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A música do Rush que Neil Peart preferia não ter em seu currículo

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Postado em 20 de outubro de 2025

Quem se aproximava de Rush com um mínimo de curiosidade já sabia: era preciso fazer a lição de casa para decifrar as letras. O debut até parecia um rock de manual; mas bastou Neil Peart assumir a caneta para o trio despejar, em pleno prog, algumas das letras mais cerebrais do rock. Ainda assim, nem tudo ali nasceu para ser levado a ferro e fogo.

Pegue "2112": a faixa-título é uma das epopeias definitivas do progressivo - começo, meio, fim e um mundo inteiro inventado no caminho. Agora vire o disco e lá está "A Passage to Bangkok", uma odisseia maconheira, souvenir de turnê, provando que a mesma banda que ergue templos sci-fi também sabe rir no backstage.

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Foto: Divulgação - Capa R40 Live
Foto: Divulgação - Capa R40 Live

Na época, o clima era "se for o último álbum, que seja se divertindo". Só que o público mordeu a isca, Rush virou instituição prog, e veio o passe livre criativo: nada de reunião com gravadora, nada de compositor externo, apenas "façam o que quiserem". Maravilhoso - e perigosíssimo. Quando a trava cai, a imaginação acelera sem cinto.

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Resultado? Entre pepitas como "Closer to the Heart", apareciam imagens dignas de banquete mitológico - "honey-dew" e "milk of Paradise", termos que o Peart pescou do poema Kubla Khan (Coleridge) e que funcionam como atalhos para falar de néctares divinos, um êxtase quase celestial. Se esse tipo de metáfora grandiosa passou incólume, "Hemispheres" mostrou o trio brincando no limite do próprio labirinto, levando o prog ao ponto em que a imaginação corre solta e o excesso vira método.

É um disco autocentrado? É. Mas também é daqueles raros casos em que o excesso funciona: a suíte do lado A é monstruosa, e "La Villa Strangiato" parece impossível até o Rush tocá-la. O problema, para o próprio Peart, surgia nas faixas curtas, especialmente "The Trees". A canção é um devaneio mais leve, quase fábula. E foi justamente aí que Neil pegou implicância. Nas palavras dele, conforme resgate da Far Out: "Liricamente, é uma rima pobre. Não me orgulho da habilidade de escrita nisso. O que me orgulha é ter pegado uma ideia pura e criado uma imagem. Nesse sentido, fui bem. Em termos de técnica, é zero. Escrevi 'The Trees' em cinco minutos". Tradução livre: a metáfora até funciona, mas ele não queria ser lembrado por esse cartão-postal.

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Visto assim, há até algo impressionante: montar uma alegoria inteira em minutos e fazê-la grudar no repertório de shows. Que o "tema oligárquico" da letra seja discutível, tudo bem - Peart não era estátua; reviu crenças, redirecionou o norte e, anos depois, escreveu discos como "Vapor Trails" com outra bússola.

Musicalmente, "The Trees" ainda flagra o Rush tinindo: dinâmica, arranjos espertoides, aquela engenharia rítmica que só eles. Mas, se a ideia é entender a pena de Peart em potência máxima, melhor apontar a agulha para as peças grandes, os épicos onde o baterista-letrista vira arquiteto de mundos e não apenas narrador de parábolas.

No fim, Neil foi o raro baterista-poeta que conseguiu botar estofo filosófico no rock sem perder o pulso. Até os melhores, porém, têm seus momentos "floridos demais". "The Trees" ficou como peça querida do repertório, mas, se dependesse do autor, não seria essa a frase gravada na lápide.

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Sobre Bruce William

Quando Socram chegou no Whiplash.net era tudo mato, JPA lhe entregou uma foice e disse "go ahead!". Usou vários nomes, chegou a hora do "verdadeiro". Nunca teve pretensão de se dizer jornalista, no máximo historiador do rock, já que é formado na área. Continua apaixonado por uma Fuchsbau, que fica mais linda a cada dia que passa ♥. Na foto com a Melody, que já virou estrelinha...
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