A condição imposta por Ritchie Blackmore para voltar aos palcos
Por Bruce William
Postado em 17 de maio de 2026
Ritchie Blackmore não parece ser o tipo de músico que sente falta da máquina de turnês. Ele ainda gosta de tocar, ainda pega a guitarra, ainda quer subir no palco. O problema, hoje, está mais no caminho até o palco do que no palco em si. Depois de passar décadas entre Deep Purple, Rainbow e Blackmore's Night, o guitarrista deixou claro que viajar longas distâncias se tornou algo bem mais complicado do que simplesmente entrar em um ônibus, avião ou carro e seguir para a próxima cidade.
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Em entrevista à Ultimate Classic Rock, Blackmore contou que a turnê de 2025 do Blackmore's Night precisou ser interrompida por causa de um episódio de vertigem. E ele não tratou aquilo como uma tontura qualquer. "Acordei uma manhã quando estávamos em turnê e tive o que chamam de vertigem. Não recomendo a ninguém. Foi a pior coisa em que já estive envolvido", disse. Em seguida, comparou a sensação a estar em um barco de pesca no meio de uma tempestade enorme, agarrando qualquer coisa por perto para não cair.
O guitarrista disse que já teve problemas no coração, gota e dores, mas colocou a vertigem em outro nível de incômodo. Segundo ele, a situação foi tão forte que parecia algo próximo de um derrame, embora ele ainda conseguisse falar e entender o que acontecia. Blackmore foi levado a um hospital, recebeu tratamento e voltou para casa, mas o problema apareceu novamente dois dias depois. Aos 81 anos - apesar de brincar que está com "150" - ele parece ter entendido que a estrada agora precisa obedecer a outros limites.
A solução que ele imagina é simples: shows perto de casa. Blackmore vive em Long Island e disse que gostaria de tocar em um raio de 30 ou 40 milhas, sem atravessar centenas de quilômetros para cada apresentação. "Eu amo tocar para qualquer pessoa em qualquer palco", afirmou. "Mas chegar até esse lugar, às vezes, a viagem me deixa doente." Ele também lembrou que, quando criança, passava mal ao viajar de ônibus com a mãe na Inglaterra, algo que talvez tenha ajudado a criar uma espécie de fobia de deslocamentos longos.
A conversa também passou pelo novo box do Rainbow, "The Temple of the King: 1975-1976", dedicado aos dois primeiros álbuns da banda: "Ritchie Blackmore's Rainbow", de 1975, e "Rising", de 1976. O material reúne nove discos, shows completos gravados em Nuremberg, Colônia e Düsseldorf, além de raridades. É uma volta a um período em que Blackmore havia saído do Deep Purple e buscava outro caminho, com Ronnie James Dio como parceiro central naquela fase inicial.
Ao falar da saída do Deep Purple, Blackmore voltou a uma explicação que combina cansaço musical e irritação com a dinâmica interna. Para ele, a banda havia virado um comitê. "Quando deixei o Deep Purple, eu simplesmente senti que a banda não estava fazendo sua parte como empreendimento musical. Virou um comitê. Era como se, se houvesse algumas respostas a serem dadas, houvesse cinco respostas diferentes." A comparação que ele fez foi com John Cleese e o Monty Python: em vez de reuniões intermináveis, queria juntar outros músicos e tocar.
Um exemplo que ele citou foi a dificuldade de marcar turnês. Segundo Blackmore, quando o empresário tentava organizar datas, sempre havia alguém com casamento, férias ou outro compromisso. A coisa se arrastava por meses, e ele começou a se perguntar se aquilo ainda era uma banda ou apenas um grupo de pessoas com agendas incompatíveis. A irritação não era apenas logística; havia também a sensação de que o impulso musical tinha ficado travado.
A faísca final veio com "Black Sheep of the Family", música do Quatermass que Blackmore queria gravar com o Deep Purple. Um integrante teria recusado a ideia porque a banda não havia escrito a faixa e, portanto, não receberia créditos autorais. Blackmore achou aquilo ridículo. Gravou a música com Ronnie James Dio em uma tarde, gostou da voz dele e percebeu que aquela rapidez era exatamente o que procurava. "Não havia reuniões de comitê. Ele não estava saindo de férias, nem se casando, nem nada disso."
Essa lembrança ajuda a explicar por que o Rainbow nasceu com outra energia. Blackmore queria sangue novo, como disse em tom de brincadeira, "um pouco como um vampiro", embora tenha acrescentado que não acredita ser um, mesmo que já tenham dito isso. Entre a vertigem que o obriga a reduzir as viagens e a memória de quando largou o Deep Purple para escapar de reuniões e agendas emperradas, o retrato atual de Blackmore é bem coerente: ele continua querendo tocar, mas do jeito dele. O resto, como quase sempre em sua carreira, precisa se ajustar ao guitarrista - não o contrário.
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