A música dos Engenheiros que criticou esquerda e direita e virou alvo dos dois lados
Por Bruce William
Postado em 13 de fevereiro de 2025
Quando os Engenheiros do Hawaii lançaram seu primeiro álbum, "Longe Demais das Capitais" (1986), a faixa "Toda Forma de Poder" rapidamente se destacou na mídia. A música não apenas abriu portas para a banda, mas também colocou Humberto Gessinger em uma posição inesperada: alvo de críticas vindas de diferentes espectros políticos.
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A letra da canção é uma crítica direta ao autoritarismo, independente de qual lado ele venha. Em um dos versos mais emblemáticos, Gessinger menciona dois líderes opostos da Guerra Fria: "Fidel e Pinochet tiram sarro de você que não faz nada". A escolha de citar tanto o ditador cubano quanto o chileno não passou despercebida. Anos depois, o próprio Humberto comentou sobre a repercussão: "Já me deixou com inimigos dos dois lados. Porque na primeira frase da primeira música, eu ponho Fidel e Pinochet, então já virei alvo, já desenharam um alvo na minha testa", revelou em entrevista à Rádio Cidade, exibida pelo jornalista Júlio Ettore em um vídeo onde ele mostra curiosidades sobre a canção.
Lançada em um período de transição política no Brasil, a música dialogava com o momento de abertura democrática após a ditadura militar. O país havia realizado eleições gerais em 1982 e 1986, mas a escolha do presidente ainda era indireta. O cenário de desconfiança e desilusão com os rumos políticos é refletido na letra: "Eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada". O ceticismo em relação aos discursos vazios de governantes ressoava com a população que acompanhava promessas de mudanças, mas via velhas estruturas se manterem.
Em 1987, ao tocar a música na rádio Transamérica, Gessinger comentou que esperava que "Toda Forma de Poder" perdesse o sentido com o passar do tempo, mas percebeu que sua mensagem continuava atual: "A gente pensou que essa música ia ficar completamente fora de época depois de 15 de novembro, mas agora... rapaz, agora quem sabe? Então a gente torce para essa música ficar sem nada a ver".
A canção também foi analisada academicamente. Estudos apontam como sua estrutura remete a um ciclo histórico repetitivo, no qual diferentes formas de governo acabam por reforçar dinâmicas de opressão e conflito. O trecho "A história se repete, mas a força deixa a história mal contada" sugere que o poder molda a narrativa dos acontecimentos, distorcendo os fatos conforme seus interesses.
Outro ponto interessante é o uso de elementos da novilíngua, conceito popularizado no livro 1984, de George Orwell. No ensaio "Engenheiros do Hawaii: 'Toda Forma de Poder' e a 'novilíngua'", Carlos Siqueira observa como a música primeiro critica o discurso vazio dos políticos, mas depois, no refrão, usa uma estrutura repetitiva que pode ser interpretada como um exemplo do próprio fenômeno: "Se tudo passa, talvez você passe por aqui e me faça esquecer tudo que eu vi". O jogo de palavras e a sonoridade hipnótica sugerem uma alienação que faz com que o público esqueça a realidade ao seu redor.
Com o passar dos anos, "Toda Forma de Poder" seguiu como um dos maiores sucessos dos Engenheiros do Hawaii e um dos mais comentados do rock nacional. Sua mensagem continua provocando interpretações diversas, mantendo viva a discussão sobre a relação entre política, discurso e controle. O próprio Gessinger, em seu livro "Pra Ser Sincero" (Amazon), reconhece o impacto duradouro da canção e a forma como ela o marcou: "Misteriosamente, sobrevivi sem aprender a fazer a coisa certa. Aquele destemor de quem não sabe onde está se metendo deve ter ajudado".
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