Carros Voadores e Seus Homens Radioativos: lançado EP Mar Morto
Por Raquel Reis
Fonte: Smart Press Comunicação
Postado em 12 de fevereiro de 2020
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A semana de 26 de janeiro começa com os desdobramentos dos fatos após as chuvas em BH. Inúmeras reportagens relacionam os estragos ao planejamento urbano (ou a falta dele), que não se atenta às nascentes, rios e lençóis freáticos. Tais manchetes não são privilégio da capital mineira apenas. Em 2019, a Grande SP foi castigada por não deixar fluir seus rios e não saber lidar com o volume de água em grandes proporções. Ao final da mesma semana, em 02/02/2020, é dia de Iemanjá – orixá do povo Egbá ligada à fertilidade e também aos rios e desembocaduras. Poderia ser estrategicamente planejado, mas o lançamento do EP Mar Morto, cujo tema são as cidades construídas sobre suas águas, foi pura coincidência. O duo paulistano CARROS VOADORES E SEUS HOMENS RADIOATIVOS (@carroqueavoa nas redes sociais), escolheu essa data por apenas uma razão: o palíndromo numérico da data.
São 6 faixas trabalhadas ao longo de quase um ano de banda. Compostas, em sua maioria, por Rodrigo Paoli e produzidas por Gabriel Reis, as músicas são retrato de uma parceria que deu certo logo de cara. Mar Morto fala sobre clausura, inércia e apatia. A faixa-título conduz todas as outras músicas, em uma comunicação não planejada e que fala sobre o mesmo assunto: viver nessa cidade de águas mortas. "O país segue uma política de apagamento dos inconvenientes, sejam rios ou pessoas", afirma o vocalista e guitarrista. "Mas nada se apaga de verdade. Os rios tendem a resistir ao esquecimento e isso não vai mudar. O que podemos mudar é nossa relação com eles".
O projeto contou, ainda, com o trabalho visual composto pelo Matheus Mendonça (@mathgraphia). As fotos foram feitas pelo centro velho de São Paulo em lugares onde passam rios, soterrados pela cidade. "Saímos com nossas cadeirinhas coloridas procurando essa vida nos entulhos", explica Paoli. "O trampo dele deixou tudo mais coeso e muito bonito", ressalta Gabriel. De acordo com o duo, as fotos também cumprem esse papel de elo entre as canções.
A primeira faixa, que dá nome ao EP, é um desabafo: "nada nada por aqui". "Mar Morto" fala sobre transbordar, não dar conta do volume de água – ou das cobranças diárias de quem vive em uma metrópole. E como vai ser envelhecer nessa cidade? "A Coisa Maldita" traz essa questão que Rodrigo Paoli, vocalista e guitarrista da banda levantou com um amigo de infância "sobre os dois filhos dele e uma conta de luz que teimava em vencer", diz. Um papo maluco sobre manguebeat, movimento armorial, Pepe Mujica e um poema de Affonso Romano de Sant’Anna refletem sobre como tudo e nada mudou ao mesmo tempo.
Incontida é uma das canções que Rodrigo iniciou em um projeto anterior a Carros, com o amigo Caio Manzano. Conta sobre como as coisas que ficam aprisionadas por muito tempo acabam chegando à superfície, querendo ou não. Sobre os rios que cortam a cidade ou sobre sentimentos, pensamentos, você decide. Flores tem a batida mais animada e faz contraponto com o peso da letra: as flores que enfeitam as grades das janelas diz muito a respeito do que a gente quer esconder e preencher no vazio. Fôlego é a música mais esperançosa do EP. "Nosso voto de fé aos calejados", pontua Paoli.
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