A música "pop genérica" de um disco clássico do Jethro Tull que incomoda Ian Anderson
Por Bruce William
Postado em 17 de maio de 2026
Ian Anderson nunca foi exatamente o tipo de músico que parecia confortável tentando caber em formato pronto. O Jethro Tull podia até lançar singles, aparecer nas paradas e vender muito disco, mas sua identidade sempre esteve em outro lugar: blues torto, folk britânico, flauta atravessando guitarra pesada, letras cheias de ironia e uma tendência quase natural a fugir da solução mais óbvia. Por isso, quando ele tentou escrever uma canção mais convencional, o resultado acabou virando uma pedra no sapato.
Jethro Tull - Mais Novidades
A música era "Teacher", lançada em 1970 como lado B de "The Witch's Promise". Dependendo da edição, ela também apareceu ligada a "Benefit", terceiro álbum do Jethro Tull, embora a discografia da banda tenha aquelas diferenças de configuração entre Reino Unido e Estados Unidos que costumam deixar colecionador conferindo contracapa com lupa (Obs.: ela também saiu na edição brasileira). O ponto principal é que "Teacher" nasceu em uma fase em que Anderson já estava se afastando do blues inicial e testando formas mais próprias de composição.
O problema, segundo ele mesmo, é que a música foi pensada com uma intenção que não combinava muito com seu método habitual. Anderson explicou, conforme publicado na Far Out: "Foi a necessidade de criar um formato de canção pop que pudesse nos dar alguma execução em rádio ou entrar nas paradas de singles. Foi uma tentativa deliberada de escrever uma peça de música pop/rock mais genérica." A palavra "deliberada" pesa bastante aí, porque não soa como uma faixa que simplesmente saiu simples. Soa como alguém tentando simplificar de propósito.
Essa é justamente a parte que parece incomodar Anderson décadas depois. Ele não apenas reconheceu a intenção comercial, como também deixou claro que nunca se sentiu confortável com o resultado: "Provavelmente é por isso que eu não gosto muito dela. Parecia um pouco forçada, um pouco estruturada demais nesse tipo de caminho. Não é uma música com a qual eu me sinta confortável."
É uma crítica até certo ponto curiosa, porque muitos fãs não escutam "Teacher" como um desastre. Para muita gente, ela tem riff, balanço e aquele tempero do Tull de começo dos anos 70. Mas dá para entender o incômodo. "Teacher" parece mais direta do que aquilo que Anderson costumava buscar quando estava inspirado por temas mais ambíguos, personagens estranhos ou observações sociais menos mastigadas. Ela não tem a mesma personalidade de "Living in the Past", nem a estranheza que mais tarde faria "Aqualung" parecer ao mesmo tempo acessível e esquisito. É uma música eficiente, mas talvez eficiente demais para alguém que desconfiava justamente desse tipo de encaixe.
O curioso é que Anderson sabia escrever músicas curtas sem perder identidade. "Living in the Past", por exemplo, nasceu de uma tentativa de fazer um single, mas saiu em compasso 5/4, com aquele balanço que confundia quem tentava dançar e ainda assim funcionou nas paradas. Ou seja, o problema não era fazer algo breve ou radiofônico. O problema era quando a música parecia ter sido montada para cumprir uma função, em vez de nascer de uma necessidade mais natural.
Essa diferença ajuda a explicar por que "Teacher" ficou marcada como arrependimento para ele, mesmo sem ser uma faixa detestada pelo público. Artista costuma ouvir a própria obra de um jeito cruel: onde o fã escuta uma música agradável, o autor escuta a intenção errada, a solução fácil, o momento em que aceitou entrar numa roupa que não servia bem. Anderson podia ter escrito coisas muito mais estranhas, longas e difíceis de explicar. Mas foi justamente uma tentativa de normalidade que o deixou desconfortável.
No catálogo do Jethro Tull, "Teacher" acabou sobrevivendo como uma curiosidade reveladora. Não é uma tragédia, nem um vexame escondido no porão. É só uma canção que mostra como Ian Anderson funcionava melhor quando tentava escapar da fórmula, não quando se aproximava dela. Para alguns músicos, escrever algo "pop genérico" seria um objetivo. Para ele, parece ter sido quase um acidente de trabalho com direito a registro em vinil.
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



A canção de dois adolescentes que impediu "Bohemian Rhapsody" de chegar ao topo das paradas
Zakk Wylde lembra breve período como guitarrista do Guns N' Roses
A música que Ian Gillan considera a melhor de sua carreira, acima dos clássicos do Deep Purple
A melhor música dos Rolling Stones, segundo a Paste Magazine
A banda de metal que Gene Simmons dizia que iria tomar o lugar do Kiss
Para Marty Friedman, Nick Menza foi uma das razões para o sucesso do Megadeth
O músico do Led Zeppelin que só entrou na banda depois de receber dezenas de telegramas
A banda influenciada pelo Iron Maiden que Bruce Dickinson elegeu como sua favorita
A divergência entre Max Cavalera, Jack Black e Michael Sweet sobre o grunge
As 10 melhores músicas do Anthrax com John Bush nos vocais, segundo o Metal Sucks
O álbum do Metallica que tem Kirk Hammett como ponto mais fraco, segundo Gastão
Black Label Society faz show histórico em Belo Horizonte e emociona fãs
Os três álbuns de estúdio que Alice Cooper não lembra de ter gravado
A música do Van Halen que desagradou fãs antigos, mas fez gravadora sentir cheiro de dinheiro
A melhor música dos Ramones, em lista da Paste Magazine

O guitarrista que Ian Anderson admirava tanto que foi acusado de imitar
As melhores músicas do rock progressivo com mais de 30 minutos, segundo a Loudwire
Ian Anderson explica como o consolo "intruso *nal" era usado em shows do Jethro Tull nos anos 80
O dia em que membros do Spin Doctors deixaram Ian Anderson no vácuo: "Me ignoraram"
O grande nome do Rock que recusou chance de tocar no Woodstock; "Não gosto de hippies"
Jethro Tull: Led Zeppelin eram Deuses do Rock, nós éramos a humilde banda de abertura


