Bruce Springsteen: As letras do "Boss" continuam universais

Resenha - Wrecking Ball - Bruce Springsteen

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Por Vitor Moretti
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Nota: 9

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


Por quase 40 anos BRUCE SPRINGSTEEN tem sido o porta-voz da classe média americana, demostrando em suas composições todas as indiferenças, frustrações e sonhos dessa sociedade. Essa relação próxima com os USA fez com que ouvintes do mundo tudo, principalmente no Brasil, torcessem o nariz para Bruce, como se suas letras fossem exclusivas para o público de lá e nada tivesse a ver com as nossas preocupações do dia a dia.
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Mero engano... Quem nunca se preocupou em estar desempregado, se revoltou com a falta de honestidade do governo ou sonhou com dias melhores? As letras do "Boss" nunca pareceram tão universais como hoje em dia, onde USA, Europa, Brasil, parecem estar passando pelas mesmas crises, os mesmos problemas.

WRECKING BALL, décimo oitavo disco de BRUCE SRINGSTEEN é mais um registro sócio-político, atual e relevante, com uma grande puxada para o folk de PETE SEEGER e WODDY GUTHRIE. Quando Wrecking Ball foi anunciado muitos fãs ficaram descrentes com a qualidade do disco, pois algumas músicas anunciadas já eram conhecidas de longa data e tudo parecia uma colcha de retalhos com composições recicladas mas conforme o albúm se desdobra, é fácil notar que tudo se encaixa perfeitamente no atual contexto. Méritos para o Boss.

"We Take Care Of Our Own" - A primeira música é também o primeiro single do disco e parece continuar de onde Born In The USA parou. Um rockão 4x4 com melodia repetitiva e um ar patriótico a primeira vista mas que, assim como a composição de 1984, é irônica em seu patriotismo e critica toda a omissão do governo com os que realmente são necessitados e condena a ajuda descarada aos banqueiros e políticos corruptos.

"Jack Of All Trades" (uma expressão americana, que representa alguém que é bom em vários oficios mas não necessariamente excelente em nenhum deles, um faz-tudo) é uma séria candidata a favorita dos fãs. Épica, sincera e triste. Como ser um faz-tudo em tempos de recessão? Como acalmar sua família em tempos difíceis, dizendo que "nós vamos ficar bem" mesmo sabendo que isso é mentira? Bruce não poupa os culpados pela situação econômica e canta: "O banqueiro fica mais gordo, o trabalhador mais magro" e "Se eu tivesse uma arma, eu acharia esses bastardos e atiraria".

"Death To My Hometown" mostra como a economia pode trazer morte a uma cidade sem precisar de bombas e armas. "Eles tiraram nossas famílias, fábricas e casas e deixaram nossos corpos no chão, para os abutres comer os ossos".

"Wrecking Ball" - Uma das já conhecidas dos fãs, é tocada ao vivo desde 2009 e tem seu primeiro registro em estúdio. Nesse folk a la Pete Seeger, Bruce parece confortável com seu legado e revisita sua vida com um ar de nostalgia e esperança, desde os pãntanos de Jersey e as vitórias do Giants. É um momento interessante e esperançoso do disco, enquanto Bruce canta "Tempos difíceis vem e vão".

"Rocky Ground" é talvez a canção mais curiosa do albúm, com uma levada mais soul, muitas vozes femininas e até um rap no meio, algo até hoje inédito em qualquer disco do Boss. É emotiva, triste mas com uma bela letra:

"Você usa o músculo e a mente e reza o quanto pode
Para que o seu melhor seja o bastante e o Senhor fará o resto
Você cria seus filhos para que andem na linha e bem
E reza para que tempos difíceis não voltem mais"

É a América novamente suplicando por uma chance, apenas um emprego, para possam simplesmente criar seus filhos.

"Land Of Hope And Dreams" - Outra velha conhecida dos fãs tocada nos shows desde 2000, mas dessa vez com uma outra roupagem e que conta com a única participação de CLARENCE CLEMONS, saxofonista da E STREET BAND falecido em 2011. É uma música sobre redenção, sobre largar tudo para trás e embarcar num trem de fé e otimismo, onde todos os pecados serão perdoados e os dias serão melhores. Extremamente emotiva ao vivo e um solo de sax de cortar o coração é desde 2000 um dos pontos altos do show de Bruce e que tem pela primeira vez uma versão de estúdio.

"We Are Alive", cheia de simbolismo e esperança, é perfeita para fechar um disco que talvez seja o mais abertamente raivoso já escrito pelo Boss, mas que é necessário em tempos assim. Esse sempre foi o trunfo de Bruce, manter o sonho vivo, a esperança intacta mesmo em face de algo desesperador.

"Estamos vivos
E embora estamos sozinhos aqui no escuro
Nossas almas flutuam
Para carregar o fogo e acender a faísca
Para lutar ombro a ombro e coração a coração

Deixe sua mente descansar
Durma bem, meu amigo
Pois no final, o que nos trai é apenas nosso corpo"

Bruce nunca teve tanta razão...

"Wrecking Ball" Tracklisting:

"We Take Care of Our Own"
"Easy Money"
"Shackled and Down"
"Jack of All Trades"
"Death to My Hometown
"This Depression"
"Wrecking Ball"
"You've Got It"
"Rocky Ground"
"Land of Hope and Dreams"
"We Are Alive"
"Swallowed Up" (Bonus Track)
"American Land" (Bonus Track)

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