Thrash Metal: Álbuns injustiçados nos anos noventa.

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Por Adriano Souza
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A década de noventa foi um período um tanto peculiar para o heavy-metal. Naqueles tempos ainda não se sabia que a cena, ainda muito jovem, não apenas manteria-se forte, mas se consolidaria de forma definitiva nas décadas seguintes. Nesse contexto, o surgimento do Grunge no início daquela década fora talvez o grande atenuadaor desse clima de incerteza que pairou sobre o metal naquela época, já que as bandas de Seattle bebiam muito na fonte do heavy-metal e haviam tomado de assalto a cena músical rockeira. O Grunge era percebido não apenas como uma consequência natural do heavy-metal, mas como uma espécie de evolução, que eventualmente forçou a cena metaleira a rever conceitos, adaptar-se e sobretudo, reinventar-se enquanto gênero musical.

Se por um lado os grandes nomes do thrash esforçavam-se para diluir aquela velha estética do preto e das calças agarradas, como o Metallica em "Load" e o Megadeth em "Risk", por outro, lá no segundo escalão do thrash, onde habitam nomes como Testament, Overkill, Kreator e Destruction, o que se viu foi um movimento de resistência e reafirmação do estilo que deu luz a uma coleção de álbuns predominantemente experimentais, alinhados com a idéia de renovação em voga, porém muito mais condizentes com o passado do estilo.

Toda essa busca pelo novo, aliada a influência de nomes emergentes como Pantera e Sepultura (em sua roupagem CHAOS A.D. / ROOTS), moldaram a personalidade do thrash nos anos noventa e garantiram a continuidade da cena, ainda que muitos discos lançados naquele período, permaneçam até hoje no obscurantismo.

É hora então de fazer justiça e relembrar aqui alguns dos melhores e mais injustiçados discos daquele período:

Kreator - "Cause for Conflict" (1995)

Se hoje o KREATOR vive sua melhor fase no sentido comercial, CAUSE FOR CONFLICT talvez represente o oposto: Lançado em 1995, o disco chegou desapercebido, sem causar qualquer alarde. Apesar disso, CAUSE FOR CONFLICT é muito mais que uma mera tentativa de permanecer revelante frente as dificuldades da época. É um álbum cheio de atitude onde a banda eliminou quase por completo seu componente melódico, permitindo uma conversa imediata com o punk e o hardcore.

Em CAUSE FOR CONFLICT não existe espaço para aqueles típicos fraseados de guitarra entoados em couro durante os shows. Trata-se de um disco bem mais enxuto, rápido e direto. Subapreciado e sensacional na mesma proporção.

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Kreator - "Endorama" (1999)

Muitas vezes apontado como o álbum mais fraco, ENDORAMA consegue ser muito mais honesto do que os trabalhos mais recentes da banda, que por sua vez, já não esconde ter abandonado qualquer intenção de reinventar-se.

Em ENDORAMA porém o KREATOR conseguiu equilibrar peso e melodia de uma forma muito bem resolvida, dando vida a algo até então difícil de ser pensado: Um crossover de thrash-metal e gothic-rock feito com muita propriedade.

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Overkill - "The Killing Kind" (1996)

Após escutar THE KILLING KIND pela milenésima vez, fiz-me a seguinte pergunta: Será que o Heavy-metal precisa sair dos holofotes, assim como aconteceu nos anos noventa, para se manter genial ?

Digo isso pois, assim como o KREATOR, o OVERKILL também passou por um período de relativo ostracismo durante aquela década, ainda que neste período a banda tenha entregue uma porção de discos memoráveis, como é o caso de THE KILLING KIND de 1996.

THE KILLING KIND é um disco praticamente impensável para o momento atual, já que o OVERKILL, assim como a maioria das bandas oitentistas, deu uma certa encaretada e já não consegue pensar tão fora da caixinha.

O que chama a atenção aqui é a diversidade: Uma coleção de músicas que vão de um thrash rápido e virulento, a uma balada conduzida a piano, passando pelo doom, hardcore e até punk rock, sem que a suposta distância entre as diferentes influências crie um abismo na fluidez do disco. Ao contrário, mesmo tão diverso THE KILLING KIND soa incrivelmente homogêneo sem jamais deixar a peteca cair.

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Overkill - "Bloodletting" (2000)

Simplesmente um dos discos menos convencionais que você terá a chance de escutar dentro do thrash. BLOODLETTING (Sangria em português) é uma catarse sonora completa.

Pouco citado nas discussões mais acaloradas, é talvez o melhor exemplo de como o OVERKILL conseguiu se reinventar sem perder o espírito Old School. Aqui a banda decidiu dar uma repaginada e soa consideravelmente mais suja do que de costume.

Em alguns momentos fica inclusive a impressão de que as guitarras ficaram um pouco altas demais na mixagem, mas é exatamente esse pequeno exagero, aliado aos ótimos riffs, que fazem de BLOODLETTING um álbum único na discografia do OVERKILL.

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Testament - Low

O disco que representa a primeira mudança de formação na banda: Saem Alex Skolnick e Louie Clemente e entram James Murphy e John Tempesta para os postos de guitarrista e baterista respectivamente.

Mas apesar do novo line-up, o que realmente mudou aqui foi a atitude da banda em relação a sí mesma: Eric Peterson e Cia decidem mandar para as cucuias aquela velha imagem do thrash-virtuoso pela qual a banda era conhecida e entregam o disco mais orgânico e espontâneo que a banda havia feito até aquele momento.

Importante dizer também que muito do que a banda conseguiu realizar em LOW foi graças a adição de John Tempesta, baterista imensamente mais capaz, que apesar do curto período que esteve na banda, mostrou que uma seção rítmica bem resolvida faz toda a diferença. LOW mostra uma banda bem mais solta, menos preocupada com lirismos e virtuoses e é um petardo thrash maravilhoso que inaugurou uma nova fase de possibilidades para o Testament.

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Sodom - ´Til death do us Unite

É verdade que a discografia do Sodom é um tanto irregular e foi justamente na década de noventa que a banda editou seus discos mais fracos.

Por outro lado, a banda lançou também neste mesmo período um de seus melhores trabalhos: Trata-se de "TIL´ DEATH DO US UNITE", primeiro a contar com Bernemann, guitarrista que deu uma tremenda injeção de ânimo na banda. Mais do que isso, TIL´ DEATH DO US UNITE é o disco que moldou a sonoridade da banda em todos os álbuns subsequêntes.

Não consigo me lembrar de outra banda que tenha sido tão feliz ao combinar thrash-metal clássico, punk, hardcore e é justamente essa capacidade de amarrar estilos de forma tão consistente que faz de TIL´ DEATH DO US UNITE um disco sensacional.

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Destruction - The Least Successful Human Cannonball

Se existe uma banda que passou por maus bocados durante a década de noventa foi o Destruction. Já não bastasse o momento incerto pelo qual o metal atravessava, o Destruction ainda decide demitir o emblemático vocalista / baixista Schmier, membro fundador do grupo.

O que geralmente passa desapercebido porém é a admirável integridade da banda que decidiu continuar a fazer a música que bem entendia, contrariando a tudo e a todos. "Ninguém está interessado em nossa música ? Foda-se, nós estamos ! E quem quiser embracar conosco será bem vindo."

Foi com essa atitude em mente que o grupo, mesmo sem gravadora, continuava na ativa e lançava seus discos por conta própria, algo muito comum hoje em dia porém muito raro no mundo pré-internet para uma banda já estabelicida e com uma base de fãs considerável, como era o caso do Destruction.

O fato é que independente do "estado pouco favorável das coisas", e após dois EP´s lançados, a banda solta seu único álbum deste período: O insano "The Least Successful Human Cannonball" - Um disco que representa uma ruptura ainda mais radical com a antiga sonoridade e que por este motivo permanece indigesto para grande parte dos fãs.

O grande problema é que para apreciá-lo em sua plenitude, TLSHC deve ser entendido não como um disco tradicional do Destruction, mas como um disco de thrash-noventista a "La PANTERA", ou seja: Se você tem dificuldade em fazer essa separação, (o que é compreensível), melhor mesmo é deixar este álbum no esquecimento. Por outro lado, se você, assim como eu, tem o desprendimento necessário e acha que na arte nada é sagrado, não consigo pensar em nada melhor do que este álbum. Por ser tão indiferente ao passado da banda, The Least Successful Human Cannonball pode até parecer um tanto vil, mas é com certeza uma porrada deliciosa.

Obs.: Para quem quiser saber mais sobre essa fase do DESTRUCTION, clique no link abaixo e leia a matéria completa que escreví sobre o tema.
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Carcass - Swansong

Ok. Tecnicamente este não é um disco de thrash, mas decidí mencioná-lo pois é um exemplo muito bom de um grande álbum que foi negligenciado pelos fãs neste mesmíssimo período.

Após "Heartwork", o Carcass decidiu lançar um disco consideravelmente diferente, que misturava o Death Metal característico da banda com uma boa dose de Stoner Rock, estilo muito apreciado pelos músicos, especialmente por Bill Steer, guitarrista e principal compositor.

O fato é que essa mudança de direcionamento foi demasiadamente contra a expectativa dos fãs, de modo que SWANSONG, como o próprio título do disco sugeria, acabou sendo o "Canto do Cisne" da banda, pelo menos por um tempo.

O que escapa ao metaleiro-médio porém, é que na perspectiva do artista a mudança muitas vezes é o próprio combustível que viabiliza novas empreitadas. Em outras palavras, alguns músicos simplesmente não encontram motivação para produzir algo novo, se o novo é exatamente igual ao velho, de forma que SWANSONG, assim como cada disco anterior a ele, tem uma identidade própria dentro da discografia do Carcass, pois é único e não tenta emular fórmulas previamente testadas - Algo que não é possível dizer de "Surgical Steel", álbum de retorno da banda, que apesar de muito bom, soa de certa forma como uma colcha de retalhos, mesmo que muito bem costurada.

Em resumo, Swansong é o produto final dos primeiros dez anos de atividade de uma banda que tradicionalmente sempre desafiou ouvidos de fãs, seja nos primórdios, com seu grindcore virulento, seja no Death n´ Roll de Swansong.

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