Three Leg Dog: O Poder Sonoro que vem da Estônia
Resenha - Red Sun - Three Leg Dog
Por Erick Silva
Fonte: Blog Punhado de Coisas
Postado em 02 de novembro de 2016
Nota: 9/10.
2016 está sendo um ano atípico. Primeiro, porque grandes medalhões do rock, como Green Day, Dream Theather e Red Hot Chili Peppers, soltaram trabalhos muito fracos, em contrapartida a uma expectativa muito alta. E, segundo, porque a "salvação" pode estar justamente nas bandas mais independentes, que, verdade seja dita, estão dando um banho nos veteranos. Claro, não exageremos ao ponto de bradarmos que há um novo grunge ou um novo punk emergindo por aí. Mas, o que se nota, e é fato, é que esses novos grupos possuem influências bem delimitadas, porém, ao invés de meras cópias, o que tentam fazer é, a partir do que conhecem, construírem, se não algo necessariamente novo, mas, um som que tenha energia de sobra.
É aí que chegamos ao Three Leg Dog, formado em 2013, na cidade de Tallinn, na longínqua Estônia. De cara, poderíamos pensar: mais um power trio? Mais um grupo que baseia seu som no Led, no Sabbath, e adjacências? Mas, como, felizmente, muita coisa não é o que parece, ao darmos uma chance à banda, vamos ouvir um som não só riquíssimo, como também com um experimentalismo tão absurdamente bom que, mesmo algumas músicas sendo longas, elas não cansam. Em suma: é uma questão de construção da canção, algo mais ou menos redondo, que tenha começo, meio e fim, mas, que não seja tocado no piloto automático. Parece uma jam session, só que sem exageros; não há nenhum solo de guitarra ou de bateria desnecessariamente longo, por exemplo.
Essa opção estética é o grande mérito da banda, pois, ao ouvirmos suas músicas, ficamos com a sensação dúbia de que já conhecemos o som de algum lugar, e também que estamos de algo novo e criativo. E, tudo isso só funciona bem devido à harmonia da banda. Já começa pelo genial vocalista e guitarrista Kristjan Pärkson, que imprime uma linha vocal melódica e arrastada, bastante condizente com o som da banda, lembrando, inclusive, muitos dos cantores da era grunge, como Layne Staley, do Alice in Chains. Na guitarra, ele é igualmente soberbo, criando fraseados e notas poderosas, calcadas muito no blues rock, mas, nem por isso, deixa de ter uma inventividade ímpar. Já, o baixista Aimar Sepp é mais contido, porém, consegue criar uma "parede sonora" muito consistente. E, a formação se encerra com a "locomotiva" Joonatan Nõgisto nas baquetas, um virtuose de coração, mas, sem extravagâncias na hora de tocar.
Este "Red Sun", que é o primeiro disco "cheio" do grupo, é um deleite para os fãs do rock setentista, mas, pode ser apreciado, sem contra indicações, pra quem curte qualquer vertente do estilo, dada a qualidade e a versatilidade das composições. É um trabalho não apenas agradável de se escutar, mas, muito bem executado. E, a primeira música, que é a que dá título ao álbum, "Red Sun", mostra muito bem o que vamos escutar ao longo de 45 minutos. A introdução é puro rock progressivo, e, já de início, quando o som "explode" após alguns segundos, dá pra perceber a competência do grupo. É uma composição, épica, emocionante e cativante, ideal para começar um disco assim. A canção que vem a seguir, "Dog", já é mais acelerada (bem mais, diga-se), chegando, incrivelmente, a lembrar, os primórdios do rock, de Chuck Berry a Jerry Lee Lewis, no jeito de cantar do vocalista. Pra completar, a composição ainda tem "paradas estratégicas" e boas variações ao longo de sua curta duração. Mais um petardo digno de nota.
Nesse momento, deparamos com uma música que já pode, muito bem, ser colocada no patamar de clássico. Sim, "Stars" é um baita rock'n roll como há muito não se via, com uma energia impressionante, muitas variações no seu andamento, e um riff sensacional, que inicia e encerra a canção. Sem dúvida, a melhor do disco. Sem perder nem um pouco a qualidade, em seguida temos a climática "Wolf", com seu início lento, de batidas leves, para depois, emergir um som potente e cadenciado, que não faz feio a nenhum dos clássicos do bom e velho Sabbath. A acelerada "Fire", mesmo com uma sonoridade que remete a músicas anteriores desse próprio disco, é boa, mesmo repetindo algumas fórmulas. E, é aí que entendemos mais ainda o diferencial da banda: até quando "imita" a si, consegue extrair algo de qualidade e com uma certa identidade.
"Love Song", como o próprio nome já indica, é a grande balada do álbum, e não faz feio. Com belíssimos riffs de guitarra, uma ótima interpretação do vocal, e uma "cozinha" coesa, a canção é extremamente agradável, não deixando nada a dever aos momentos emocionais do Led ou até mesmo do Scorpions. Já, "Revolution" tem corpo e alma cravados no Mississipi, com um som, de início, rústico, e depois, explodindo num peso enebriante. "Tiger" encerra o disco, e é a mais longa e a mais experimental de todas. Mesclando cadência, fraseados, e toda a sorte de "sons estranhos" (louvada seja "Whola Lotta Love"), a música termina de forma muito digna um trabalho não só muito bem tocado, mas também, bastante cativante (algo que anda faltando aos já citados "medalhões" do rock atual).
"Red Sun" é prova de que se pode fazer um ótimo disco de rock, com influências já exaustivamente conhecidas, porém, com alguns elementos a mais, e certos cuidados extras. Isso tende a deixar qualquer trabalho não só tecnicamente bem-feito, mas que também não abdica de ser palatável. O que falta ao Three Leg Dog para tocar nas rádios menos "viciadas"? Aparentemente, nada. O que falta são as rádios, em geral, ficarem mais antenadas no que o mundo da música tem em termos de qualidade. E, pra falar a verdade, bandas como o Three Leg Dog são boas demais para precisarem de "esmolas" dos meios de comunicação. Estes, é que estão ficando ultrapassados.
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