Ømni: O Angra de sempre como nunca
Resenha - Ømni - Angra
Por Brunno Lopez
Postado em 21 de março de 2018
Nota: 9 ![]()
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Parecia impossível mas estamos claramente diante de uma obra do power (prog?) metal nacional-mundial. Não é vergonha nenhuma assumir que é possível uma banda conseguir atingir níveis de criatividade musical que flertem com seus clássicos. E o ANGRA fez exatamente isso. Aliás, muito mais do que isso.
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Porém, vamos a alguns fatos preliminares antes do destrinchamento do lançamento Ømni: vocês ouviram o Holy Land desejando encontrar o Angels Cry? Vocês por acaso receberam o Rebirth sonhando com Fireworks?
Eu espero que não. Cada disco tem sua própria concepção e conversa com os fãs de uma forma distinta.
Ninguém quer (ou não deveria querer) um exército de "Carry On's", "Nothing To Say's", "Lisbon's", "Nova Era's" ou "Spread Your Fire's". É o ineditismo que nos brinda com novas canções livres de templates de sucesso — ainda que possamos identificar um pouco dessas fórmulas nessa ou naquela música.
Diferente de outros discos, não temos uma intro instrumental preparatória.
"Light Of Transcendence" começa diretamente com um riff temático e marcante, daqueles que consagraram a banda.
De cara, já dá pra notar que o mago Lione está na sua melhor forma ever. Sua voz conseguiu fazer parte do grupo sem parecer 'o cara do Rhapsody numa banda brasileira'.
Quem ouvir com atenção encontrará notas de "Nova Era" em alguns trechos, seria a primeira visita ao passado?
"Travelers of Time" se apresenta com elementos que marcaram a história do grupo. A música é uma espécie de marco zero, a apresentação do conceito de viagem no tempo que permeia o álbum.
E então nos deparamos com a canção 'polêmica' do disco por dois pontos inusitados: Primeiro temos a Sandy, com todos os estereótipos por seu passado musical e em segundo lugar a inserção de um vocal gutural da Alissa.
Fabio Lione conecta os dois mundos e o resultado é brilhante. Outro ponto forte de "Black Widow’s Web" é o groove inicial do Bruno com o Felipe — em termos abstratos, soa como a construção da teia da viúva negra , tema da música — mostrando que o entrosamento dos dois atingiu um nível espetacular.
Seguindo em frente, quando Insania começou a tocar, a primeira coisa que me veio à cabeça foi a faixa "Twilight Of The Gods", do HELLOWEEN. Não exatamente pelo som, mas pela menção da 'cidade' Insania. Ainda que em Ømni se trate da 'loucura' e 'insanidade', a música do grupo alemão apresenta uma dualidade de realidades opostas. Também aborda viagem no tempo e um conflito entre presente e futuro.
De qualquer forma, temos aqui um hino do grupo brasileiro. Som com potencial de funcionar muito bem ao vivo.
A próxima música quebra o fluxo melódico do disco, apresentando Rafael nos vocais. Não considero 'The Bottom of My Soul' uma canção ruim, mas soa como algo que não deveria pertencer ao disco. O Rafael já foi muito mais coerente em outras participações, inclusive nesse próprio álbum (vide 'Travelers of Time' e 'Silence Inside'), mas não chega a prejudicar o resultado. É um som bom, porém, desconexo com a grandiosidade que estava se desenhando até aqui.
Tanto que "War Horns" entra na sequência com o poder de um single clássico.
Praticamente tudo aqui é digno de admiração. O Lione segue poderoso, Bruno e Felipe perfeitos, e, cara, o que são as guitarras dessa faixa? Não é à toa que o Kiko aparece por aqui. Sem falar nas passagens intrínsecas e os momentos de pleno DREAM THEATER acontecendo. É um Power Metal renovado e inspirador.
A curva de qualidade de Ømni está em plena ascendente quando chegamos à "Caveman". Que música sensacional! É a assinatura ANGRA de qualidade e essência em todos os tempos. Aqui o Fabio Lione chegou e disse: "Eu sou o cara desse disco!"
Eu desafio alguém a não se arrepiar com a linha vocal e a interpretação do mago no trecho 'When I realized that we all will die, like prisoners inside this cave'. É uma das coisas mais bonitas que o ANGRA já fez.
Antes disso, temos as vozes em português fazendo a referência à "Alegoria da Caverna", de Platão.
Quem ouvir com atenção, encontrará um trecho que lembra demais a pegada DREAM THEATER na música "Solitary Shell", do álbum "Six Degrees of Inner Turbulence". Enfim, essa faixa é fantástica.
Mas agora, pare o que você estiver fazendo.
O que esses caras fizeram em "Magic Mirror" é digno de premiação. Pra mim, não só a melhor música do álbum. Ela pode figurar entre as melhores que o ANGRA já fez em toda a sua história. Tem tudo nessa música.
A letra é muito foda, o refrão é lindíssimo, as vocalizações do Rafael no estribilho são mágicas (sério, parece uma passagem pra outro lugar da mesma música).
A referência à "Hunters And Prey" na letra automaticamente nos faz lembrar do EP de Rebirth e talvez seja mais uma fenda no tempo de Ømni. Mas o fato é que a música consegue ser muito maior do que qualquer referência.
As linhas de baixo são muito criativas e envolventes, aqui vemos um Felipe cada vez mais vital para a banda.
É certamente a canção mais Prog que já fizeram, e GOD BLESS THE PROG IN POWER METAL.
Bom, passada a euforia e gratidão, chegamos à "Always More". E aqui sim, temos uma balada necessária e concatenada com o disco. Diferente de "The Bottom Of My Soul", essa música não se encaixaria melhor em nenhum outro lugar.
Ela começa aproveitando o campo harmônico de "Magic Mirror" e apresenta um riff adorável. E quando você já está abrindo um sorriso de satisfação chega o Fabio Lione mostrando porque é um dos vocalistas mais completos da atualidade. A suavidade que o italiano canta as primeiras estrofes é de arrepiar.
Culminando num refrão simplesmente magnífico, podemos afirmar com tranquilidade (abraços Choque de Cultura) que estamos diante de uma música que anda de mãos dadas com 'Gentle Change' e demais clássicos melodiosos do grupo.
E após uma sequência de 4 músicas de valor inesquecível (adicionar exageros também faz parte), o que chega aos fones de ouvido é a faixa "Ømni — Silence Inside". A mais longa do disco é um pré-encerramento de todas as emoções vividas aqui.
O início da linha vocal do Rafael remete diretamente à canção "Caveman", mostrando que a viagem no tempo acontece também dentro do próprio Ømni.
Progressiva, intensa e repleta de variações, todos aqui merecem aplausos por uma performance coesa e empolgante.
Em "Ømni — Infinite Nothing", experimentamos um flashback musical do álbum, em forma orquestrada. Um convite a se parar e ouvir cada passagem com mais cuidado, suavemente.
Em tempos onde fica cada vez mais difícil apreciar um álbum sem fazer outra coisa em segundo plano, temos aqui a oportunidade de viajar pelo disco e se lembrar de como cada canção se conectou conosco.
Desejo boa viagem a todos que ousaram abrir os braços (e os ouvidos) para este disco do Angra. 2018 nem bem começou, estamos em ano de política, mas se for pra votar num candidato a melhor disco, o Ømni deveria estar figurando entre os primeiros colocados nos 'Datafolhas' da vida.
1. Light of Transcendence
2. Travelers of Time
3. Black Widow’s Web
4. Insania
5. The Bottom of My Soul
6. War Horns
7. Caveman
8. Magic Mirror
9. Always More
10. ØMNI — Silence Inside
11. ØMNI — Infinite Nothing
Comente: E qual a sua opinião sobre o álbum algumas semanas após o lançamento?
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