Resenha - Iron Man - Minha Jornada com o Black Sabbath - Tony Iommi
Por Daniel Junior
Fonte: PipocaTV
Postado em 07 de agosto de 2013
Nós somos devastados por notícias não informativas. Aquelas que, além de não serem verdadeiras, colocam à prova o quanto o jornalismo da web possui pouca credibilidade. A quantidade de boatos que chegam às páginas virtuais do mundo inteiro – mesmo sem estatísticas – deve ser superior aos fatos. Se alguém tem alguma dúvida quanto a isso visite qualquer portal que se utiliza do futuro do pretérito ("Ozzy teria voltado às drogas", por exemplo) como isca para notícia que de fato é quente ("Ozzy, segundo sua assessoria de imprensa, teve uma recaída"). A frase que diz que vivemos um mundo de mentiras nunca esteve tão próxima de ser verdade.
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Feita a introdução, explico os motivos pelas quais gosto de ler biografias e estou em mais uma (a próxima é do Steven Tyler). Por mais que haja envolvimentos subjetivos e plenamente parciais numa leitura biográfica, lá encontramos aquilo que mais se aproxima da realidade dos fatos sugeridos. Um detalhe, um nome, uma data, uma esquina, sim, alguma coisa pode ficar para trás, mas lá é endereço certo para confirmação de alguns dados e estórias que acabam virando histórias interessantes.
"Iron Man – Minha Jornada com o Black Sabbath" nos apresenta um doce e solidário Anthony Frank Iommi, o guitarrista cunhado por muitos como o "pai dos riffs" ou o "pai do heavy metal", que assim como os outros integrantes de sua banda, teve uma infância pobre (não miserável), que logo foi abastecida por um sonho: montar uma banda e se divertir. Esta é a premissa que todos (eu disse: TODOS) os artistas alimentam até que são apresentados à gravadoras e empresários e me parece que esta relação promíscua (no sentido monetário da palavra) é quem destrói grandes projetos, interrompe processos de maturação artística para dar lugar à modismos, tendências e loucuras vislumbrando enriquecimento rápido baseado em decisões que atendem a alguma audiência.
Um dos maiores méritos de "Iron Man – Minha Jornada com o Black Sabbath" é a presença da ética de trabalho. Iommi em momento algum (especialmente em relação às pessoas que trabalharam direta ou indiretamente com o Black Sabbath) se refere de maneira pejorativa aos colegas de trabalho. Muitas vezes temos na verdade histórias de um cara ‘meio sem jeito’ tentando construir uma carreira profissional cercado por gente amadora ou inescrupulosa, sendo a segunda característica mais presente, certamente. Aliás, se a biografia fosse da banda poderia ganhar o seguinte título "The Four Stooges" ("Os Quatro Patetas"), pois fica muito claro que a simplicidade, a ingenuidade e o envolvimento pesado com drogas e álcool, acabaram lhe trazendo prejuízos óbvios no campo da saúde, mas sobretudo nos bolsos; vivos ainda estão, mas poderiam ser mais ricos do que são, se um "sem número" de empresários não lhes tivessem roubado uma medida considerável de dinheiro, especialmente até o terceiro álbum, "Master of Reality".
De tabela você pode acompanhar as loucuras de Ian Gillan (Deep Purple), o vício nada comedido de Glenn Hughes (outro sobrevivente junkie), o companheirismo de Geoff Nicholls, o entra-e-sai de Bill Ward (uma tendência, não?), a genialidade de Ronnie James Dio (Rainbow, Black Sabbath, DIO), o talento de Ray Gillen e o tapa-buraco Tony Martin, sem contar o amigo sempre presente, Brian May. Sobre Martin, alguns detalhes óbvios: o vocalista pouco reconhecido é o que mais gravou junto à banda ("The Eternal Idol", "Headless Cross", "Tyr", "Cross Purposes" e "Forbidden"); mesmo quando Iommi preferia Dio, mas os problemas burocráticos ou pessoais impediam, Martin era cogitado novamente e fazia seu trabalho. Mesmo assim, e mesmo com 10 anos de banda, certamente é um dos músicos que é recebido com mais má vontade por parte dos fãs. Vai entender…
As decisões musicais que Iommi tomou, especialmente após a saída de Dio, podem até colocar em xeque a qualidade do que o Black Sabbath produziu após este período, mas o livro deixa bem claro que a mudança de integrantes atrapalhou muito a uniformidade da banda inglesa. Por mais que Iommi tenha sido o capitão do barco na maioria das vezes (ele relata que a experiência em "Forbidden", segundo ele péssima pois a produção esteve entregue à Ernie C., guitarrista do Body Count), uma banda que mudou todos os seus integrantes em parte da sua construção sonora, de fato não pode manter uma linearidade.
Em relação à resenha do livro de Peter Criss (Kiss), Iommi detalha questões mais musicais e de interesse não só dos fãs mas daqueles que desejam saber de detalhes de criações de capa (há um capítulo destinado ao "Born Again" com nuances sensacionais), canções, letras, produções da turnê, escolha de títulos de canções… Criss foi muito emotivo e sua narrativa tem até um "q" de vitimização, com o perdão do neologismo. Iommi embora não esconda seus dramas e nem seus próprios vícios, equilibra sua narrativa falando da banda, sua criação artística e seus métodos de composição; isso é a cereja do bolo.
No Brasil cresce a chegada de livros contando a vida de pessoas interessantes como Tony Iommi, mas uma verdade seja dita: o serviço não-avalizado das editoras no que diz respeito às traduções quase sempre fica comprometido, como o equívoco que ocorre na página 18 da edição da primeira edição onde se lê o seguinte:
"…Acho que minha avó era do Brasil. Meu pai nasceu no Brasil. Ele tinha cinco irmãos e duas irmãs…" (Editora Planeta).
Respeitamos o trabalho dos profissionais dedicados ao árduo serviço, mas na verdade o pai de Iommi nasceu na Inglaterra e não em nosso país. Uma ‘versão’ de uma frase pode tirar o contexto original e desinformar. Fica a crítica.
Fora isso, essa edição em específico, tem narrativa até 2011, quando Sharon e Ozzy procuram Iommi para reunião da formação original de uma das bandas mais conhecidas do planeta. De lá para cá a reunião ocorreu em um anúncio pomposo no dia 11/11/11, Bill Ward caiu fora do barco antes dele zarpar, Iommi diagnosticado com linfoma e iniciou seu tratamento, a banda gravou seu disco, o lançou no dia 11 de junho e está excursionando pelo mundo. Já existe uma edição revisada do livro com os novos fatos.
Agradeço as informações suplementares de Suellen Carvalho, as revisões informativas de Rolf e Alex BSide em nosso podcast e agora partimos para leitura da vida do homem da boca enorme e não falo de Mick Jagger…
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