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Como a iminente separação de uma banda no auge gerou um dos maiores clássicos do Rock

Por Bruce William
Postado em 26 de novembro de 2023

"Começou como uma música triste muitos anos atrás. Era sobre uma ocasião triste na minha vida, mas eu me recuso a ficar triste agora. Pra mim, nos dias de hoje, é uma música muito feliz, porque me lembra da minha linda filhinha, Kelsy, e essa é a verdade".

Creedence C. Revival - + Novidades

Foto: Wikimedia Commons
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Foi assim que John Fogerty revelou em 2012 que aqueles versos que marcaram gerações, que antes eram para ele cheios de angústia emocional e anseios, havia mudado completamente de significado no decorrer dos anos. "Kelsy comanda meu mundo, e ela sabe disso. De qualquer forma, Kelsy é um arco-íris na minha vida, e essa música tem um arco-íris nela".

Quando "Have You Ever Seen The Rain" foi escrita em 1970, o Creedence Clearwater Revival estava emergindo de uma sequência de discos extremamente bem sucedidos comercialmente e que geraram clássicos inesquecíveis como "Suzie Q" de seu disco de estreia de 1968, "Proud Mary" do álbum "Bayou Country", "Bad Moon Rising" do álbum "Green River" e "Fortunate Son" do álbum "Willy and the Poor Boys", estes três últimos lançados no mesmo ano de 1969, e "Long As I Can See The Light" do álbum "Cosmo's Factory" de 1970.

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Embora estivesse em pleno auge e produzindo de forma intensa, o CCR enfrentava dificuldades internas, geradas principalmente pela liderança e decisões tomadas dentro do grupo, envolvendo o vocalista e guitarrista John Fogerty. Ele havia assumido um papel de destaque, geralmente escrevendo e cantando a maioria das músicas, o que acabou irritando os demais integrantes: o irmão mais novo de John, o guitarrista rítmico Tom Fogerty, o baixista Stu Cook e o baterista Doug Clifford. Tom, em particular, se dizia insatisfeito com seu papel na banda e buscava mais espaço criativo.

Aquele clima estranho influenciou profundamente John, que se valeu do sentimento de frustração e perda iminente para escrever uma letra simples que aborda o tema da chuva como uma metáfora para desafios e tempos difíceis, em frases que ele cantava de forma emotiva e com a sua característica voz rasgada: "Someone told me long ago/ There's a calm before the storm/ I know, it's been comin' for some time" ("Alguém me disse há muito tempo / que há uma calmaria que precede a tempestade / eu sei, já está vindo há algum tempo") ou o refrão "I Wanna Know / Have You Ever Seen The Rain / Coming Down In A Sunny Day" ("Eu quero saber / você já viu a chuva / caindo em um dia ensolarado?"). O resultado foi uma verdadeira pérola, uma das músicas mais marcantes do Creedence, que atravessa gerações e até hoje é considerada uma obra-prima atemporal.

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"Have You Ever Seen The Rain" entrou no "Pendulum", sexto álbum do Creedence, segundo lançado pela banda no ano de 1970 e último a contar com Tom Fogerty, que deixou o grupo durante as gravações, que levaram um mês para ser concluídas. Isto foi algo inédito em se tratando do grupo, que costumava entrar em estúdio com tudo já pronto e ensaiado, enquanto desta vez eles aprenderam as músicas já em estúdio.

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Algo que chama a atenção nas músicas do álbum - incluindo "Have You Ever Seen The Rain" - é a presença ostensiva de teclados, que foram inspirados pelo Booker T. & the MG. O lendário combo de R&B/funk norte americano abriu shows do Creedence e até chegou a fazer jams em estúdio com eles, que durante décadas foram objeto de desejo dos fãs em forma de bootlegs. A amizade com John perdurou ao longo dos anos, a ponto de em 1995 eles tocarem juntos na cerimônia de abertura do Hall da Fama do Rock.

Como "Have You Ever Seen The Rain" do Creedence acabou ficando associada ao Vietnã

A simplicidade e ao mesmo tempo profundidade poética da letra fez com que fosse associada a eventos marcantes e trágicos, como se ela tentasse passar uma espécie de alento de que dias melhores virão após a tempestade. Um crítico musical, Mark Deming, sugeriu que a letra fala sobre o idealismo da década de 1960 e sobre como ele desapareceu após eventos como o trágico Festival de Altamont ou o tiroteio em Kent State, e que Fogerty está dizendo que os mesmos problemas da década de 1960 ainda existiam na década de 1970, mas as pessoas já não lutavam por eles.

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No ano que foi lançada, a Guerra do Vietnã era um dos assuntos em pauta nos EUA, e não tardou para associarem sua letra com o conflito. "A chuva representa o aguaceiro da realidade sobre uma nação em processo de reconfiguração tanto em cenários domésticos quanto estrangeiros, interrompendo suas visões anteriormente cor-de-rosa, ou 'ensolaradas', nas décadas seguintes à Segunda Guerra Mundial. Do ponto de vista de um veterano, a música é ainda mais comovente, já que eles refletem melancolicamente sobre as mudanças em seu mundo e sua perspectiva pessoal que ele trouxe consigo desde antes de ingressar no serviço", disse Benjamin Kassel nesta análise da letra sob a ótica militar [Fonte: Unfortified Castle].

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"Muitas pessoas viram a música como uma declaração contra a guerra, e que a chuva caindo era uma metáfora para a chuva de napalm das bombas lançadas pelos EUA", aponta o Perfect Song, mas John Fogerty sempre refutou esta ideia: "A música é realmente sobre a iminente separação do Creedence. A imagem é a de um dia brilhante, bonito e ensolarado, e ao mesmo tempo está chovendo", disse ao jornalista Michael Goldberg da Rolling Stone em uma entrevista de 1993. "A banda estava se separando. Eu estava reagindo, 'Caramba, isso está ficando sério exatamente no momento em que deveríamos estar tendo um dia ensolarado'".

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Sobre Bruce William

Quando Socram chegou no Whiplash.net era tudo mato, JPA lhe entregou uma foice e disse "go ahead!". Usou vários nomes, chegou a hora do "verdadeiro". Nunca teve pretensão de se dizer jornalista, no máximo historiador do rock, já que é formado na área. Continua apaixonado por uma Fuchsbau, que fica mais linda a cada dia que passa ♥. Na foto com a Melody, que já virou estrelinha...
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