As duas bandas que foram as primeiras a fazer rock nacional nos anos 1980
Por Gustavo Maiato
Postado em 25 de janeiro de 2026
Antes de o rock brasileiro virar um fenômeno de massa nos anos 1980, com bandas dominando rádios, programas de TV e capas de revista, houve um período de transição menos glamouroso - e decisivo. Quem ajuda a jogar luz sobre esse momento é Ricardo Palmeira, músico com trajetória profundamente ligada à formação do BRock e que viveu essa virada por dentro, ainda quando tudo estava começando.
Em entrevista ao Corredor 5, Palmeira relembrou o choque cultural que sentiu ao sair do subúrbio e passar a estudar na Zona Sul do Rio de Janeiro no fim dos anos 1970. "Quando a gente veio morar na Zona Sul, foi uma diferença grande", contou. Segundo ele, foi ali que surgiu um ambiente em que jovens falavam abertamente sobre formar bandas, comprar instrumentos e tocar rock - algo raro em sua vivência anterior.
Naquele momento, no entanto, o rock ainda não era o foco principal de Ricardo. Influenciado pelo jazz fusion, ele se apaixonou pela sonoridade de John McLaughlin, a ponto de comprar uma guitarra semiaacústica inspirada na Gibson 335 do músico. "Eu queria ser que nem o John McLaughlin", relembrou, citando também Chick Corea, Return to Forever e Miles Davis como referências constantes.
A virada começou a acontecer quando Palmeira passou a frequentar shows na Sala Funarte, espaço fundamental da cena carioca no início dos anos 1980. Foi ali que ele percebeu que algo novo estava surgindo - e antes mesmo do estouro das bandas que ficariam conhecidas como a "geração 80". Para Ricardo, dois nomes foram decisivos nesse processo inicial.
"Acho que os primeiros do rock nacional ali foram o Lulu Santos e a Gang 90 & As Absurdettes", afirmou. Segundo ele, ambos já apresentavam uma linguagem pop-rock em português quando isso ainda não era comum, especialmente em festivais e shows no início da década.
Ricardo citou diretamente o festival de 1981 como marco simbólico. "O Lulu tocou com 'Areias Escaldantes', e a Gang 90 com 'Eu e Minha Gata'", lembrou, ressaltando que essas apresentações antecederam a explosão comercial do BRock. Na sua visão, esses artistas foram os primeiros a romper com a estética dominante da MPB setentista e apontar para um novo caminho.
Só depois disso, segundo Palmeira, é que a cena se consolidou de vez. "Em 82, 83, começou a vir a galera mais tradicional", explicou, situando o surgimento de bandas como Barão Vermelho e Paralamas do Sucesso já dentro de um terreno preparado. Para ele, Lulu Santos e Gang 90 funcionaram como catalisadores de uma mudança inevitável.
O guitarrista também fez questão de contextualizar o impacto disso sobre a música brasileira como um todo. "A MPB dos anos 70 é inigualável", disse, citando nomes como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Milton Nascimento. Ainda assim, reconheceu que a chegada do rock simplificou a linguagem e abriu espaço para uma nova geração de músicos - ele próprio incluído.
A trajetória de Ricardo Palmeira confirma esse percurso. Pouco tempo depois, ele se tornaria guitarrista de João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, além de integrar a banda de Cazuza em discos e turnês históricas como Ideologia e O Tempo Não Pára. Mas, segundo ele, tudo começou ali, quando o rock brasileiro ainda engatinhava.
Confira a entrevista completa abaixo.
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