Quando Lulu Santos deu uma de Ultraje a Rigor e tomou censura federal na cara
Por Bruce William
Postado em 16 de abril de 2026
Quando se fala em Lulu Santos nos anos 1980, a lembrança mais automática costuma puxar o cara do pop sofisticado, das melodias bem acabadas, dos refrãos elegantes e de um tipo de sucesso radiofônico que parecia sempre muito bem resolvido. E isso tudo é verdade. Em 1986, no álbum "Lulu", ele emplacou uma sequência forte de músicas como "Condição", "Casa", "Minha Vida", "Pé Atrás" e "Um Pro Outro". Só que, escondida no lado B do vinil, havia uma faixa que saía bastante desse retrato mais arrumado e parecia apontar para outro lugar.

Essa faixa era "Ro-Que-Se-Da-Ne (Junte as Sílabas e Forme Novas Palavrinhas)", título que já vinha com gosto de trocadilho, deboche e provocação. Musicalmente, a gravação trazia um time de respeito composto por Arthur Maia no baixo, Cláudio Infante na bateria, Paul de Castro na guitarra solo, Klebs Cavalcanti na coda e o próprio Lulu na guitarra base, além do crédito espirituoso de arranjo "desarranjada por Lulu Santos". Só por aí já dava para perceber que não era exatamente uma canção feita para se comportar.
A letra também não fazia muita questão de sutileza. Primeiro aparece uma garota de Copacabana, cheia de pose, grana e promessas. Depois surge um diretor de gravadora oferecendo contrato, oportunidade e conversa mole. Nos dois casos, o narrador cai num ambiente de excesso, superficialidade e interesse torto, resumido naquele refrão repetido como martelo: "fuma, bebe e cheira". E quando a música chega no verso "fuma e quer pegar no meu pau", já não resta dúvida de que Lulu tinha resolvido largar a mão sem grande medo de melindrar ninguém.
Além da parte musical - incluindo o vocal de Lulu - é aí que entra a comparação com o Ultraje a Rigor. Não porque Lulu tenha virado outra banda por quatro minutos, mas porque essa música trabalha com um tipo de escracho direto, quase de charge, para falar de comportamento, bastidor e hipocrisia social. Há nela uma ironia frontal, uma vontade de expor tipos humanos e um prazer em desmontar poses que lembram mesmo aquela acidez mais debochada do rock brasileiro da década. A diferença é que, no Lulu, isso vem misturado com um jogo de linguagem mais torto, mais carioca, menos "editorial de jornal em forma de rock" e mais crônica venenosa de um certo mundinho.
A censura, claro, entrou em cena. O disco "Lulu" foi mais um a esbarrar nesse entulho moralista ainda presente no Brasil dos anos 1980, e "Ro-Que-Se-Da-Ne" acabou vetada por ser considerada imprópria. Não é difícil entender por quê. A música falava de drogas, sexo, promessas vazias e abuso de poder num tom que não pedia licença. E fazia isso sem metáfora demais, sem amenizar nada e sem a desculpa de estar "elevando" o tema para algum lugar mais respeitável. Era um retrato malcriado. Justamente por isso, acertava onde doía.
Também dá para olhar a faixa como um retrato do ambiente. A garota bacana e o executivo da gravadora aparecem quase como variações do mesmo personagem: gente que vende charme, poder, prazer ou oportunidade, mas entrega vazio, excesso e relação descartável. A repetição de "então tá, te telefono mais tarde" fecha tudo com um sarcasmo muito bom, como se sobrasse só ressaca, papelão e a velha promessa de que depois se vê, depois se fala, depois se resolve, e nunca se resolve porcaria nenhuma.
"Ro-Que-Se-Da-Ne" acaba ficando como uma daquelas músicas que ajudam a complicar a imagem muito limpinha que às vezes se faz do Lulu Santos. O sujeito que escrevia grandes canções pop também era capaz de fechar um disco de sucesso com uma faixa torta, agressiva, engraçada e bem sacana, mirando os excessos do meio social e artístico ao redor. Talvez não seja a música mais lembrada do álbum. Mas é certamente uma das que melhor mostram que, quando quis, Lulu soube trocar a elegância pelo veneno sem perder a pontaria.
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