Resenha - Their Satanic Majesties Request - Rolling Stones
Por Alisson dos Santos Cappellari
Postado em 11 de março de 2003
Londres, 1967. O mundo fervilhava em meio a novas manifestações culturais. Valores e condutas antes considerados tabus passam a fazer parte do cotidiano. Na música, ainda o mundo estremecia chocado com a nova realidade que seria trazida pelo dito "Grande Tripé" musical que viria a revolucionar tudo o que era até então concebido como música: os Beatles, com o seu "Sargent Pepper’s...", que colocava em xeque tudo o que estava vigendo na antiga e solidificada ordem, sem fórmulas prontas e acabadas, garantindo ao ouvinte uma surpresa a cada canção; The Doors, com o seu disco de estréia, unindo o lirismo intimista à um rock mais pesado e o Velvet Underground, que sintetizava cultura concreta e melodia em um só corpo. Consolidada já como uma das maiores bandas da época, os Rolling Stones eram conhecidos pela união de sua robustez musical, baseada nas antigas canções de blues dos EUA, à inconseqüência típica da juventude. Grande expectativa no meio artístico pairava sobre qual a resposta que o grupo iria dar a esta nova "ordem".
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Embora fossem amigos de longa data dos rapazes de Liverpool, Mick Jagger, Keith Richards e Brian Jones sentiam na pele o fato de estarem em gravadoras rivais, tendo desde o início surgido como uma resposta "suja" em alternativa aos bons moços dos Beatles. Porém agora, quando os mocinhos viraram bandidos, cantando experiências alucinógenas em suas canções, o que sobraria para eles... A sua gravadora, a Decca Records, desde logo, com vistas a aproveitar a nova onda alternativa que se formava, pressionou-os a fazer também o seu "álbum psicodélico", fato que de logo teve sua resistência. Após muita pressão, o desafio foi aceito. Começava a surgir, então, "Their Satanic Majesties Request", o maldito álbum dos Rolling Stones.
Para a concepção da obra-prima, tanto a gravadora quanto os próprios Stones não pouparam esforços. Após muita discussão sobre a quem recorrer, veio de Brian Jones a idéia de chamar os maiores especialistas do mundo no gênero, os próprios Beatles. Em um primeiro momento, a Decca foi duramente contrária a esta idéia, pois se tratavam dos seus maiores rivais no cenário musical. Com muita negociação, porém, acabou esta cedendo, desde que não fosse a negociação oficialmente divulgada, bem como o nome dos convidados não apareceria nos créditos finais do álbum. Assim, feito e aceito o convite, antes dos rapazes de Liverpool fazerem seu retiro espiritual na Índia, no fim do ano (fato que serviu de base para a elaboração do "White Álbum", lançado no ano seguinte) John Lennon e Paul McCartney, deram a sua contribuição. Outra ajuda significativa para a confecção da obra foi a contratação do então desconhecido engenheiro de som John Paul Jones para ser encarregado dos arranjos de cordas constantes em algumas faixas do disco. Jones mais tarde viria a ser baixista e tecladista do Led Zeppelin.
Pouca coisa se sabe a respeito das sessões de gravação deste álbum. Sabe-se que a saúde de Brian Jones já estava um tanto debilitada pelas drogas (este viria a ser o último disco com a sua participação efetiva, vindo ele a falecer em 1969). As participações dos Beatles se deram em uma secreta sessão de estúdio, fazendo parte dos vocais de apoio do desafinado coral que canta a música de abertura do disco, "Sing This All Together", uma faixa que convidava a todos a cantarem a nova canção, numa sátira à nova mania musical que os próprios Stones tiveram que aderir ("Why don’t we sing this song all together/Open our heads let the pictures come/And if we close all our eyes together/Then we will se where we all come from", canta o refrão da música). Contudo, a maioria das composições trazidas para integrar o projeto era de cunho eminentemente stoniano, sem qualquer relação com psicodelia, tendo que ser estas adaptadas ao clima desejado no disco. Talvez por isto, na urgência do lançamento do álbum, o único single a ser lançado era justamente da única música não assinada pela dupla Jagger/Richards, "In Another Land", de Bill Wymann, baixista do grupo, a única música originalmente semelhante a que se propunha a gravadora.
O álbum apresentava uma estrutura conceitual, com duas partes distintas. A primeira, delimitada pelo Lado A do disco, começa com a já referida "Sing This All Together". Seguem-se a ela a pesada "Citadel", onde se torna inconfundível o timbre da guitarra de Richards, tipicamente psicodélica, relembrada anos mais tarde nos filmes do detetive Austin Powers; a também já referida "In Another Land", música de Wyman, retratando um mundo surreal ("were the breeze/and the trees and flowers were blue"), a muito boa "2000 Man", canção de musicalidade inicialmente acústica, com intermédios tipicamente stonianos, que conta a história de um homem cujo nome é um número, que vive entre flores e tem um caso com um computador; e por fim traz a longa colagem sonora de "Sing This All Together (See What Happens)", uma espécie de reprise da primeira música. A segunda parte começa com "She’s a Rainbow", um dos clássicos do disco, com o arranjo mais trabalhado, onde se sente a mão de John Paul Jones. Daí partem a introspectiva "The Lantern", a viajante "Gomper" até chegar em "2000 Light Years From Home", a música mais famosa do álbum, ressucitada na turnê "Steel Weels", do final dos anos 80. Essa música, embora originalmente despretensiosa, deu início à temática "espacial" do meio psicodélico do fim dos anos 60, que teve como expressão maior o início do Pink Floyd, com Syd Barret (escuta-se Astronomy Dominé e Interestrellar Overdrive, faixas do seu primeiro álbum, e logo se vê a semelhança). Por fim, o disco traz "On With The Show", música que retrata o ambiente de uma casa de shows noturnos, onde Jagger atua como Mestre de Cerimônias – um conceito que daria origem ao clássico Rolling Stones Circus, disco ao vivo gravado no ano posterior.
O álbum aqui retratado não teve boa aceitação tanto de público como de crítica quando do seu lançamento. Porém sua importância na história do rock é inegável, seja pela influência trazida para o cenário da época em outras bandas (veja o já referido Pink Floyd), ou também pelo que viria a guiar o trabalho dos próprios Stones no futuro. A partir dessa experiência "mal sucedida" surgiram os maiores sucessos do grupo. Vê-se a influência conceitual de "2000 Man" em "Sympathy For The Devil" e "Jumpin’ Jack Flash" e a experimentações de diferentes tendências musicais, como o country americano em "Country Honk", do álbum "Let It Bleed" ou o gospel de "Shine a Light", do, este sim obra prima "Exile On Main Street". O Satânico disco dos Stones merecem sim ser reestudado e colocado em um melhor lugar na história do rock’n’roll.
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