Como Rodolfo saiu do Raimundos e montou o Rodox: "Essa música que fiz fala sobre o cão"
Por Gustavo Maiato
Postado em 30 de janeiro de 2026
A saída de Rodolfo Abrantes do Raimundos foi um dos rompimentos mais traumáticos e comentados da história do rock nacional dos anos 2000. No auge da popularidade da banda, com discos vendendo alto, presença constante na MTV e shows lotados, Rodolfo tomou uma decisão que ninguém ao redor parecia entender - e que ele próprio demorou a conseguir elaborar publicamente.
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Em entrevista ao Corredor 5, ele conta que precisou aprender a lidar com o julgamento imediato: "Quando eu me toquei, entendi que o meu papel depois da saída era não me ofender com o que eu estava ouvindo. Por mais que aquilo me machucasse, eu falei: 'eu não posso me ofender'".
O cantor relata que a narrativa dominante na época foi simples e cruel. "Todo mundo falando: 'abandonou a banda, abandonou'. Virou lenda, virou boato. Falaram que eu tinha virado Testemunha de Jeová, falaram um monte de coisa. E não tinha internet como hoje, então cada um falava o que queria."
Em meio a esse turbilhão, Rodolfo diz que teve uma resposta decisiva durante uma oração. "Eu falei: 'Deus, estão dizendo que eu abandonei a banda'. E naquela hora Ele me respondeu: 'Sim, você abandonou a banda'. Aquilo me chocou." A partir dali, ele passou a enxergar sua saída como um rompimento total, sem cálculo ou transição confortável: "Eu abandonei tudo também. Sofri o dano, foram 20 anos de cancelamento, mas eu não me arrependo".
Rodolfo, Raimundos e Rodox
A solidão desse período aparece de forma contundente nos relatos. Rodolfo conta que se casou apenas um mês depois de deixar o Raimundos e não tinha sequer testemunhas suficientes para o cartório. "Eu não tinha quatro pessoas pra casar. Tive que ir numa igreja pedir duas pessoas, depois em outra igreja pedir mais duas. Amigos abandonaram, não tinha amigo, não tinha nada."
Ao mesmo tempo, ele via artistas que conviviam com ele nos bastidores falando mal publicamente. "Eu ligava a TV e a MTV fazia enquete perguntando o que tinha acontecido comigo. Gente que dois meses antes tinha me chamado pra viajar estava me detonando na televisão. Isso machucava pra caramba."
É nesse contexto que nasce o Rodox. Mais do que um novo projeto musical, a banda surge como uma válvula de escape. "A música sempre foi terapia pra mim. Eu escrevo melhor nos piores momentos. Quando eu tô sofrendo, é quando a caneta vem com força", explica. Rodolfo diz que chegou à conclusão de que precisava se calar publicamente. "Qualquer entrevista que eu dava, dava ruim. Teve uma pra Veja em que o jornalista colocou tudo ao contrário do que eu falei. Aí eu entendi: fica calado. Sofre o dano. A música era o único lugar onde eu podia falar sem ser interrompido."
O primeiro disco do Rodox foi escrito num ritmo quase obsessivo. "Esse álbum eu escrevi em dois meses. Da primeira música até a última. As letras simplesmente jorravam." Uma das canções mais emblemáticas desse período é "Olhos Abertos", que Rodolfo define sem rodeios: "Essa música eu fiz meio que falando com o cão. É como se eu dissesse: 'você não respira mais na minha cabeça'." Ele chega a citar versos para explicar o espírito da composição: 'A tua face eu já conheço e é difícil de encarar… hoje, finalmente, na minha mente, você não respira mais'. Para ele, era um confronto direto com tudo o que o consumia internamente naquele momento.
Apesar da intensidade artística, o contexto era dos piores possíveis para lançar uma banda. "O Rodox aparece quando a indústria fonográfica quebrou. Disco de ouro virou 30 mil cópias. E era uma banda que ninguém queria gostar. O povo tinha muita raiva de mim." Os shows eram escassos, os cachês baixos e a estrutura mínima. "Você sai de uma equipe gigante do Raimundos e de repente é tudo econômico. Gente saindo da banda no meio da parada, dois caras saíram na mesma semana. Quando dá a impressão que nem quem tá com você acredita em você, é pesado."
Ainda assim, Rodolfo vê esse período como fundacional. Ele afirma que não trocaria a experiência, mesmo com todo o custo emocional e profissional. "Eu sofri o dano, mas isso construiu algo muito sólido dentro de mim." Hoje, ele diz manter uma relação pacificada com o passado e com os ex-companheiros de banda. "Tenho um relacionamento maravilhoso com o Digão, converso com ele quase toda semana. Me alegro de verdade pelo Raimundos. Aquela fase encerrou, minha vida começou ali em 2001." Para Rodolfo, o Rodox não foi um desvio - foi o ponto de virada definitivo.
Confira a entrevista completa abaixo.
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