Judas Priest: uma banda que tentava encontrar seu próprio caminho

Resenha - Resenha - Rocka Rolla - Judas Priest

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Por Hugo Alves
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Toda banda tem sua chamada "fase jurássica", que geralmente compete à época (quase sempre curta) em que a banda gravou um ou mais discos que não necessariamente são essenciais para sua carreira, ou mesmo que não têm nada a ver com aquilo que de fato os consagrou, mas que de fato significa um ponta-pé inicial na carreira do grupo. No caso do Judas Priest, isso é latente ao mencionar o subestimado "Rocka Rolla", de 1974.

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O primeiro disco do Judas Priest pouco tem a ver com o Heavy Metal cada vez mais agressivo e acelerado que eles vêm praticando desde o fim dos anos 1970, com mais veemência após o inacreditável "Painkiller" (1990). Trata-se de um disco de Hard Rock pesado, com muitas passagens um tanto experimentais, mas que parece uma miscelânea de bandas já existentes naquele fim de primeira metade da década de 1970.

A primeira faixa, "One For the Road", parece muito com qualquer coisa que o Deep Purple tenha feito com Ian Gillan nos vocais ainda naquela época, devido às diversas alternâncias de voz e guitarra. Não deixa de ser uma ótima faixa, mas remete imediatamente ao Deep Purple. A faixa-título, "Rocka Rolla", mais parece uma canção dos Beatles de "Sgt. Peppers..." ou "Magical Mystery Tour", devido ao clima mambembe da faixa, e até à batida "disco", mas no refrão a alusão ao Deep Purple volta a saltar aos ouvidos. Em seguida, "Winter", que se une com "Deep Freeze", com efeitos sintetizados, remete às experimentações megalomaníacas do Pink Floyd, mas com uma pitada de obscuridade como só o Black Sabbath (a bateria lembra demais o Bill Ward em "Iron Man") e Alice Cooper praticavam naqueles tempos.

O leitor provavelmente notará as inúmeras alusões que farei até o fim do texto, mas o fato é que "Rocka Rolla", mais do que apenas o primeiro disco do Judas Priest, é o registro de uma banda que deixou latentes suas principais influências, mas que ainda tentava encontrar o seu próprio caminho, ou seu próprio estilo. Vale ressaltar, inclusive, que quem produziu este disco foi Rodger Bain, que ficou famoso por produzir os três primeiros discos do Black Sabbath. De qualquer modo, a quinta faixa é "Winter Retreat", que lembra timidamente o clima sombrio e mágico de "The Wizard", ao mesmo tempo em que o vocal de Rob Halford parece demais com o de Robert Plant nas faixas mas graves do Led Zeppelin.

Uma faixa esquecida no tempo é "Cheater" que, ironicamente, é uma das que mais apontam os rumos que a banda tomaria no futuro, com seu riff nervoso logo no início, e a despeito da gaita que aparece durante a canção. O mesmo se pode dizer sobre "Never Satisfied", com seu clima cadenciado e com a voz de Rob Halford começando a tomar a forma que o fez famoso em todo o mundo. Então, chega a sublime "Run of the Mill", a faixa mais longa do disco (8:32), na qual o Judas Priest deixou explícita uma veia sentimental inacreditável, numa canção triste e doce ao mesmo tempo, com sua batida de Blues. Não consigo me lembrar de muita coisa parecida com isso, então acredito que o leitor possa citar suas próprias lembranças ao ouvir essa canção. Algo que, aliás, nunca mais apareceu na discografia da banda.

Caminhando para o fim da bolacha, "Dying to Meet You" é outra faixa longa (6:18), deixando à mostra uma veia mais progressiva por parte da banda. O que causa estranhamento imediato aqui é o jeito que Rob Halford canta, meio que "encorpando" sua voz, e não tem como não lembrar do David Coverdale do Deep Purple, ou mesmo dos primeiros discos do Whitesnake (que ainda não haviam sido lançados naquele momento). Chegando aos quase quatro minutos, a faixa acelera e ganha mais a cara do que viria a ser o Judas Priest posteriormente. Surgindo num fade-in, "Caviar and Meths", uma composição sublime de K. K. Downing, de pouco mais de dois minutos, finaliza de forma inusitada o primeiro disco do Judas Priest.

O álbum "Rocka Rolla" nunca foi realmente venerado pelos fã. Na verdade, só os mais observadores, ou os mais xiitas, sabem da existência desse disco. Muito disso se deve ao fato de que, poucos anos depois, com a troca de gravadoras, a banda perdeu os direitos sobre este disco e o que veio a seguir, o excelente "Sad Wings of Destiny", aliado a outro fato, o de que gradativamente as canções deste disco foram sumindo dos setlists da banda ao longo dos anos. Uma curiosidade é que, anos depois, o primeiro disco veio a ressurgir com outra capa e reintitulado "Never Satisfied", no que pode ter sido uma tentativa da banda de levar esta obra àqueles que nunca tiveram a oportunidade de ouvi-la. Este disco não deve ser ouvido por quem espera algo pré-"British Steel" e muito menos pré-"Painkiller". Deve-se ouvi-lo mais como algo pré-Judas Priest, como toda banda iniciante tentava se encontrar, eles não fugiram a regra.

Tracklist:

01. One for the Road
02. Rocka Rolla
03. Winter
04. Deep Freeze
05. Winter Retreat
06. Cheater
07. Never Satisfied
08. Run of the Mill
09. Dying to Meet You
10. Caviar and Meths




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Sobre Hugo Alves

Hugo Alves é formado em Letras (Português and Inglês) pela UNISO - Universidade de Sorocaba e futuro mestrando em Literatura ou Semiótica. Começou a escutar Rock aos 11 anos com "Bring Me to Life" do Evanescence, mas o que o tomou para sempre para o Rock and Roll foi "Fear of the Dark" (versão ao vivo no Rock in Rio), do Iron Maiden, banda que, ao lado de The Beatles, considera como favorita, amando quase que igualmente os sons de Viper, Angra, Shaman, Andre Matos, Rush, Black Sabbath, Metallica, etc. Foi vocalista das bandas Holygator e Bad Trip, iniciantes em Sorocaba/ SP, e também toca guitarra e baixo. Outra de suas paixões é a Literatura, pela qual desenvolveu o gosto pela escrita e comunicação.

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