Resenha - Pagan - Cruachan
Por Sílvio Costa
Postado em 25 de julho de 2004
Nota: 10 ![]()
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Antes de falar do novo álbum do Cruachan, acho que cabe uma breve apresentação da banda. O Cruachan é um grupo irlandês, claramente influenciado pelo Skyclad e que faz uma mistura muitíssimo bem feita de black metal (e outros sub-gêneros mais extremos) com música folclórica. Quem conhece o genial Finntroll, Battlelore, o nosso Tuatha de Danann não vai ter dificuldades em assimilar o som do Cruachan. O grande diferencial dos irlandeses é que, enquanto essas bandas citadas acima desequilibram as coisas para o lado mais heavy metal, o Cruachan divide o seu som meio a meio. É complicado explicar isso, mas eu vou tentar fazê-los compreender o que é o Cruachan e porque este Pagan não apenas mereceu a nota que está lá em cima, mas também merece a atenção de todos aqueles ávidos por grupos originais e criativos.

Pagan é o quarto full lenght da banda. De cara, duas grandes mudanças em relação aos trabalhos anteriores: a influência de black metal, embora ainda seja muito forte, está menos visível aqui. Ou melhor, a banda buscou um ponto de equilíbrio entre o black e o folk metal que acabou levando o som numa direção diferente de ambos os estilos. Basta ouvir a faixa-título, onde a alternância dos vocais de Keith Fay (que lembram muito o Thyrfing) e de Karen Gilligan criam um ambiente muito legal. Algumas faixas mostram mais claramente a opção da banda pelo lado mais folk. É o caso da instrumental "A Thousand Years", dominada por gaitas de fole. Na seqüencia, "Lament for the Wild Geese" cujo início lembrou muito o Tuatha de Danann, especialmente no timbre da guitarra, é uma linda canção, em que Karen Gilligan demonstra que, apesar de não poder ser colocada no mesmo patamar das grandes cantoras que estão aparecendo no cenário ultimamente, ela é uma excelente intérprete. Aliás, é preciso que se diga que os vocais femininos não são grandiosos. Karen Gilligan nem de longe alcança as notas de Tarja Turunen ou de Floor Jansen. Mas ela consegue transmitir muito bem a mensagem da banda. Com o auxílio de Keith Fay, responsável pelas guitarras e pelos vocais masculinos, o Cruachan dá um passo adiante de um bom número de bandas que ainda acha que basta ter uma voz feminina para garantir originalidade. Em algumas faixas mais pesadas, como "Viking Slayer", a voz de Karen chega a ser meio vacilante, mas não perde o pique em nenhum momento. Aqui o que parece ser mais importante é o conjunto musical e não apenas a garota da banda. Quem ouvir o Cruachan esperando ouvir mais uma banda naquele esquema guitarra-teclado-mulher angelical-cara podrão vai se decepcionar. Quem quiser um som original e feito com muito cuidado, prepare-se para se surpreender.
O Cruachan usa instrumentos bastante incomuns para uma banda de heavy metal. O Bodhram, por exemplo, é uma espécie de tamborim grande (com cerca de 40 cm de diâmetro). É o principal instrumento de percussão da música celta e irlandesa. O seu uso no Cruachan contribui muito em algumas faixas mais melódicas, como é o caso da viciante "Some Say the Devil is Dead" - uma canção típica do folclore irlandês. Além deste, a presença do bouzouki (uma espécie de alaúde de origem grega, dotado de oito cordas), gaitas de fole, flautas e violinos enriquecem imensamente o som já incrível da banda.
Ouça "The Gael" e tente não se apaixonar pela linda melodia de violino emendada com riffs cortantes e muito belos. Não é só a música do Cruachan que é sumamente interessante. As letras também são fantásticas. "Michael Collins", que abre o CD, conta a história do líder revolucionário irlandês que ajudou a fundar a república da irlanda no começo do século XX. Além da história do seu país, a banda investe muito nas lendas do seu país (como em "The Gael", ou "Some Say the Devil is Dead") e na eterna fonte de inspiração de um monte de bandas de heavy metal: J.R.R. Tolken ("The Fall of Gondolin"). Não é só nas letras que o professor mais famoso de Oxford está presente neste CD. Um dos maiores ilustradores da obra de Tolkien - John Howe - é o responsável pela belíssima arte do disco.
Ainda bem que agora mais pessoas terão acesso ao maravilhoso trabalho deste quarteto irlandês, que consegue ser original e transmitir o seu recado sem apelar para modismos e conveniências, coisa cada vez mais recorrente na música pesada. Não espere ver o Cruachan no topo de nenhuma lista de discos mais vendidos, tampouco trocando farpas pela imprensa. O Cruachan fala pela música, como deve ser feito. Ouça e vire mais um fã.
Line Up:
Karen Gilligan - Vocais e percussão
Keith Fay: Guitarras, violões, teclados, vocais, banjo, bodhran, bandolim, bouzouki e percussão
John O´Fathaigh: Flauta irlandesa, flautins
John Clohessy - Baixo, backing vocals
Joe Farrel: Bateria
Site oficial:
http://www.cruachan.cjb.net
Material cedido por:
Encore Records
http://www.encorerecords.com.br
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