.R.D..
Ainda em junho, o britânico Glastonbury também vai promover um show de Paul McCartney. Tal qual o RRL, também vai dar a seu público de mais de 120 mil pessoas/dia atrações como Kings of Leon e Black Eyed Peas.
Como um olhar menos ligado à emergência do pop, o RRL, com sua idéia da propagação da marca talvez até faça sentido. Num campo hipotético, se o Reading Festival fizesse uma versão em SP, talvez pudéssemos esperar aqui uma atração como o Radiohead, por causa do nome do festival. De repente o título Rock in Rio chama mais público do que Rock in Lisboa.
Porque em Lisboa talvez Daniela Mercury seja artista para competir com a banda de Thom Yorke.
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