Rodolfo: "O que me distanciava do som do Raimundos eram as letras!"

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Por Rafael Carnovale
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Rodolfo Abrantes ficou nacionalmente conhecido como o vocalista do Raimundos, o rapaz que cantava músicas como "Puteiro em João Pessoa", "Selim", "Mulher de Fases" e "Eu quero Ver o Oco". Mas há cerca de 2 anos Rodolfo resolveu mudar seu estilo e vida. Converteu-se ao cristianismo e saiu do Raimundos, formando o Rodox (codinome que o mesmo adotara anos antes) querendo escrever letras diferentes do contexto da banda. Muito se falou na época. Mas o resultado foi um cd consistente, "Estreito" e alguns shows bem conceituados pelo Brasil. Agora em 2003, Rodox lança seu segundo cd, auto-intitulado, com uma banda de verdade (já que Rodolfo tocou e compôs tudo no primeiro cd, formando a banda apenas para os primeiros shows) e consolidando sua banda como um nome no cenário nacional. Conversamos com Rodolfo (agradecimentos a Emily, que agendou a entrevista) via fone e o mesmo se mostrou falante e simpático, não se privando de responder nada, inclusive sobre as tretas que envolveram sua saída do Raimundos. Completam a formação Fernando Schaefer (ex-Korzus) na bateria, Patrick Lapan no baixo, Bob no samples, Marcus Arduany (ex-roadie do Raimundos) e Pedro Nogueira nas guitarras. Confira abaixo o que rolou:

Whiplash! – Cerca de 1 ano e meio separam "Rodox" de "Estreito". Como você vê o Rodox agora, após o primeiro cd e os primeiros shows?

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Rodolfo / A coisa está bem mais concreta, tipo, o primeiro cd foi seguido pela formação da banda para os shows. Eu nem sabia se queria fazer shows, mas aí foram aparecendo o Fernandão o Bob e a coisa rolou. Agora a banda está formada, e todos compuseram para o álbum. E agora estamos com empresário. É uma banda já formada, por isso o cd veio intitulado "Rodox", pois este é o primeiro cd da banda formada. Estamos felizes com o que está acontecendo, nosso clipe entrando na MTV, os shows aparecendo. As coisas estão começando a deslanchar.

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Whiplash! - Porque você chamou o cd apenas de Rodox e porque usar um motor de três cilindros na capa?

Rodolfo / A parada agora foi formada. No começo houve muita confusão, acharam que era uma carreira solo, que eu tinha mudado meu nome para Rodox, que eu tinha formado uma banda gospel, pois tinha me convertido. Agora é uma banda mesmo. Sobre a capa, foi um acidente, nós fizemos a foto numa oficina, aonde o carro do Bob tava sendo consertado e o dono da oficina chegou com um Maverick de arrancada, e fizemos as fotos. E ficou bem legal, pois a idéia inicial era colocar algo bem maquinaria pesada na capa, pois este para nós é um cd de arrancada.

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Whiplash! - "Estreito" pode ser descrito como um resultado do que você sentia no momento em que gravou o cd. E agora, você ainda usa suas experiências pessoais para escrever suas músicas.

Rodolfo / Eu faço a maioria das letras, e elas estão mais desencanadas do que no primeiro cd. Quando eu escrevi sobre minhas experiências, é porque escrevi para mim, na primeira pessoa, pois sou eu que estou cantando. No primeiro cd havia muita confusão e muito ataque sobre mim e eu preferi falar em minhas músicas, para poder me expressar. A música era minha arma e desabafo. E agora vivemos um momento muito feliz, a banda com o segundo cd, e nós fazemos as letras depois das músicas, e o clima positivo da gravação influiu muito nisso.

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Whiplash! - Na época do primeiro cd, optamos por não entrevistar o Rodox por causa da confusão da época, de tudo que rolou sobre a saída do Raimundos. Resolvemos esperar sair o segundo para que, com a poeira assentada, pudéssemos ter mais o que falar, além do que estava acontecendo na época.

Rodolfo / Boa estratégia! (risos) Na época as pessoas só falavam nisso, mas agora isso ta diminuindo, já houve uma desvinculação da minha pessoa ao Raimundos, pois já faz dois anos que saí da banda.

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Whiplash! - E como os outros membros da banda influíram na sonoridade de "Rodox"?

Rodolfo / Cara, a influência de cada um está no cd, eu sinto a influência de cada membro em várias músicas. Tivemos cinco dias de pré-produção, e todo mundo deu suas idéias. Os caras tocam pra caramba, e o cd foi o resultado de tudo isso.

Whiplash! - E uma curiosidade: apesar do hardcore você voltou a flertar com o punk-rock, isso foi intencional?

Rodolfo / Isso depende da música, cada música pede um som e eu sempre toquei e curti punk rock. Foi como aconteceu com "Foi Bom Esperar", ou "De costas para o Mar" e "Beach Punx", que soam mais como o punk californiano do NOFX, por exemplo.

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Whiplash! - E eu pude perceber que em "De Costas para o Mar" soou para mim como poppy-punk, que você tocava com os Raimundos. Como você se sente voltando a tocar o estilo de sua antiga banda?

Rodolfo / Eu nunca deixei de curtir o Punk Rock. O que me distanciava do som do Raimundo eram as letras mesmo. Eu não tenho problemas em tocar o punk.

Whiplash! - E isso também pode ser verificado em "Inflexível". Você ainda sente comparação com o Raimundos, mesmo já tendo 2 cd’s lançados?

Rodolfo / Nesse cd a principal comparação ta rolando com o "Estreito", tipo, rola uma comparação com o que você fez anteriormente, como quando compararam o "Estreito" com o Raimundos.

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Whiplash! - Agora uma coisa interessante: "Beach Punx" soa como um grito de liberdade do tipo "Tô feliz, ta tudo bem agora, tudo de ruim passou, quero viver". O que te inspirou nessa música e porque o título em inglês?

Rodolfo / A música fala de liberdade. Você ta livre para ser o que é, fazer o que gosta. A música é a mais feliz do disco. Na época definimos os nomes bem na hora da masterização, e o apelido da música era X-GAMES (risos). Não daria para continuar com esse nome, e vimos que a música ficava bem legal com um nome punk, e ficou "Beach Punx".

Whiplash! - Como o que vocês fizeram em "Wipe Out", do Raimundos? (lançada no cd "Lapadas do Povo).

Rodolfo / "Wipe Out" é de um surfista bem prego, tomando na cabeça direto (risos). "Beach Punx" é mais de um surfista mais veterano.

Whiplash! - Outro ponto muito bom foi a versão para "Exodus" de Bob Marley. Vocês transformaram um reggae num hardcore furioso com um baixo excelente. Como vocês escolheram esse cover?

Rodolfo / Desde o primeiro ensaio, a gente precisava de uns covers. "Exodus" tinha uma letra que encaixava no conceito de "Estreito" e foi nosso primeiro trabalho como banda. O Patrick alucinou no baixo e o Fernando alucinou na bateria. Ficou bem louco mas os momentos melódicos são iguais ao original do Bob. Ficou bem louco e eu gostei muito.

Whiplash! - E vocês estão pensando em registrar mais alguns covers, como algo dos Ramones?

Rodolfo / Cara... Ramones acho que não. O pessoal da banda não é muito fã de Ramones, cada um tem seu estilo. Já tem banda demais pendurada no saco do Ramones (risos).

Whiplash! - E inclusive fizeram um tributo meio caça níqueis, em algumas partes, para o Ramones.

Rodolfo / Cara... se você quiser botar o público para dançar basta tocar Ramones. Eu adoro Ramones, mas acho que não é a nossa fazer cover deles. Se os caras fizerem porque curtem o lance fica legal, mas fazer pra pegar filão é tipo um mau caratismo, e a gente pode sentir isso quando ouve cada versão que fazem para músicas dos Ramones. Eu outro dia ouvi "I Wanna Be Sedated" no rádio e só depois que eu soube que era do Offspring. Dá pra sentir quando o lance é sincero. Eu também não posso falar direito, pois ainda não ouvi o tributo.

Whiplash! - E falando nisso, como você sentiu a perda do Dee Dee e do Joey.

Rodolfo / Infelizmente a morte deles, principalmente no caso do Dee Dee, foi devido a uma vida desregrada. Aquele lance dos anos 70 de usar drogas acaba te metendo numa escravidão que pode te levar a morte, dando uma falsa liberdade. Hoje as bandas têm muita consciência, como as Straight-Edge do Hardcore, que são as mais furiosas, não bebem , não fumam e não usam drogas e fazem um som furioso.

Whiplash! - Como o Agnostic Front, um dos grandes nomes do hardcore,que não é Straight-Edge, mas faz um discurso antidrogas e antiviolência.

Rodolfo / Eu acho isso muito massa. É um retorno aos reais valores. Neguinho ouve, vê os caras e acha que eles são loucos que usam drogas, enquanto que eles falam em ter mente sadia, corpo sadio. Eu gosto muito de ver isso no hardcora atual.

Whiplash! - A sua saída e a do Canisso acabaram pegando os fãs de surpresa. Você teve contato com o ele, após a saída dele? Eu acho que se o cara ta feliz, isso é o que importa.

Rodolfo / Canisso é meu amigão cara, eu encontrei com ele semana passada em São Paulo. Na época que eu saí a banda tava no auge, e vieram culpar a minha fé, o fato de eu ter me convertido. Agora com a saída dele, o pessoal pode ver que tem coisa errada. O que eu posso dizer é que ele agüentou mais tempo do que eu.

Whiplash! - Você chegou a ouvir o primeiro cd do Raimundos sem você?

Rodolfo / Eu nem ouvia os em que eu estava, quanto menos um aonde eu não estava. Eu não tinha mais interesse na banda. Se tivesse, estaria nela tocando. Por isso não ouvi.

Whiplash! - Rodolfo, essa é uma curiosidade pessoal. Na época do acidente que matou os integrantes do Mamonas Assassinas vocês acabaram arrebatando parte do público deles, que estava meio que sem ídolos, principalmente com "Mulher de Fases". Te incomodava saber que o mesmo público infanto-adolescente que ouvia essa música também ouvia as letras mais picantes do Raimundos?

Rodolfo / É uma coisa que eu vejo de outra forma. Nosso primeiro cd saiu com várias letras engraçadinhas, como "Selim". Aí veio o Mamonas, e todo mundo achava que eles vieram primeiro, depois o Raimundos. Aí teve o acidente. Daí lançamos o "Cesta Básica" e o "Lapadas do Povo", discos mais sérios, que não tiveram muita exposição na mídia. Nesse momento surgiu o Charlie Brown, detonando tudo, e isso abriu muitas portas para a gente, principalmente com "Mulher de Fases". De fato muitos fãs do Mamonas descobriram o Raimundos. Mas é uma coisa que acontece. Uma banda aparece e sai abrindo portas, criando espaços para outras bandas, como foi com o Charlie Brown Jr. e a gente.

Whiplash! - "Estreito" tem muitas referências religiosas, que refletem seu momento na época.

Rodolfo / Eu vejo mais como espiritualidade, porque as pessoas só falam de religião porque eu sou convertido, e eu curto esse lance de conhecer nossa vida espiritual.

Whiplash! - Agora você até canta sobre espiritualidade. Mas eu percebi que a tônica do cd é o amor. O que está te estimulando agora?

Rodolfo / Cara... eu to muito feliz. Eu sou um cara muito apaixonado. Pela minha esposa, pela banda que eu toco, pelo lugar que eu moro. E as letras foram surgindo naturalmente durante a gravação. E vou te falar, a melhor coisa para se escrever é o amor. Principalmente com o mundo do jeito que está hoje.

Whiplash! - Em 2002 vocês fizeram alguns shows, tocando no Abril Pro Rock inclusive. O que podemos esperar para 2003?

Rodolfo / Em 2002 foram bem poucos shows, mas foram muito legais. O público foi muito legal, foi muito gratificante mesmo. A gente espera em 2003 um crescimento gradativo, até porque não somos a banda da moda. Esperamos poder fazer muitos shows e levar nossas mensagens positivas para muita gente.

Whiplash! - Você tem sua posição espiritual bem definida. Como seus parceiros de banda lidam com isso, porque você não chamou ninguém do meio gospel e sim seus amigos, o que foi bem legal, rolou algo?

Rodolfo / Não cara, porque eu não posso e nem quero impor. Vida com Deus você tem se quiser. E eu nunca tentei pregar através das músicas. As pessoas só dizem que eu falo de Deus porque sabem que sou convertido. Escrevo muita coisa no sentido figurado. Quanto a banda, cada um tem suas idéias e nós nos respeitamos, com muita confiança, que é a base da amizade. Não é como um Israel e Palestina (risos).

Whiplash! - E agora uma pergunta pessoal. Como está o Rodolfo em 2003, passada a poeira da saída do Raimundos, a formação do Rodox, o primeiro cd, os shows e o segundo cd, muito mais consistente, que consolidou a banda?

Rodolfo / Cara.. isso faz eu me senti muito bem, pois sinto que esse passo tinha que ser dado. Minha vida pessoal melhorou, meu relacionamento com meus pais melhorou, meu relacionamento com Deus melhorou. Posso dizer que meu gráfico está positivo e ascendente e esse passo que dei tinha que acontecer.

Whiplash! - Rodolfo, esse espaço é seu para falar aos fãs que na época da resenha de "Estreito", postaram muitas opiniões no fórum, umas a favor, outras contra, mas gerando um debate muito legal, e o mesmo vem acontecendo com o "Rodox". Fale para eles:

Rodolfo / Eu espero que o pessoal ouça, sem preconceito. Vejam que há uma mensagem muito boa. Eu fiz isso com muita oração. A ajuda de Deus foi fundamental e ouçam tudo, principalmente o que está nas entrelinhas, pois tem muita mensagem boa.

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Sobre Rafael Carnovale

Nascido em 1974, atualmente funcionário público do estado do Rio de Janeiro, fã de punk rock, heavy metal, hard-core e da boa música. Curte tantas bandas e estilos que ainda não consegue fazer um TOP10 que dure mais de 10 minutos. Na Whiplash desde 2001, segue escrevendo alguns desatinos que alguns lêem, outros não... mas fazer o que?

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