O guitarrista "bom demais" para ter hit, segundo Blackmore; "jeito muito especial de tocar"
Por Bruce William
Postado em 19 de maio de 2026
Jeff Beck nunca foi exatamente um guitarrista de refrão fácil. Passou pelos Yardbirds, montou grupos importantes, gravou discos cultuados, influenciou músicos de várias gerações e ainda assim escapou daquele tipo de fama mais simples, em que qualquer pessoa na rua consegue citar três músicas de imediato. Talvez por isso ele seja tão respeitado entre guitarristas: Beck não parecia interessado em repetir a jogada que dava certo. Preferia desmontar a guitarra e procurar sons que muita gente nem sabia que estavam ali.
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Ritchie Blackmore entendia bem essa diferença. Ele próprio construiu uma carreira cheia de riffs marcantes, solos afiados e frases que entraram no vocabulário do hard rock, tanto no Deep Purple quanto no Rainbow. Mas, quando falava de Jeff Beck, o tom era de admiração por alguém que jogava em outro tipo de campo. Em entrevista para a Guitar Player, Blackmore chamou Beck de grande guitarrista e destacou que ele tinha "um jeito muito especial de tocar", diferente de qualquer outro.
A parte que mais chama atenção na lembrança não é a admiração, e sim a surpresa de Blackmore diante da insegurança de Beck. Segundo ele, o guitarrista vivia diminuindo o próprio trabalho. "Ele sempre se colocava para baixo", contou. "Eu dizia: 'Como está seu disco mais recente, Jeff?' E ele respondia: 'Ah, é um monte de lixo'." Blackmore resumiu essa inquietação dizendo que Beck "estava sempre buscando algo que não conseguia encontrar". A explicação ajuda a compreender por que sua carreira nunca seguiu o roteiro mais óbvio do astro de guitarra. Beck podia ter se acomodado em um modelo mais comercial, explorado uma fórmula vencedora ou feito da própria técnica um número de circo permanente. Em vez disso, foi mudando de direção, passando por blues-rock, jazz fusion, rock instrumental, experimentos de timbre e gravações em que a guitarra parecia quase cantar sem voz humana.
Essa talvez seja a razão pela qual a ideia de "bom demais para ter um hit" faz algum sentido, desde que não seja lida ao pé da letra. Beck teve sucessos, reconhecimento e carreira longa. Mas sua grandeza não dependia de um hit popular que resumisse tudo. Ele era mais difícil de embalar em uma música só. Para quem procura um refrão imediato, isso pode parecer falta de foco. Para guitarristas, muitas vezes é justamente o contrário: é o sinal de alguém que nunca aceitou transformar a própria linguagem em produto previsível.
Blackmore também brincou dizendo que Beck "trapaceava" na guitarra, porque tirava notas que ele próprio não tinha em seu instrumento. A piada funciona porque não fala de velocidade ou malabarismo, mas de uma sensação muito específica: Beck parecia encontrar inflexões, ataques, bends e timbres que não estavam no manual. Ele não tocava apenas escalas; mexia no som como quem torce uma palavra até ela dizer outra coisa.
A humildade de Beck, portanto, não era falsa modéstia de entrevista. Parecia vir da distância entre o que ele conseguia fazer e o que ainda imaginava poder alcançar. Blackmore, que nunca foi exatamente famoso por distribuir elogios gratuitos, reconhecia ali uma combinação rara: talento fora da curva e insatisfação permanente.
Para um músico comum, isso poderia virar paralisia. Em Beck, virou motor. Talvez Beck não tenha tido o tipo de hit que cola seu nome na memória de quem só ouve rock de passagem. Mas deixou algo mais difícil de medir: uma ideia de guitarra como instrumento vivo, instável, quase indomável. Blackmore percebeu isso bem. Beck podia achar que seus discos eram "um monte de lixo", mas havia uma fila de guitarristas ouvindo aquelas mesmas gravações e tentando entender onde, exatamente, ele escondia as notas que os outros não conseguiam achar.
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