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Bangers Open Air 2026 - uma experiência para a posteridade

Resenha - Bangers Open Air 2026 (Espaço das Américas, São Paulo, 25 e 26/04/2026)

Por
Postado em 06 de maio de 2026

Confesso-me um emocionado. Ainda bem. A expressão artística, notadamente a musical,infunde-me seiva à vida. Rosa Montero, por sinal, bem desenvolveu essa ideia – relação entre a arte e o sentido da vida – em seu primoroso trabalho ensaístico O perigo de estar lúcida. Fê-lo, aliás, com maior sofisticação. Justamente por isso, deixo o convite à leitura, intercambiando música e literatura, como sempre me apraz fazer.

Fotos: Diego Camara

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Logo, não estou isolado em meus sentimentos inflamados. E, no fundo, agradeço por ter encontrado um espaço íntimo de reconexão que sempre confere cor e viço aos meus dias (e à minha vida).

Essa introdução é um manifesto autoexplicativo do sentimentalismo no porvir deste texto. É, ainda, um spoiler e, na verdade, até mesmo um objetivo. Se não superlativar a emoçãoque pretendo descrever, terei, em diante,fracassado nessa intencional meta.

Avançando, agora, após os rodeios...

O festival Bangers Open Air alcançou a quarta edição nesse ano de 2026. Realizado nos dias 25 e 26 de abril de 2026 no espaço do Memorial da América Latina, reuniu nomes de peso do heavy metal.

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E, como já é natural ao espetáculo, assegurou ampla pluralidade. Afinal, como de praxe ao Bangers Open Air, o evento reservou espaço abandas das mais diversas projeções, amplitudes e estilos. Abriu caminho, ainda, a incontáveisconjuntos nacionais, bem como permitiu o protagonismo feminino em todos os palcos do evento ao longo da frenética maratona de shows.

Não venho aqui, porém, apenas para resenhardetalhadamente o evento. Apenas quem esteve ali vivenciou a aura mágica daquela ambiência sublime. As palavras não alcançam esse impacto. Ainda, há diversas matérias que, a essa altura, já esmiuçaram, suficientemente, os dois dias do festival.

Meu intuito é, primordialmente, o de registrar um depoimento pessoal. Documentar otestemunho de quem, após relutar irracionalmente, finalmente compareceu ao evento pela primeira vez, por sadia insistência do amigo-irmão Marcelo Magosso, mentor da página Rock Show, e por estímulo igualmente salutar da noiva.

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Não foi em vão.

Recalcitrei a comparecer ao evento por múltiplos motivos. A maioria deles, injustificáveis.

O primeiro: particularmente, agrada-me mais a ideia de selecionar shows específicos que pretendo assistir. Normalmente, minha imersão é mais profunda e completa quando dedico atenção às apresentações que diretamente escolho. Em festivais, há a necessidade de certa aceitação ou adaptação ao cast eleito. Pode-se apenas optar por ir ou não ir ao evento ou, quando muito, escolher as bandas que se deseja assistir.

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Ainda, prefiro shows menores, onde a proximidade física com o artista permite, no geral, melhor interação. Em festivais, essa simbiose é, normalmente, relativizada (embora, por justiça, saliente-se: há a possibilidade de participação nas signing sessions no Bangers Open Air, em contato direto com os artistas).

Por fim, questões pessoais, que talvez pormenorize em algum momento, afastaram-me provisoriamente dos espaços de shows. Retomar esse hábito – que eu já havia principiado em março, na apresentação do Katatonia – impregnava à experiência uma certa sensação de apreensão.

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E, ao show do Katatonia – que inaugurou esse reinício –, acresceram-se, agora, algumas intensificações: sol a pino, longa duração do evento (quase 12h por dia), volume alto e constante e, por fim, enorme e aglomerada multidão (pelo que li, essa edição contou, até então, com a maior presença de público).

De todo modo, superei todos os contrapontos, reais ou imaginários, que confortavam o comodismo de minha relutância. Cedi, finalmente,à persuasão daqueles que, inclusive com algunsbem-humorados ultimatos, incentivaram-me a vivenciar essa experiência. Agora, agradeço-lhescom especial ênfase (particularmente à minha noiva e ao Marcelo Magosso, catapultas nessa decisão).

Fui exclusivamente ao primeiro dia do festival, sábado. Comprei ingresso para o lounge e, entre outros benefícios, tive acesso ao front row, espaço bastante próximo ao palco reservado aos adquirentes dessa modalidade de ticket.

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Comparecer ao Bangers Open Air representou, num âmbito estritamente pessoal, uma quebra de fronteiras e de paradigmas internas. Repito: em algum momento, talvez eu me aprofunde nesseassunto. Por ora, deixo apenas o registro, que, pela particular relevância, considero digno de nota, en passant.

Antes de avançar, um parêntese, que adiante fará sentido.

Ao participar, recentemente, de um podcast na cidade de Salto com meu já citado amigo-irmão Marcelo Magosso, os carismáticos apresentadores, Alexandre e Bruno, lançaram a providencial indagação, com contornos quase filosóficos: "o que a música, para além da melodia em si, representa a vocês?".

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Sem pretender esmiuçar, aqui, a concordante digressão que espontaneamente desenvolvemos, destacamos, entre outros pontos, que as afinidades musicais são poderosamente aptas a unir e magnetizar amizades. Como testemunho pessoal, confirmo-o: formei múltiplas ao longo da vida.

Salientamos, ainda, a ideia de pertencimento: transcendendo aos aspectos melodiosos e do correspondente prazer na sua fruição, as afinidades musicais comuns têm o místico poder de ajuntar grupos numa harmônica coletividade de aficionados. E esse aspecto gregário é próprio da vida e da convivência humanas, avessa ao individualismo e ao isolamento absoluto e perpétuo.

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A inserção dessa digressão, aparentemente dispersa no desenvolvimento coesivo deste depoimento, conecta-se, agora, a uma ideia que alimentei, e que se confirmou, durante e após o festival.

Para além do prazer de testemunhar tantos medalhões da música pesada vibrando suas notas, acordes, melodias e harmonias pelos diversos palcos do evento, a emoção superdimensionou-se a contornos que transcenderam ao regozijo meramente musical.

A integração a um grupo harmônico, fiel edevotado, que se reuniu em multidão pelo fio condutor de gosto comum e tão particular (o heavy metal), vivificou a ideia de pertencimento. De tenaz convivência gregária, frutificada a partir das raízes de um esplendoroso sentimento comum: a paixão pela música.

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Aquela coletividade, ali congregada no Memorial da América Latina, formava um todoúnico, calorosamente vivaz. Esse sentimento de pertencimento e união, tão singular, não se alcança e não se descreve, à altura, pelas palavras, rareadas e insondáveis diante da profunda experiência do momento.

Ainda, a presença ao evento permitiu gratoencontro, ou reencontro, entre amigos, reforçando a fraterna união já mencionada.

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No meu caso, a começar pelo Marcelo Magosso e sua filha, Letícia, amigos que reencontrei logo ao metrô (e, portanto, a caminhodo evento).

No espaço do Memorial da América Latina, (re)encontrei-me com diversos outros amigos, igualmente caros e estimados.

Conheci pessoalmente, finalmente, o Jorge Cota, de Belo Horizonte: um amigo virtual de década e meia, com quem estabeleci contato, inicialmente, por meio do fã clube do Evergrey.

Revi o Roberto, de Itu, com quem não trombava há anos, além do Adriano Martins, do canal DRIssonante, e da Simone, sua esposa. Todas elas, pessoas especialmente estimadas.

Também conheci alguns amigos do Magosso – agora, também amigos meus –, Paulão, "o cara", e Xandão.

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De passagem, também vi no meu contrafluxo, ingressando no lounge, o Ricardo Batalha, que foi editor-chefe da minha revista favorita de metal no Brasil, a Roadie Crew. Tive o prazer de conhecê-lo e de papear com ele há alguns anos, no evento Rock of Ages, em Sorocaba (a que compareci, sob chuva torrencial, com minha noiva).

Cumprimentei rapidamente o Daniel, baterista sorocabano da excelente banda de metal progressivo Anderuvius, e amigo pessoal (íamos, às pressas, a sentidos opostos e trombamosbrevemente. Conseguimos trocar um fugaz abraçoem meio ao tumulto e à correria).

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Reencontrei, também, o carismático casal Bárbara e Matheus, cuja amizade mantenho longamente. Conhecemo-nos todos num show do Tuatha de Danann há alguns anos e nos reencontramos, por diversas vezes, em outrasapresentações, como Helloween e Katatonia. No Katatonia, por sinal, eles também conheceram a minha então namorada, hoje noiva.

Um dos apogeus da noite: também conheci pessoalmente, finalmente, o Klaus, um dos idealizadores da excelente banda Slaves of Time, sediada na região do ABC.

A história com o Klaus é-me particularmente especial.

Pelo infinito universo da ambiência digital, Klaus encontrou um texto que escrevi em defesa do álbum Virtual XI, do Iron Maiden (postado nos sites Rock Show e Whiplash.net). Apreciou o estilo de escrita e dos argumentos. Não me contatou, porém, nesse primeiro momento.

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Posteriormente, noutra plataforma (Youtube), viu, coincidentemente, um comentário que deixei num vídeo publicado no canal Collectors Room, do Ricardo Seelig. Gostou novamente do que leu. Encontrou-me e seguiu-me no Instagram. Após, comentou comigo da sua banda, Slaves of Time, e me convidou à audição do projeto, que mescla elementos de hard rock, heavy metal e metal progressivo.

Gostei tanto do que ouvi, que, sem poupar o vernáculo, elaborei resenha meritoriamente elogiosa.

Long story short: evoluímos, daí em diante, para uma perdurante amizade virtual. Passamos a dialogar frequentemente desde então, inclusive sobre assuntos extramusicais. E, no sábado do evento, encontramo-nos, finalmente, pouco antes do show do Black Label Society. Conversamos naturalmente, com entusiasmo e leveza, como se nossa amizade pessoal já somasse longos anos. A mim, o apogeu da noite naquilo que extrapola a música propriamente dita.

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Percebam: até este ponto, nada falei dos showsa que assisti. Adiantei o spoiler. Não pretendia, e não pretendo, resenhar detalhadamente o evento. O foco é destacar e documentar a emoção dainédita experiência pessoal, com as emoções que a ela se fundiram. Um registro à posteridade, inclusive ao meu eu do futuro quando desejar revisitar esses bons sentimentos.

De todo modo, eu negligenciaria conteúdo fundamental se não incursionasse sobre esse assunto, indissociável ao tema principal: o evento em si.

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Eis, então, algumas notas.

UM VOO PANORÂMICO PELOS SHOWS

A primeira banda que testemunhei foi o Lucifer. Com os portões abertos às 11h da manhã(que davam vazão a uma longa fila já formada) e com o show deles marcado para o meio-dia, cheguei em cima da hora. E não assisti do front row, pois a fila de acesso aos espaços do lounge e das suas outras comodidades estavam enormesnaquele momento. Isso, aliás, é algo que merece aprimoramento nas edições vindouras. Talvez seja o caso de abertura dos portões um pouco mais cedo nos próximos anos.

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Aguardar, então, para entrar no front rowequivaleria a sacrificar parte da apresentação, o que, francamente, eu não desejava. Há alguns anos, perdi a apresentação desse magnetizante grupo de hard/occult rock em São Paulo, no Fabrique Club. Dessa vez, portanto, não queria deixar escapar qualquer detalhe. E, francamente, não houve tanta diferença entre assistir do front row ou da pista comum. Afinal, nesse início de atividades e com sol a pino no limite do calor, o público ainda rareava. Consegui, assim, ver a apresentação bastante próximo ao palco.

Lucifer retornou ao Brasil com formação completamente reformulada. Ao vivo, o conjunto esbanjou energia e vibração. A apresentação deles foi vivaz e contagiante, movida ao hipnótico compasso da performática e misteriosa vocalista, Johanna Platow. Uma das minhas apresentações favoritas do sábado.

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Após, rumei ao lounge para um breve descanso, sacrificando, assim, o show do Evergrey, banda que já vi ao vivo num passado remoto.

A pausa foi estratégica. Afinal, eu estava especialmente desejoso de assistir às apresentações de dois conjuntos que se apresentariam imediatamente em sequência ao Evergrey: Feuerschwanz, da Alemanha, e Jinjer, da Ucrânia. Enfrentar dois shows emendados, sob calor escaldante, exigiria, de fato, um intervalo providencial. E funcionou.

Retornei, então, ao front row em tempo para a apresentação dos alemães.

Feuerschwanz performa um estilo folk metal, que, confesso, não ouço com frequência. O conjunto, porém, desenvolve uma proposta que me aguçou a curiosidade. Sempre me pareceu que a banda pertencia àquele típico catálogo de conjuntos que funcionam bem ao vivo. E não me equivoquei.

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Paramentados a caráter com o figurino que dita o tom do seu estilo medieval e festivo, o conjunto entregou uma apresentação vibrante e vivaz. Instrumentalmente fértil, a banda lançou mão de diversos elementos e recursos, que coloriram os humores da apresentação e elevaram a temperatura do interativo público.

Evidentemente, a execução de Dragostea dintei foi um dos momentos mais marcantes do showdos alemães. Baseada originalmente numa canção do grupo O‐Zone, a mesma faixa foi regravada, no Brasil, pelo cantor Latino, sob o título Festa no apê. Imaginem os leitores, então, o que entoou o público brazuca, em coro, no refrão...

Momento divertidíssimo!

Ovacionado sob saraivada de aplausos, o grupo deixou o palco para, bem ao lado, logo assomar os ucranianos do Jinjer. Nesse momento, separei-me do meu amigo Magosso, que se encaminhou para outros rumos.

Sobre o Jinjer, confesso que não sou particularmente fã dessa sonoridade Djent. Contudo, eu estava especialmente curioso para conferir a apresentação do conjunto.

De fato, confirmei que a música deles não dialoga diretamente comigo. Fiquei, porém,positivamente impressionado com o nível técnicomatematicamente preciso do conjunto. Ao vivo, é o típico exemplo de banda que se garante sem artifícios ou subterfúgios.

A vocalista, Tatiana Shmayluk, impressiona pela segurança e pela habilidade. Apresentando-se, imponente, com um figurino singular, a cantora entregou uma performance surpreendente, alternando entre vocalizações limpas e encorpadas, sempre com enorme afinação, ao lado de incursões vocais visceralmente rasgadas.

Era notório, porém, que o calor excruciante lhe castigou. Tatiana realizava pausas entre as canções – curtas, mas sistemáticas – para retomar o fôlego. A sofreguidão estampou-se também em seu rosto em diversos momentos. Na raça, porém,garantiu-se. Mesmo sem muita comunicação com a plateia, chegou até o fim sem qualquer prejuízo à sua performance, tendo todo o conjunto presenteado o público com uma apresentaçãopesada, cadenciada e precisa, marcada pela competência técnica cirúrgica. Ótimo show!

Após a apresentação do Jinjer, nova pausa. Pulei o concerto do Killswitch Engage, cuja sonoridade não me afeiçoa. Reservei, assim, aproximadamente 1h30min para me recompor até as apresentações sequenciais do Black LabelSociety, do (tão aguardado) In Flames e, por fim, do Arch Enemy. Uma trinca estafante, que, naturalmente, exigiria nova parada providencial.

Sem fazer miséria dos serviços ofertados no lounge, descansei, hidratei-me e esbaldei-me, à saciedade, com o amplo cardápio de alimentação oferecida. Fiz valer o preço do ingresso.

Retornei, então, ao front row para assistir ao Black Label Society. Confesso que não sou grande fã do grupo. Naquela noite, portanto, foi a banda com que menos me conectei.

Considero importantíssima a persona de Zakk Wylde na cena do hard rock e do heavy metal,artista que é detentor de criatividade e de talento inegáveis.

Reconheço a importância e a solidez dos álbuns nos quais o músico participou – seja na carreira solo do Ozzy Osbourne, seja no Black Label Society, sua banda principal – e, frise-se, considero elogiosa a qualidade da banda ao vivo. Era o que bastava para aguçar a minha curiosidade para acompanhar aquela apresentação. Queria, também, dar um check em Black LabelSociety na lista das bandas que vi em algum momento da vida.

Nesse aspecto, portanto, o show valeu a pena. A banda estava entrosada e entregou uma performance pulsante, além de momentos de elevado sentimentalismo, como em In This Rivere Ozzy's Song. Não faz o meu gosto, como já disse, mas reconheço todos os predicados de boa qualidade musical.

Emendando-se à apresentação do Black LabelSociety, o In Flames assomou no palco ao lado, poucos minutos depois. Era a apresentação que eu mais aguardava desde que resolvi comparecer ao festival. A empolgação pulsava indômita. E todas as expectativas se concretizaram.

Ainda que o conjunto, aqui e acolá, resgate canções de seu repertório mais antigo, o protagonismo foca hoje na sua fase mais contemporânea. Há quem torça o nariz para essa faceta moderna do grupo. Não recrimino. Gosto é algo bastante particular e, de fato, o In Flames distanciou-me muito da veia Gothenburg Soundque lhe caracterizou nos primórdios.

É inegável, porém, que, ao se permitir aexperimentações e a exploração de novos caminhos musicais, o In Flames projetou-se a um diâmetro musical muito mais fértil, técnico e variado.

Ainda persistem os elementos de música pesada, que lhe estampam o DNA desde o nascedouro, além das quebras rítmicas e arranjos melódicos.

A concorrência, porém, de vocais limpos, o protagonismo da cadência em detrimento do frenesi rítmico e a lapidação da produção, mais límpida em comparação com os lançamentos antigos, elevaram a qualidade do conjunto para camadas muito mais sofisticadas.

Há quem atribua ao conjunto uma guinadacomercial ao nu metal ou ao metalcore (o que não é necessariamente ruim ou pejorativo). Seja como for, e independentemente de rótulos, o In Flames performa música com indiscutível talento. E isso, claro, se reflete na excelência e no dinamismo de suas pulsantes apresentações ao vivo.

No palco, a banda esbanja energia, transitando pelos polos do peso e da melodia. O conjunto é interativo com o público e o carismático vocalista,Anders Fridén, é extremamente comunicativo.

Após desenvolver uma set-list certeira, que elevou a animação do público, e antes de evocar a canção derradeira, Take This Life, Anders Fridéndiscursou belamente. Deixou uma tocante mensagem sobre gentileza, amor ao próximo e prática do bem em meio ao torvelinho de um mundo amalucado. Eis suas palavras:

"Muito obrigado por serem parte do nosso sonho. Queria poder agradecer a cada um de vocês pessoalmente. Somos de um país pequeno e aqui estamos no Brasil tocando para vocês, lindas pessoas. Vocês não fazem ideia do quanto isso significa. Lembrem-se de ser legais, gentis, demonstrar amor ao seu irmão e à sua irmã.O mundo está louco. Aproveitem o Arch Enemy, eu sei que vocês vão."

Sensibilizei-me. Emocionei-me. Um arremete memorável de uma das bandas pessoalmente mais aguardadas, e que performou de maneira impecável perante um ruidoso e empolgado público.

Encerrando a trinca da noite, os suecos do Arch Enemy, headliners nesse primeiro dia de festival, impuseram-se, imponentes, perante a fervorosa plateia.

Com formação recentemente reformulada – com Lauren Hart figurando na posição de vocalista no lugar de Alissa White-Gluz –, o conjunto também entregou apresentação marcante. Afiadíssimo, o grupo exibiu sua peculiar técnica num show dinâmico, que mesclou o peso do death metal com os elementos mais melodiosos que igualmente marcam a identidadedo conjunto.

Notoriamente emocionada e sonoramente ovacionada, Lauren Hart deu conta do recado. Com um estilo mais cru, agressivo e direto, performou, com perfeição e segurança, as canções comandadas pelas vocalistas anteriores.

Por ora, até mesmo pelo seu recente ingresso no conjunto, Lauren Hart capitaneou vocais em apenas uma canção do Arch Enemy: To the LastBreath, recém-lançada como single. A composição, performada ao vivo, evidenciou que o Arch Enemy já encontrou rapidamente seu caminho com essa nova formação, após abruptatroca de vocalistas.

Apesar do ajuste de som excessivamente alto, a apresentação foi superavitária e entregou aquilo que se esperava do conjunto: precisão técnica, peso visceral e desfile de melodias. Um show para ninguém colocar defeito.

No limite de forças, já próximo das 22h, saí do front row e perambulei um pouco pelo espaço de merchandising. Rumei, após, ao saguão do teatro do Memorial da América Latina, onde ocorria uma espécie de show pós-evento, com os mineiros thrashers do Overdose.

Cheguei próximo ao fim da apresentação, nas duas ou três canções anteriores ao encerramento. Encontrei-me novamente com o meu amigo Magosso, ainda plenamente disposto (diferentemente de mim, já escasso de qualquer resquício de energia).

O teatro estava povoado, mas longe da lotação máxima. Assim, com diversas cadeiras disponíveis, consegui descansar brevemente nesse intervalo, até o fim do show do Overdose.

O PÓS-SHOW: UMA GRATA COINCIDÊNCIA

Retornamos ao metrô. Regressei, então, ao hotel onde hospedei-me, com sentimento de alma lavada e renovada após uma experiência tão catártica quanto memorável. Despenquei de sono rapidamente, perdi o horário do despertador e, felizmente, acordei num solavanco, não muitodepois, ainda em tempo de aproveitar o café da manhã do hotel.

No elevador, duas pessoas com camisetas de bandas revelavam a presença no evento no dia anterior. Conversamos brevemente.

No espaço do café da manhã, uma outra pessoa, que também esteve no festival, puxou conversa comigo, ao observar a camiseta oficial que eu vestia.

Por essas coincidências inexplicáveis da vida e pela insondável amplitude com que os diálogos, às vezes, avançam – distanciando-se até mesmodo assunto original –, descobrimos diversos gostos comuns. O mais óbvio, a música. Além disso, literatura clássica. Por fim, compartilhamos idêntica formação superior e, curiosamente, a mesma profissão (fato tão coincidente quanto improvável).

Disso, claro, iniciou-se mais uma amizade. Esse desfecho reconecta-se com o início desse depoimento e revalida a afirmação sobre o aspecto transcendental e gregário da música. Reforça, ainda, a ideia de pertencimento, bem como a de conexão e de aproximação de amizades. Esse relato é prova autoexplicativa,concreta e suficientemente persuasiva doargumento antes desenvolvido. E, felizmente, não foi um evento isolado em minha vida.

Com espírito elevado, retornei à minha cidade, deixando na capital sentimento de saudade. Regressei ao interior com aquele gosto de quero mais após um evento que ficará tenazmentemarcado com brasa quente na memória e no coração. E o melhor: ainda não acabou. Ano que vem tem mais. Claro, estarei lá!

Muito obrigado, Bangers Open Air, por proporcionar experiência tão memorável. Até 2027! A gente se vê por lá...

Por fim, um justo registro para compartilhar méritos: agradeço ao meu amigo Mateus Ribeiro, competente jornalista e o maior colaborador do site Whiplash.net, pela revisão do texto e pelas dicas de aprimoramento, todas acolhidas. Valeu!

Texto originalmente publicado na página Rock Show.


Bangers Open Air 2026


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Sobre Marcelo R.

"Marcelo R. é natural de Itu. Da fama de sua cidade, herdou alguns exageros, como o gosto pela música e pela literatura. Ávido leitor e aficionado por uma imensa gama de subgêneros do rock, possui especial paixão pelo metal nacional, do qual é incansável apoiador. É colecionador de discos, já tendo completado algumas discografias, como a do Katatonia e a do Bruce Dickinson. Nas horas vagas, é um despretensioso escritor, aventurando-se especialmente em resenhas de livros e de música. Colabora com a página Rock Show, sediada no site Medium. É formado em Direito."
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