Legião Urbana: desmitificando "Faroeste Caboclo"
Por Claudinei José de Oliveira
Fonte: rollandorocha.blogspot
Postado em 25 de julho de 2015
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A banda Legião Urbana, a exemplo de 90% das unanimidades do chamado rock nacional, é superestimada por público e crítica. Fato este perfeitamente compreensível, se considerada a realidade histórica de subdesenvolvimento político, ideológico e cultural, na qual a banda surgiu e produziu. Assim como, antes, Os Mutantes e Raul Seixas, entre outros, já haviam feito, o grupo liderado por Renato Russo foi um ótimo tradutor de certos aspectos do rock produzido na realidade anglo-saxã para a realidade brasileira. Ou seja, passa longe da originalidade.
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É aquele velho ditado: "Em terra de cego, quem tem olho é rei." Numa época pré-Internet, as informações viajavam em passos de tartaruga e custavam os olhos da cara. Daí que os artistas "mais relevantes" do rock nacional, "coincidentemente", eram filhinhos de papai em condições de pagar por vídeos, discos e revistas importados e pelo domínio da língua inglesa, quando não passavam um tempo morando na gringa. Diante da impossibilidade da quase que totalidade do mercado consumidor de música nacional ter as referências originais, a inovação, na verdade, era, bondosamente falando, uma espécie de tradução.
Características no trabalho de Lobão, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Camisa de Vênus, Titãs, RPM, Ira! e tantos outros podem, com mais ou menos facilidade, ser rastreadas até seus originais britânicos ou norte-americanos.
No caso específico da Legião Urbana, chega a ser assustadora a quantidade de elementos daquilo que se convencionou chamar "pós-punk britânico" na sonoridade da banda (a saber, a música feita por bandas como Joy Division, The Cure, U2, The Smiths, New Order, entre outros).
Além disso, quem sabe um pouco da história da Legião Urbana sabe, também, do comportamento de "diva do cerrado" do Renato Russo. Num de seus muitos "pitis", se afastou de sua banda (na época, final da década de 1970, a Aborto Elétrico) e viveu uma fase "inspirada" no "folk" de Bob Dylan, conhecida como a fase do "Trovador Solitário". Ali, germinaram dois grandes sucessos gravados pela Legião Urbana, os quais têm em comum a característica narrativa, ou seja, músicas que possuem personagens vivenciando uma história com começo, meio e fim, ou o que as teorias literárias chamam de "épica", bem comum nas chamadas "modas de viola".
A respeito do primeiro sucesso, "Eduardo E Mônica", gravado no disco "Dois", lançado em 1986, as palavras de Regis Tadeu foram antológicas e definitivas:
"Considerada por muitos como uma 'linda história de amor', esta longuíssima música é um verdadeiro tratado sobre a imbecilidade masculina escrito por Renato Russo. O tal do Eduardo não passaria ileso por um hipotético 'Comando de Caça ao Debiloide', mas teve a sorte de chamar a atenção de uma garota metida a intelectual e beberrona. No final, os dois se tornam pais caretas e nossa paciência se extingue como areia em uma ampulheta."
(Fonte: Revista Mosh, setembro de 2004, p. 38)
O segundo, "Faroeste Caboclo", foi gravado no álbum "Que País É Este 1978/1987", lançado em 1987, uma espécie de coletânea com antigas composições da época da Aborto Elétrico e da tal fase "Trovador Solitário", além de músicas não aproveitadas nos dois primeiros álbuns da Legião Urbana.
A saga do tal João do Santo Cristo, com quase dez minutos de duração, palavrões, referências ao uso e tráfico de drogas e contestação política tocou nas estações de rádio Brasil afora até dar calo nos ouvidos da Nação. Dessa forma, Renato Russo trazia à ordem do dia, com vinte anos de atraso, os dilemas com os quais, por exemplo, Bob Dylan e Jim Morrison haviam confrontado o conservadorismo da sociedade norte-americana. Porém, de dentro da nossa realidade embrutecida por um governo autoritário e pela pobreza, Faroeste Caboclo exalava ares de inovação e desafio. Dava a impressão que, dali em diante, nós brasileiros poderíamos ir onde quiséssemos e ninguém seria capaz de nos segurar. Dois anos depois tínhamos elegido Collor e o sertanejo e o axé abriam, plenos, suas asas sobre nós.
Na história da música nacional ficou uma anomalia: uma época em que o texto consciente de meia dúzia de gatos pingados, apesar de nada original, atingiu a cultura de massa, dando a impressão de que era possível "dançar e pensar" ao mesmo tempo.
Desafiando a empáfia intelectualoide de um balde de sociólogos, o genial Tim Maia, do alto de sua sabedoria de rua, já havia dado o toque: "o povão quer música para chacoalhar o esqueleto e para chorar dor-de-corno."
Para fechar com chave de ouro, "Faroeste Caboclo" acabou virando filme, lançado em 2013 e, para variar, apelando para um reducionismo empobrecedor: a velha lenga-lenga do preto pobre que tenta desafiar seu destino apelando para o único meio possível, a marginalidade. Se, ao menos, os roteiristas e produtores do filme tivessem se preocupado em considerar as opiniões do próprio Renato Russo a respeito dos personagens da canção, o filme teria maiores chances de ser surpreendente, de desafiar o lugar comum.
Numa entrevista à revista "Bizz", na época do sucesso de "Faroeste Caboclo", Renato Russo disse que concebeu João de Santo Cristo como o típico "rebelde sem causa", branco e classe média, tentando provar sua honra em meio à pobreza comum ao povão brasileiro, o que pode servir como metáfora à própria condição de Renato diante do sucesso popular. Daria, no mínimo, um enredo bem menos previsível, se é que, no Brasil, alguém precise de uma arte que não seja previsível.
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