Spirit: alegria, surpresa, melancolia, paixão
Resenha - Twelve Dreams of Dr Sardonicus - Spirit
Por Ricardo Seelig
Fonte: Collector's Room
Postado em 02 de maio de 2009
Esse é o meu primeiro contato com o Spirit. Acabei de dar play em "Prelude - Nothin´ to Hide", faixa que abre o LP "Twelve Dreams of Dr Sardonicus", lançado pelo grupo norte-americano em novembro de 1970. Legal. Pra falar a verdade, muito legal. Uma abertura climática, densa, quase palpável, seguida por um groove típico do hard daqueles primeiros anos da década de setenta, ainda cheirando ao psicodelismo e à liberdade dos antológicos 60´s. Pra completar, uns backing vocals muito bem sacados, que fazem toda a diferença no resultado final. Porque estou com aquela sensação familiar, que vem de tempos em tempos, anunciando que acabo de descobrir mais um grupo que vai me acompanhar pelos anos restantes da minha vida - e que prometem ser muitos?

"Nature´s Way" faz a suspeita se transformar em uma quase certeza. Belas e emotivas linhas vocais, mais uma vez temperadas por inspirados backing vocals, compõe uma canção carregada de sentimento, perfeita para curtir no final do dia. Uma característica que chama a atenção no som do Spirit, e de praticamente em todos os grupos daquele período, é o predomínio do formato canção. Explico: faixas que se sustentam em sua essência, sem a necessidade de mil efeitos e recursos tão comuns hoje em dia, como afinações malucas e andamentos invertidos. Qualquer uma das doze faixas de "Twelve Dreams of Dr Sardonicus" pode ser tocada para os seus amigos, ao violão, sem maiores problemas, fazendo a música reafirmar um dos seus principais atrativos: a confraternização entre nós, seres humanos, deixada tão de lado em tempos cada vez mais individualistas, onde conta mais ter centenas de amigos em redes sociais do que um bom par de brothers na vida real.
A herança psicodélica sessentista marca presença em "Love Has Found a Way", embebida em ácido, remexida e batizada com substâncias cujas quais não posso falar nesse horário. A melancólica "Why Can´t I Be Free" reafirma minha fé cega, e franca e pura e até mesmo inocente, no grupo, afinal não passo de um ouvinte romântico, daqueles que se preza a escrever algumas linhas sobre o que sente ao ouvir um álbum pela primeira vez.
"Mr Skin" me faz ter orgulho de mim mesmo, de estar ouvindo o disco e colocando para fora as sensações que ele me faz sentir. Uma pop song como, infelizmente, não se faz mais hoje em dia. Backings sacanas, groove pra remexer, metais temperando tudo. Enfim, uma música daquelas que você coloca pra rolar e todo mundo, incluindo aqueles que a estão ouvindo pela primeira vez - como eu! -, vem perguntar "o que é isso que tá tocando?". Sensacional!
E vamos lá! "Space Child" começa como uma daquelas baladas gravadas por Elton John no início dos 70´s, mas, quando você pensa que sabe o que vai acontecer, te pega pelos cabelos, dá um giro no ar e te joga em um mundo novo, repleto de cores fortes e contrastantes, onde o cheiro que mais se destaca é aquele que nos diz que, logo ali, bem na nossa frente, em um lugar que a gente não vê, mas sente, um mundo novo acontece todos os dias.
E viva o rock! A guitarra de Randy California nos faz acreditar, de novo e mais uma vez, no gênero musical que nos acompanha por todas as nossas vidas. Ah, o poder de um riff de guitarra! "When I Touch You" é um rock clássico, com andamento malicioso e escalas cortantes, com uma grande interpretação vocal, que cativa qualquer fã de música com um mínimo de bom gosto. Sem palavras, apenas duas: que sonzeira!
E é isso aí, agora estamos em um bar de beira de estrada, bebendo com nossos amigos enquanto um grupo bem legal toca no palco. Piano, guitarra, vocais inspirados e grudentos nos fazem bater o pezinho enquanto o papo rola solto. Deixa eu ver no encarte ... ah, estou falando de "Street Worm", que pede mais uma cerveja gelada. Garçom, vê mais uma aqui, please!!!
Agora parei. I know your name, apesar de estar conhecedo você apenas nesse instante. "Twelve Dreams of Dr Sardonicus" só poderia ter sido gravado por uma banda chamada Spirit mesmo, porque o que suas faixas nos fazem sentir é, em sua essência, aquilo que a vida nos reserva todos os dias: alegria, surpresa, melancolia, paixão. Enfim, o coração pulsando em um corpo vivo!
Foi só uma audição, mas, nesses meus vinte e cinco anos de consumidor de música, sei perfeitamente quando um grupo me pega pelo pescoço e faz um estrago imediato. É isso que me fez respirar música vinte e quatro horas por dia, todos os dias, sempre. A harmonia entre as notas musicais me faz levitar, voar e, quando percebo, nem sei onde estou. Esse é o meu vício, e ele é valioso demais, bom demais, apaixonante demais.
A música é a minha vida, e, quando, por meros instantes, chego a duvidar disso, topo com um disco como esse "Twelve Dreams of Dr Sardonicus" pelo caminho para não me deixar ter mais dúvidas.
Faixas:
1. Prelude - Nothin' to Hide - 3:41
2. Nature's Way - 2:30
3. Animal Zoo - 3:20
4. Love Has Found a Way - 2:42
5. Why Can't I Be Free - 1:03
6. Mr. Skin - 3:50
7. Space Child - 3:26
8. When I Touch You - 5:35
9. Street Worm - 3:40
10. Life Has Just Begun - 3:22
11. Morning Will Come - 2:58
12. Soldier - 2:43
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