Apocalypse: reconhecimento tardio no Brasil

Resenha - Live In Rio - Apocalypse

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Por Rodrigo Werneck
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Nota: 9

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


O que o Iron Maiden tem a ver com o Marillion? Nada? Então leia a resenha a seguir, que curiosamente trata de um lançamento de uma banda brasileira de rock progressivo de já extensa história, o Apocalypse, e que acaba de lançar seu CD ao vivo gravado em Niterói, no estado do Rio de Janeiro.
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Com seus 24 anos de carreira e 8 discos lançados, o Apocalypse é um grupo que já merecia mais reconhecimento no Brasil. Por incrível que pareça, são mais conhecidos (e reconhecidos) em outros países, já tendo em seu currículo discos lançados na França pela gravadora Musea e apresentações em festivais como a que fizeram no ProgDay 1999, na Carolina do Norte (EUA), show por sinal registrado no ótimo CD duplo “Live In The USA”.

Com mudanças estruturais que foram mais que uma simples troca de integrantes, o Apocalypse incorporou em suas hostes um vocalista solo de grande dinâmica e alcance vocal, Gustavo Demarchi (ex-Cinema Show), mais um novo baixista, Magoo Wise, e manteve os membros originais Eloy Fritsch (teclados), Ruy Fritsch (guitarra) e Chico Fasoli (bateria). Além disso, os vocais passaram a ser cantados em inglês. Anteriormente (em português) eram comandados pelo antigo baixista Chico Casara, ou seja, a banda de quarteto passou a quinteto. Em adição a tudo isso, o estilo foi um pouco alterado, adicionando elementos hard/heavy rock ao neo-progressivo à la Marillion que sempre fizeram com competência. Alguns podem criticar que um certo “sentido de urgência” se fez notar no som da banda, em comparação ao de seu passado, mas por outro lado isso talvez seja quase uma necessidade nos dias corridos de hoje. Pelo menos para quem encara a música como um produto comercial, além de manifestação artística (discussão para mesa de bar e pelo menos uma dúzia de chopes). Por outro lado, é notável que suas performances ganharam em energia e que a nova formação permitirá outros vôos, quiçá mais altos.

O primeiro lançamento dessa nova versão do Apocalypse é na realidade um disco ao vivo, já que o próximo de estúdio (“The Bridge Of Light”) está ainda sendo preparado. A breve história sobre sua concepção é a seguinte: a gravadora brasileira Rock Symphony organizou em setembro de 2005 um festival chamado “Rock Symphony For The Record”, cujo objetivo era o de gravar todos os 8 shows para lançá-los em CD e DVD. O primeiro a sair foi o da banda paulistana Tarkus, e o Apocalypse é portanto o segundo da leva. Ambos, por enquanto apenas em CD, porém com os respectivos DVDs já no forno.

O disco aqui resenhado possui cerca de 75 minutos de duração, e longas faixas com boa distribuição entre segmentos cantados e instrumentais. Logo de cara, o Apocalypse ataca com uma série de remakes de antigas músicas, que receberam nova roupagem e vocais em inglês, conforme mencionado acima. “Cut” (originalmente chamada de “Corta”) é uma música na qual as influências do antigo Marillion (da época em que Fish pilotava os vocais) são ululantes. O andamento, os teclados de Fritsch, tudo transpira Marillion, mas sem parecer mera cópia, com muita competência e inegável talento. Já na faixa seguinte, “South America” (“América do Sul”), do último disco de estúdio do grupo, “Refúgio” (2003), o vocal de Demarchi lembra curiosamente mais o de Bruce Dickinson, do Iron Maiden, daí o comentário do início da resenha. O interessante é que o vocalista trafega bem pelas mudanças de estilo – tendo ele próprio influências assumidas que vão de Peter Gabriel (chega a tocar flauta e a se apresentar com uma máscara) a David Coverdale – que estão bem inseridas no contexto musical da nova proposta do grupo. Entre as influências do rock progressivo clássico dos anos 70, o neoprogressivo anos 80 do Marillion et al, e o prog metal dos anos 90 à la Dream Theater, o Apocalypse molda o seu estilo próprio. Também o baixista Magoo Wise trouxe uma carga de peso ao grupo, tendo feito parte de bandas de heavy metal no Rio Grande do Sul previamente. O baixo Rickenbacker, com seu indefectível e característico som, adiciona uma pegada bem hard às músicas.

A seguir vem “Refuge”, uma recriação da faixa-título do mesmo “Refúgio”, é claro. Começa com a marcante flauta de Demarchi, e apresenta mais “pegada” que a versão original, com vocais mais agressivos, numa clara amostra do caminho que a banda pretende trilhar a partir de agora. Retornando a um som mais progressivo com “Mirage” (“Miragem”, do disco “Lendas Encantadas”, 1997), quem se destaca é a seção rítmica com Fasoli na batera e Magoo no baixo. Duas excelentes músicas do disco “Perto do Amanhecer” (1995), constituindo talvez o ponto alto do disco, se seguem: “Blue Earth” (“Terra Azul”) e “Magic” (“Magia”). Sendo esse o disco de estúdio mais aclamado da banda, não é de se estranhar que seja o que tenha mais músicas incluídas aqui. “Waterfall of Golden Waters” (“Cachoeira das Águas Douradas”) é outra de “Refúgio”, e mantém o pique, com destaque aos teclados melodiosos de Eloy.

Em “Tears” (“Lágrimas”), o estilão neo-prog à la Marillion está de volta, com os vocais de Demarchi, a guitarra pungente de Ruy, e os teclados insinuantes de Eloy evocando os melhores momentos de Fish, Steve Rothery e Mark Kelly, tudo isso emoldurado pela competente cozinha de Fasoli e Magoo, que também nos remete a Pete Trewavas e Ian Mosley (ou Mick Pointer). Frisando, mais uma vez, sem desmerecimento ao Apocalypse. “Time Traveller” (“Viagem no Tempo”), alterna-se entre momentos mais calmos, levados no piano, e partes mais pesadas com vocais “high pitched”, e inclui solo com pedal wah-wah de Ruy ao seu final. Já “Coming From The Stars (medley)” mostra uma nítida influência do Uriah Heep, tanto no som de órgão quanto no vocal de Demarchi, visivelmente calcado no saudoso David Byron (não é de se estranhar portanto que a banda tenha se apresentado antes do Heep em seu último show no Rio de Janeiro, ocorrido em setembro de 2006). Trata-se de um medley contendo músicas dos discos “Perto do Amanhecer” e “Aurora dos Sonhos”, sendo um dos momentos mais apoteóticos do show, com ótimos solos de todos os integrantes, que são apresentados ao público um a um.

Por fim, mais uma versão em inglês de um clássico do conjunto: “Peace In The Loneliness” (“A Paz da Solidão”), incluindo trecho do “Bolero” de Ravel. Ao seu final, numa referência ao passado da banda, Gustavo Demarchi canta uma parte da letra em português, conclamando o público presente a acompanhá-lo.

A qualidade de gravação, mixagem e masterização é excepcional, com todos os instrumentos perfeitamente audíveis, bem como o vocal. Isso não é para menos, já que o engenheiro de som responsável pela gravação e mixagem foi o californiano Bob Nagy, um dos criadores do software Pro-Tools. A masterização ficou a cargo do expert Vinícius Brazil, um exegeta de sistemas de áudio (além de guitarrista da banda progressiva Aether). Espera-se que a qualidade do vídeo do DVD esteja do mesmo nível, embora isso venha sendo uma constante nos lançamentos da Rock Symphony. A arte do CD é bonita, com ilustrações feitas por Gustavo Sazes e incluindo fotos do próprio show registrado, mais os devidos créditos. Um detalhe curioso: na capa, foi incluída a célebre escultura de uma face humana existente defronte ao British Museum de Londres.

Tracklist:

1. Cut
2. South America
3. Refuge
4. Mirage
5. Blue Earth
6. Magic
7. Waterfall Of Golden Waters
8. Tears
9. Time Traveller
10. Coming From The Stars (medley)
11. Peace In The Loneliness

Sites relacionados:
http://www.apocalypseband.com
http://www.rocksymphony.com.br

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Sobre Rodrigo Werneck

Carioca nascido em 1969, engenheiro por formação e empresário do ramo musical por opção, sendo sócio da D’Alegria Custom Made (www.dalegria.com). Foi co-editor da extinta revista Musical Box e atualmente é co-editor do site Just About Music (JAM), além de colaborar eventualmente com as revistas Rock Brigade e Poeira Zine (Brasil), Times! (Alemanha) e InRock (Rússia), além dos sites Whiplash! e Rock Progressivo Brasil (RPB). Webmaster dos sites oficiais do Uriah Heep e Ken Hensley, o que lhe garante um bocado de trabalho sem remuneração, mais a possibilidade de receber alguns CDs por mês e a certeza de receber toneladas de e-mails por dia.

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