Pearl Jam: como e por que eles jogaram contra o próprio sucesso após o álbum "Ten"
Por Igor Miranda
Postado em 03 de julho de 2021
O Pearl Jam não estava preparado para o sucesso? Ou será que eles não queriam ser populares da forma como se tornaram? As atividades da banda após o êxito conquistado com o fenomenal álbum de estreia "Ten", de 1991, provoca esse tipo de questionamento.
Enquanto a gravadora do grupo no período, a Epic/Sony, pressionava para que a divulgação de "Ten" continuasse mesmo dois anos após o álbum ter sido lançado, o Pearl Jam queria seguir em frente. De preferência, com menos holofotes.
O grupo liderado pelo vocalista Eddie Vedder chegou a se recusar a produzir um videoclipe para a música "Black", que seria promovida em formato de single, dado o sucesso conquistado, em especial, com "Jeremy". Eles também reduziram consideravelmente a agenda de entrevistas e adotaram como padrão, no futuro, o não-lançamento de clipes.
Em 2001, conforme resgatado pela Classic Rock, a empresária da banda, Kelly Curtis, comentou: "Quando 'Jeremy' estourou, o CEO da Sony dizia que 'Black' deveria sair como single. A banda falou: 'não, isso está grande o bastante'. Recusamos eventos de inauguração, especiais de TV, turnês em estádios, todo tipo de merchandising que você imaginar. Recebi uma ligação de Calvin Klein (estilista) querendo Eddie (Vedder, vocalista) em um anúncio. Eu fiquei orgulhoso da postura da banda".
A gravadora, claro, tinha suas explicações para continuar promovendo "Ten". O disco oferecia um verdadeiro desfile de hits, mas, ao mesmo tempo, demorou quase um ano para começar a fazer sucesso. E não dá para negar que a banda também curtiu todo esse êxito.
Em recente entrevista também à Classic Rock, o guitarrista Mike McCready refletiu: "Estávamos tocando às 16h, no Lollapalooza, depois do Lush, e umas 30 mil pessoas correram em direção ao palco. Ficamos perplexos. Mas foi incrível. Era como se meu sonho de vida se tornasse realidade bem diante do meu rosto".
O problema é que tudo aconteceu de forma tão massiva, ao mesmo tempo, que o Pearl Jam se questionou a respeito desse sucesso. Por isso, a banda adotou as já citadas medidas que, ok, atrapalhavam na divulgação de seus trabalhos, mas preservavam os integrantes de uma agenda desgastante - os shows, vale lembrar, seguiam intactos, pois garantiam o contato direto entre os músicos e seus fãs.
O álbum que sucedeu "Ten", "Vs." (1993), não chegou a repetir as vendas do antecessor no longo prazo. Ainda assim, registrou números fenomenais: quase um milhão de cópias vendidas nos Estados Unidos somente na primeira semana e sete milhões até os dias de hoje, topo das paradas nos EUA e outros sete países, entre outros méritos comerciais.
Preservação a Eddie Vedder
Os integrantes do Pearl Jam reconhecem que Eddie Vedder era quem mais sofria com toda a exposição da banda. O vocalista deixou de ter uma vida pessoal, pois tornou-se uma sensação pop de uma hora para a outra.
Mike McCready aponta que as decisões de não filmar videoclipes e reduzir entrevistas foram tomadas para preservar Vedder. "Jeff (Ament, baixista), Stone (Gossard, guitarrista) e Ed acharam necessário. Ed estava passando por um escrutínio maior do que qualquer outro. Aquilo o oprimia, provavelmente. Oprimia a todos nós", disse.
Na época, McCready não concordava com a decisão. Depois, passou a entender o que estava rolando. "Lembro de não querer recuar, dizendo: 'isso é o que queríamos desde garotos, vamos continuar, fazer vídeos, abraçar isso'. Mas eles não queriam, diziam: 'não, precisamos tomar essa atitude, pois tudo vai desmoronar se não a tomarmos'. E acho que eles estavam certos", afirmou.
A decisão de se expor menos e adotar uma agenda mais discreta preservou não só Eddie Vedder, como o próprio Pearl Jam, que segue na ativa sem mudanças no núcleo principal de sua formação. Ao longo dos anos, rolaram apenas mudanças de bateristas, embora eles estejam estáveis com Matt Cameron desde 1998.
"Sinto que ainda estamos aí hoje em dia, talvez, por causa daquela primeira decisão de tentar fazer da nossa forma. Tomamos muitas outras decisões que iam contra o que a gravadora queria que fizéssemos. Tivemos sorte, mas foi nossa decisão: recuar, nós cinco contra um", concluiu.
Além da estabilidade da banda, a decisão não afetou de forma tão direta os negócios. Os álbuns seguintes do Pearl Jam também registraram boas vendas, ainda que não mais no patamar de "Ten". O grupo seguiu se apresentando em arenas lotadas. E o mais importante: seguiram donos das próprias escolhas de suas carreiras, inclusive com uma gravadora própria, a Monkeywrench Records, e controle de sua obra.
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