O álbum que fez o Jethro Tull perder seu guitarrista original
Por Bruce William
Postado em 12 de maio de 2026
O Jethro Tull não nasceu como aquela entidade meio medieval, meio folk, meio progressiva, com Ian Anderson equilibrado em uma perna só e a flauta atravessando tudo. No começo, a banda ainda carregava uma ligação forte com o blues britânico dos anos 60, um terreno onde muitos músicos ingleses da época tentavam encontrar sua própria voz a partir de referências americanas. O álbum de estreia, "This Was", lançado em 1968, ainda mostrava bem esse ponto de partida.
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Só que Ian Anderson logo percebeu que não queria passar a vida inteira nesse formato. Ele havia começado dentro daquela linguagem, mas não parecia disposto a disputar espaço com guitarristas que dominavam o idioma do blues com mais naturalidade. Em entrevista à Guitar Player, ele resumiu isso de forma bem clara: "Eu usei o blues para abrir portas no mercado musical, conseguir uma audiência. E um contrato."
Para Anderson, o blues foi porta de entrada, não destino final. Essa mudança criou um problema dentro da própria banda. Mick Abrahams, guitarrista original e cofundador do Jethro Tull, tinha uma relação muito mais forte com o blues e o R&B. Anderson, por outro lado, começava a puxar a música para outro lugar, misturando flauta, melodias folk, estruturas menos óbvias e até uma leitura de Bach em "Bouree". Não era apenas uma questão de tocar diferente; era uma mudança de identidade.
A ruptura aconteceu justamente no caminho para "Stand Up", lançado em 1969. Segundo Anderson, Abrahams não se sentia confortável com a direção que o repertório estava tomando. "Houve momentos ambiciosos logo depois que o Jethro Tull começou. Essas ambições, infelizmente, não podiam incluir Mick Abrahams porque ele não respondia muito bem à música que eu estava escrevendo, que se afastava demais do amor dele pelo blues e pelo R&B. Ele não estava muito confortável com o rumo que a música estava tomando. A última coisa que ele tocou foi uma música chamada 'Love Story', que já estava se afastando do blues."
A saída de Abrahams abriu espaço para Martin Barre, que se tornaria o guitarrista mais associado ao Jethro Tull durante décadas. No site oficial da banda, "Stand Up" é apresentado como o disco em que o grupo deu um salto, deixando parte das raízes blues para trás e chegando a um rock mais próprio, com influência folk e a guitarra de Barre ajudando a definir esse novo desenho. O álbum também trouxe "Bouree", adaptação de Johann Sebastian Bach que virou uma das faixas mais conhecidas do grupo.
O curioso é que "Stand Up" ainda não era o Jethro Tull de "Aqualung" ou "Thick as a Brick", coloca a Far Out. A banda ainda estava longe dos conceitos mais longos e das viagens que marcariam os anos 70. Mesmo assim, para um músico como Abrahams, acostumado a outra lógica, o recado já parecia suficiente. Anderson estava interessado em sair da estrada principal, enquanto o guitarrista parecia mais ligado ao chão firme do blues.
Abrahams não parou ali. Depois de deixar o Jethro Tull, formou o Blodwyn Pig, grupo que também lançou seu primeiro álbum em 1969 e manteve uma ligação mais evidente com o blues-rock. Já Anderson seguiu cavando aquele buraco estranho onde cabiam flauta, guitarra, folk britânico, música clássica, sarcasmo e umas capas que pareciam ter saído de uma prateleira empoeirada de sebo inglês.
Visto hoje, "Stand Up" ficou como um disco de transição, mas também como uma espécie de certidão de nascimento do Jethro Tull mais reconhecível. Custou a presença do guitarrista original, mas deu à banda uma identidade que dificilmente teria aparecido se todos tivessem ficado apenas no blues. Para Abrahams, talvez fosse uma estrada torta demais. Para Anderson, era justamente essa a graça.
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