Telefone sem fio: o que liga febre dos bebês reborn com "Born Again" do Black Sabbath?
Por Gustavo Maiato
Postado em 18 de maio de 2025
Em 1983, o Black Sabbath lançava "Born Again", um dos álbuns mais controversos de sua carreira — tanto pelo som quanto pela capa, frequentemente listada entre as mais feias da história do rock. Quatro décadas depois, vídeos de "nascimentos" simulados, mamadeiras fictícias e fraldas trocadas tomam conta do TikTok. O protagonista? O bebê reborn — boneca hiper-realista feita à mão para se parecer com um recém-nascido.
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À primeira vista, parece improvável que esses dois universos — o do heavy metal sombrio e o da cultura visual das bonecas — possam se encontrar. Mas uma análise mais atenta revela algo além da superfície estética: há entre eles um elo simbólico, emocional e cultural surpreendentemente forte, e ele passa por temas como luto, renascimento, solidão e identidade.
Lançado em 7 de agosto de 1983, "Born Again" marcou uma mudança drástica na trajetória do Black Sabbath. Era o primeiro — e único — disco com Ian Gillan, ex-Deep Purple, nos vocais. Após a saída de Ronnie James Dio, a banda se viu mais uma vez em transição. O álbum foi gravado em clima tenso e com problemas técnicos — como um alto-falante queimado que alterou o som da guitarra de Tony Iommi sem que ninguém percebesse a tempo.
O resultado é um disco pesado, abafado e carregado de texturas densas e agoniantes. Mas, diferente de álbuns anteriores como "Paranoid" (1970), "Born Again" não aborda guerras literais, e sim conflitos internos, espirituais e existenciais. A faixa "Disturbing the Priest", por exemplo, trata do embate entre o sagrado e o profano, enquanto "Zero the Hero" fala de dissolução de identidade. Há mais trevas pessoais do que trincheiras.
Apesar de não ter uma narrativa direta, "Born Again" pode ser interpretado como trilha sonora para estados emocionais extremos. E é aí que sua relação simbólica com temas como luto gestacional, Alzheimer, ansiedade e solidão começa a se formar. Lidar com esses temas de perda é o que leva –pelo menos originalmente – muitas pessoas a recorrerem a compra de um bebê reborn. Mães que perderam um filho, por exemplo, estão entre o público-alvo do "brinquedo".
O título do álbum — "Born Again" — sugere renascimento, mas também carrega a ideia implícita de algo que morreu antes. Para quem vivencia a perda de uma gestação, essa ambiguidade entre vida e ausência é constante. As guitarras distorcidas e os vocais angustiados de Gillan transmitem essa dor que não tem forma. Já as músicas como "Keep It Warm" criam atmosferas densas. A sensação é de isolamento, de alguém tentando se conectar sem conseguir.
A utilização dos bonecos no tratamento de Alzheimer encontra eco em "Zero the Hero", que apresenta um personagem que perdeu seu valor, sua função, quase como alguém observando a si mesmo se dissolver. A perda de referência e a confusão sobre quem se é ecoam sentimentos muito próximos ao início de doenças degenerativas.
Do outro lado da cultura pop, o bebê reborn — essa boneca que imita com precisão um recém-nascido — tem sua origem após a Segunda Guerra Mundial, mas ganhou força nos anos 1990. Hoje, virou febre nas redes sociais, onde vídeos viralizam mostrando os bonecos sendo tratados como bebês reais. As informações são do site Quero Bolsa.
Mas afinal, o que "Born Again" e os bebês reborn têm em comum? Ambos dialogam com uma tentativa simbólica de renascimento em meio ao colapso. Ambos tocam feridas emocionais reais: a dor de perder, a busca por preencher o vazio, o desejo de recuperar o controle sobre a própria história — mesmo que por meio da arte, da fantasia ou do barulho. São expressões diferentes do mesmo impulso humano — o de tentar recompor o que foi perdido, reconstruir o que se quebrou, e seguir em frente quando a realidade parece ter parado de fazer sentido.
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