Livro "1994, Um Ano Monstro" descreve uma verdadeira saga para ir ao Monsters Of Rock
Por Mário Pescada
Postado em 06 de maio de 2026
Nota: 8 ![]()
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Imagine que você é muito fã de uma banda e faz a si mesmo uma promessa: a de que quando essa banda viesse ao Brasil, você iria vê-la, não importa como. O terceiro livro de Charlie Curcio, "1994, Um Ano Monstro" (independente, 2025), descreve uma verdadeira saga para tornar esse sonho realidade.

A banda em questão era o Slayer, que vinha pela primeira vez ao Brasil para participar do festival Philips Monsters Of Rock, em 27 de agosto de 1994, ao lado de Viper, Raimundos, Angra, Suicidal Tendencies, Black Sabbath e Kiss.
Até aqui tudo normal, Charlie era mais um fã que queria muito ver umas das suas bandas preferidas de perto, tão querida que o levou a formar sua própria banda, o StomachalCorrosion, só que ele, seu amigo Sérgio e Simone, uma conhecida que apareceu em cima da hora da viagem, estavam em Campina Grande, Paraíba, e não tinham dinheiro para pagar pela passagem (de ônibus, avião então, sem chance) até São Paulo. Isso mesmo, o trio não tinha dinheiro para as despesas básicas como alimentação, hospedagem, transporte, etc., tinham, literalmente, o dinheiro contado do ingresso e só alguns trocados no bolso - na verdade Charlie e Sérgio, porque Simone não levou dinheiro nenhum na viagem!
O livro não é dividido em capítulos, é uma história corrida contada na primeira pessoa do Charlie que permeia por três fases: a ida para São Paulo, o festival em si no Estádio do Pacaembu e a volta para a casa.
A ida começa com mochila nas costas e muita disposição misturada com um tanto de imprudência de viajar com uma mão na frente e outra atrás e mesmo inocência de que bastaria seguir o planejado que tudo correria numa boa. Primeiro desafio era encontrar alguém disposto a transportar não um, mas os três desconhecidos por 2.665 km, distância que de carro dura 36 horas (!). Até que essa parte foi relativamente tranquila, pois deram a sorte de encontrar em pouco tempo um motorista de caminhão que lhes deu carona, com a condição de levar Simone na cabine e a dupla Charlie e Sérgio na carroceria, o que se tornaria padrão nas outras caronas dadas.
O trio acaba chegando a SP bem antes do previsto, mas aí veio outro desafio: onde ficar durante quatro dias até o evento? Onde dormir? Do que se alimentar? Por sorte, conseguem um lugar com a indicação de um amigo de Charlie que tinha esquematizado tudo antes mesmo da ida do trio, mas foi por muito pouco que as coisas não deram errado.
Charlie conta tudo com um alto nível de detalhes que nos prende e transporta para os locais, seus pensamentos e todas as situações vividas, mas não faz uma cobertura do que foi o festival, importante que se diga isso aqui. Cita rapidamente alguns trechos de shows e deixa claro que seu foco era mesmo relatar a experiência da viagem, tanto as partes boas, quanto os muitos perrengues, esses últimos uma verdadeira constante ao longo dos dias, sempre à espreita.
Slayer visto, missão cumprida, hora de voltar para Campina Grande e aqui o livro vai ficando angustiante a cada página. Os pedidos de carona recebem não atrás de não dos caminhoneiros e eles se veem presos em São Paulo. Os dias vão passando, o desespero e falta de perspectiva começam a bater forte. Essa parte o livro te pega mesmo, você começa a ficar aflito com aquela situação toda: pedindo trocados as pessoas que ali passavam, biscoitos e fatias de bolo como refeição, dormindo no chão ou em carrocerias de caminhão embrulhados em lona, tomando banho no banheiro do posto, um estado de privação quase total, não fosse a ajuda de uma ou outra pessoa.

O "troféu", ingresso pessoal do Charlie para o festival Monsters Of Rock
Com algumas reviravoltas surpreendentes e depois de muita frustação, afinal de contas eles não tinham para quem apelar, dependiam literalmente da boa vontade de desconhecidos, Charlie só foi chegar em casa depois do dia 7 de setembro, mais de uma semana depois do fim do festival!
Eu mesmo já passei alguns perrengues para ver algumas bandas que gosto fora do meu estado, pode ser que você que esteja lendo também já tenha vivido algo desse tipo também, mas o que foi contado em "1994, Um Ano Monstro", levou tudo a um grau fora do comum.
Ao fim, um livro muito interessante que registra a história de uma viagem louca que só mesmo fãs de rock são capazes de protagonizar para ver seus ídolos.
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